Santiago Vilela Marques [Professor, Contista, Escritor e Poeta Brasileiro]

Santiago Vilela Marques -nasceu na cidade de São Paulo, mas vim a Sinop com 8 anos de idade, em 1975.

Seus pais nunca gostaram muito da metrópole e viram, à época, a oportunidade de reconstruir a vida num lugar mais semelhante ao de suas origens (eles são do interior paulista). Por isso, sou muito mato-grossense, pois toda minha identidade antropológica, que se elabora a partir da pré-adolescência, foi moldada pela cultura e pela geografia local.

Embora eu tenha voltado a São Paulo, mais tarde, para estudar, trabalhar e casar, nunca me identifiquei totalmente com a vida na metrópole.   

"Se não sou totalmente mato-grossense, não posso igualmente afirmar que seja paulistano. 
Devo a Mato Grosso minha paixão pelos livros. Nos primeiros quatro anos de nossa estada em Sinop, não tínhamos eletricidade e, principalmente, até o início dos anos 80, não tínhamos televisão. Eu, que, em São Paulo, era educado pela "babá eletrônica", tinha tudo para me tornar um "vidiota". Em Mato Grosso, fui obrigado a transferir o lazer alienante da televisão para o prazer libertador dos livros. Por isso, até hoje, quando um aluno me pergunta o que fazer para gostar de ler, a resposta vem rápida e sem pestanejar: desligue a televisão!"


O escritor Santiago Vilela, meio paulistano, meio sinopense, ganhou dois importantes prêmios nacionais, em concurso promovido pelo SESC Brasília, com abrangência nacional, nessa edição de 2009, recebeu um total de 672 inscrições oriundas de todo o Brasil. Foram premiados, em dinheiro e com o direito a uma publicação em coletânea, a ser lançada em 2010, os nove melhores textos, três em cada categoria.

Uma grata surpresa para a literatura brasileira produzida em Mato Grosso é Santiago Vilela Marques, residente em Sinop, desde o início dos anos 80. Ele conquistou o 2º lugar no Prêmio Sesc de Contos Machado de Assis (adultos), com o texto “Centauros”, e o 1º lugar no Prêmio Sesc de Contos Infantis Monteiro Lobato, com o conto “O bom dragão”. 
Com estes prêmios, Santiago já acumula três conquistas nacionais, visto que em 2007, teve um de seus contos laureado com o Prêmio Nacional de contos Ignácio de Loyola Brandão.

Além de contista, Santiago vilela Marques é poeta.
Publicou os livros de poemas “O Primeiro” (2005) e “O Outro” (2008), e é também co-autor dos livros “Ângulo Bi” (coletânea de contos) e “Dez Modernistas” (Guia de leitura sobre dez autores modernistas brasileiros). 

Outro, foi todo concebido como um lugar onde eu pudesse manifestar minha identidade norte-mato-grossense. Eu o escrevi quase inteiro durante um "exílio" em Araraquara (SP), para cursar o mestrado e o doutorado. Ali, distante do lugar que eu mais amava, movido pela saudade da floresta, escrevi a maior parte dos seus versos. Como disse acima, sou paulistano de nascimento e mato-grossense de criação. Sou uma identidade em trânsito, só consigo me definir pela ambiguidade. Do mesmo modo, costuma-se ouvir, aqui em Sinop, que "não temos cultura", por causa de uma dificuldade de fixar uma tradição cultural autóctone ou ao menos hegemônica para o lugar. Acontece que nossa cultura, como eu já disse, é a de um espaço de fronteiras, de convívio de muitas culturas. Acredito que, se pudéssemos eleger um valor ou uma imagem que sintetizasse nossa cultura, seria o do "conflito", a da "tensão". Somos um pouco desterrados na própria terra. Sabemos que este lugar não era nosso e foi conquistado à base de conflitos. Queremos nos sentir donos de nosso lugar e somos continuamente impedidos disso por uma espécie de errância coletiva. Por outro lado, o convívio de tantas culturas diversas impede a hegemonia: diante da cultura "estranha", qualquer uma dessas culturas em constante contato sempre relativiza os próprios valores. Somos, assim, sempre outros para nós mesmos. O tema é tão obsedante, que tenho um segundo livro a publicar, ainda sobre o problema desta identidade. Chamei-o Roma Amazônica e inspirei seus 12 poemas nos 12 cantos da Eneida, de Virgílio, talvez o primeiro grande livro ocidental a expor as sutilezas do mundo contraditório que o processo colonizador edifica. 









"Centauros" foi uma tentativa de incursão pela narrativa fantástica, até certo ponto frequente na minha prosa, pela influência de muita leitura dos hispano-americanos. 














"O bom dragão" é minha única narrativa planejada para um leitor infantil. Talvez, por isso, seja um dos meus contos mais arduamente arquitetados, uma vez que, se há um gênero literário em que um perfil melhor definido de leitor nunca pode ser perdido de vista, este gênero é o infanto-juvenil. 






Três Tigres Trêfegos (2010), publicado em coautoria com os poetas Juliana Roriz Aarestrup e Henrique Roriz Aarestrup Alves, seus poemas afirmam mais incisivamente a temática social presente desde a primeira publicação, principalmente na preocupação com a atividade exploradora que sempre caracterizou nosso processo civilizatório e colonizador. 




Não tenho editora e, portanto, a distribuição é artesanal. Confesso que me sinto até um pouco culpado, quando vejo colegas tão empenhados em divulgar suas próprias obras, e eu aparentemente negligente com minha produção. É que, de um lado, tenho dificuldades com a autopromoção e com a exposição pública (sou tímido e muito bicho do mato, por isso me enfiei na floresta... rs) e, de outro, quando publico alguma coisa, já estou envolvido na escritura de outra obra e, como, para qualquer artista, escrever é mais importante que se promover, acabo esquecendo meus livros na prateleira. Ainda bem que tenho amigos que se dedicam melhor ao que eu faço do que eu mesmo (rs). Graças a esses amigos, hoje apenas o Outro ainda não está esgotado. Em Cuiabá, sempre deixo alguns exemplares com o Mário (Leite) e o Paulo Sesar, que se elegeram carinhosamente meus divulgadores na capital. Também costumo fornecer exemplares a bibliotecas, em especial as coletâneas de concursos, cuja cota para autores não nos permite divulgação em larga escala.

Santiago mantém o ritmo de uma literatura apurada e autêntica. Lê muito. 

Alguns de seus trabalhos figuram em antologias de prêmios nacionais, como o conto “Aula de Biologia” (Prêmio Nacional de Contos Ignácio de Loyola Brandão – 2007), o conto “Hora de dormir” (Prêmio Sesc de Contos Machado de Assis – 2008) e o poema “Escola da Vida” (Prêmio Sesc de Poesia Carlos Drummond de Andrade – 2008). É formado em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero (SP), com mestrado em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde cursa atualmente o doutorado no mesmo programa de pós-graduação.


Santiago defende o conto como um gênero sólido e não menor em comparação ao romance, cita a importância dos concursos literários para os escritores, principalmente os iniciantes, e lamenta os baixos índices de leitura no Brasil. “Com relação à prática de leitura na escola, tenho notado algumas boas intervenções de professores e coordenadores bem intencionados. Infelizmente, ainda são exceções nas práticas medievais de muitas de nossas escolas. Outro problema é o pai que não se preocupa absolutamente com a formação dos filhos e acha que educar filho não é responsabilidade de pai e mãe, mas de professor”.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista com o contista da cidade de Sinop.




"A produção em Cuiabá dispensa comentários: são muitos os grandes autores e não vou correr o risco de omitir algum nome com uma lista. No geral, percebo maturidade suficiente para ombrear com a literatura nacional, o que me deixa muito feliz e orgulhoso do meu Estado (rs). Se eu fosse eleger uma leitura de cabeceira, dentre autores de Mato Grosso, eu apontaria Dom Pedro Casaldáliga. Talvez por um contato mais próximo que tenho desenvolvido com sua poesia, em função dos estudos na universidade, mas também pelo respeito que cultivo pela ousadia de poesia social. Uma coisa que acho curiosa é a tendência, da nova poesia em Mato Grosso, para uma linguagem mais universalista, com pouca recorrência ao elemento regional. Talvez o Mato Grosso - e Cuiabá principalmente - esteja se tornando cosmopolita. No caso de Sinop e de todo o norte do Estado, isto talvez seja ainda mais notável, uma vez que nossa cultura é mista, um "entrelugar" cultural edificado pelo fenômeno da imigração. O importante, nesse caso, é que já aparecem alguns escritores, nesta região, com produção de qualidade, dos quais talvez fosse interessante ressaltar um grande percentual de mulheres poetas, como Marcelina Oliveira, Marli Waker e Helenice Faria, só para ficar nas que já estão produzindo há mais tempo. É bom lembrar ainda que, se o Paulo Sesar hoje escreve em Cuiabá, nós também o pleiteamos como autor sinopense (rs)."

Seu próximo trabalho será uma coletânea de 12 contos, ilustrados pelos talentosos desenhistas do Refúgio: Jhonatan Tavares e Alisson Rodrigues. Membro do Cineclube Zumbis, atuou como Roteirista no Documentário "Fronteiras", escolhido para concorrer no I Festival Tudo Sobre Mulheres, Chapada dos Guimarães, MT, e vencedor do prêmio de Média-Metragem no II Festival de Cinema na Floresta, Alta Floresta, MT. Fez trabalho de Supervisão de Roteiro do Curta "Menire Karõ - Espírito de Mulher", baseado no Romance Iracema de José de Alencar, produzido pelo conjunto de professores, estudantes e funcionários da Escola Estadual São Vicente de Paula, Colíder, MT, escolhido para concorrer no II Festival de Cinema Tudo Sobre Mulheres.

Trabalhos publicados e inéditos podem ser encontrados no endereço eletrônico: Poacatu

Poemas Santiago Vilela Marques

CIBER-ROMÂNTICA
O meu amor mora do outro lado do mundo. Mandei fazer
um navio para buscar o meu amor. Mas ela preferiu navegar num scrap.


CEGUEIRA
O
caracol esconde
o rosto
no seu poço de ostra
e
espera a resposta:-
Cadê o sol?


TAJ MAHAL

"Até que
a morte os separe ou
te faça erguer um palácio."Quem
disse que amar é fácil?

CONFIDÊNCIAS DO MATO-GROSSENSE

Nesta vida de meus anos nunca nasci em Mato Grosso. 
Mas que saudade me dá de morrer aqui.
O corpo encerrado no oco do último tronco de cedro antes que o inverno leve da praia as folhas de jacarés no vento, e caiam as penas dos tuiuiús maduradas à força.
Além da chuvinha de agosto ninguém não vai chorar por mim que não tenho fazenda, não nem sou dono de gado nem sujo a mão de soja. Que eu sou mato-grossense e o Mato Grosso é dos outros.
Mas sou tantos couros que quando me esfolarem a pele de bicho morto nem vai doer.


COR 
Coisa que me alegra
é vestir a pele negra da noite.
É quando pega cor em mim
toda vontade pálida e cega
e perco o destino morno
do corpo opaco e lúcido.

E o homem se cobre da carne
de todos os gatos pardos.



Conto de Santiago Vilela Marques

CENTAUROS
(2o lugar no Prêmio Sesc de Contos Machado de Assis,  2009)

Para que a fêmea se possa juntar aos machos é preciso que tenha cada um o que permita a troca de gozos.
(Lucrécio)

Um arranca num passo ritmado
Outro ergue galhardamente o pescoço. 
(Rubén Dario)

O diabo baixou ao mundo. E não é certo dizer assim, que mais próprio é imaginar que ele tenha subido. Isso de descer é coisa de anjos, ansiosos de baixezas. O demo, o que quer, é sempre o alto, as nuvens que lhe negaram. Por isso falam por aí que é senhor do fogo, que nunca desce, mas busca sempre o céu. Só rasteja quando o vento de Deus sopra-o de novo para os ínferos. Então a chama lambe o chão como foi decidido que seria o destino das serpentes e de quem nasce para imitá-las.

Isso é, porém, coisas da teologia. E esta história não tem teólogos. Tem um povinho que conhece de teologia só as rezas de santos e as mandingas de espantar as artes do capeta. Essas rezas que iniciam prontamente, quando reconhecem o rosto do cujo numa artimanha de arrebanhar as almas que nosso senhor perdeu no jogo eterno.

E andam viciados os dados do além. Ou não se viam tantos ganhos da outra parte. Aquela contra quem os espíritos torcem, mas em quem os corpos apostam, que nunca vão de acordo os dois neste cassino planetário. Sempre num jogo duplo cada homem, desespero dessa raça de andróginos caídos.

É isso que o povo comenta com sua trovejante vox dei de teólogo amador. Como foi também ele que atribuiu ao tinhoso o nascimento de Manipo. Ou Manuel Epaminondas, como foi solenemente chamado pelo sacerdote da santa igreja católica, no sagrado rito de exorcizar, pelo batismo, os demônios das criancinhas que vêm ao mundo tão pagãs.

Quando Manipo forçou-se ventre abaixo da jovem mãe agonizante com o primeiro parto, ouviu-se terrível relincho atravessando as porteiras da fazenda e estremecendo os peões mais intrépidos em suas redes de descansar a poeira. Gelou o pai, o caseiro da fazenda e os empregados que dividiam um cigarro de palha na espera do natalício. Tramou-se a lenda. E, enquanto, dentro, o pequeno era envolvido em panos que o protegessem da frialdade noturna que assusta deste lado da vida, cá fora já teciam sobre ele outra tapeçaria, tear ligeiro e criativo que sempre foi a língua dos homens.

Mas o pai, testemunha experiente de outros partos – não de sua lavra, que a história ainda não trata de traições e adultérios, chegaremos lá –, em vez de correr ao quarto e à cama que lhe presenteava o filho, saiu porta da casa afora e mergulhou porta do estábulo adentro: a estimada égua Estrela acabava também de parir seu primeiro potro. Sem plateia. Sem bacias ou toalhas. Na assistência pura da Providência, mestra insuperável de todas as parteiras. 

Não faltou quem observasse a menor preocupação do pai com a criança do que com o potro, e não se sabe a que deus ou por que graça foi aquela vela acesa no oratório. Alguns até o defenderam, dizendo que, para um boiadeiro, tudo é filho, alimária e gente humana. Na sua bonomia inocente, esses ditos acabaram servindo de instrumento inconsciente ao embaralhamento dos fatos. Pois, na lógica das palavras, a intenção é só um dialeto, que cada um entende conforme os vícios do ouvido. Gente e bicho se confundiram, então, e a bondade ou a maldade das conversas só serviu para variar as versões da história malfadada de um menino-cavalo nascido do pecado ou da divindade dos pais, que eles sempre são divinos ou perversos. Isto, este povo, que além de teólogo é sublimamente psicólogo, já sabia antes de Freud. 

Conta, uma versão, que menino e cavalo nasceram gêmeos. E os livros de genética poderiam ressalvar que não eram certamente univitelinos. Mas ao povo não ocorreu esta observação, pois a genética é uma ciência nova nestas bandas. Outras narrativas acorriam na prática, internacionalmente condenável por deselegância, de ofender a mãe. Acusavam a pobre genitora de fazer “sujeira” com os cavalos da estância, ora tão limpos e tão asseados. 

Aos folcloristas, podemos apontar uma variação deste motivo: a acusação do pai, que se teria aliviado na dileta égua Estrela, esta bem menos ofensiva do que as melindrosas referências à maternidade. Todo mundo sabe que ultrajar o macho dos genitores nunca gerou duelos memoráveis. Até os príncipes dinamarqueses se incomodam menos com o homicídio do pai do que com a usurpação do leito materno. 

A diversidade das manifestações poéticas populares aumentava, assim, dia a dia, alimentada com novas notícias. Como a da amamentação dos recém-nascidos, pois, com poucas semanas de vida e lenda, já o pequeno Manipo ficava sem o leite da mãe, inexperiente ainda esta em produzir, do próprio corpo, a nutrição da cria. Sorte a égua Estrela poder fartar ao potro e ainda servir de ama-de-leite. Bicho já nasce experiente. A gente ainda é meio primitiva. 

Crescidos os dois na mesma teta, não era de se esperar que se irmanassem, como mandam as boas virtudes entre filhos de ventre e de criação? Assim lançaram-se na vida, Manipo e o potro, andando sempre em par. Mesmo depois de crescidos, agora um sobre o outro. Embaixo o cavalo como manda o normal, para desgosto do povo, que preferia ter mais o que contar. Assim vai ficando sem histórias. 

Para não ficarmos sem a nossa, acompanhemos os dois, que o povo quer seja um, que o trivial pode revelar surpresas a olhos pacientes. Veremos Manipo cultivar, mais tarde, além do amigo equino, outra feroz amizade na música, dedilhando uma viola herdada de um vaqueiro do pai. Vai tornar-se destro nas modas como nas cavalgadas e encantar mais uma vez o povo. Que agora lhe vai esquecendo as origens demoníacas, que a massa tudo perdoa a quem a diverte e só despedaça Orfeu quando o mote falha. 

Já as mulheres... Essas têm facas nos olhos e não se podem esquivar ao esquartejamento de um belo moço armado de poesia. Zefa Pia usou bem os seus, na festa do Divino e da santinha sua padroeira. E esquadrinhou, na quermesse, o moço bom de viola. E o cavalo no vigor do amor de bicho. Só ele, Manipo, não pôde usar os seus. Foram apenas dois, os olhos que deus cristão permitiu aos homens. Se fosse grego, poderia ter nascido Argos e ver mais do que podia a humana condição. Homem que era, ainda que nascido de cavalo, os olhos de Manipo já tinham miragens postas. Um estava na viola. Outro no potro de criação. 

Mulher ultrajada, Zefa Pia pensou logo num amante para fazer ciúme. Arrumou casamento com outro. Nas exigências da festa, fez questão de animar-se o baile com a viola do homem-cavalo. 

Narradores antigos diriam que nunca se viu tanta comida e bebida juntas. Tanta música bem arranjada. Tantos e tão belos vestidos de flores e estrelas, lá nas festas deles e de suas loas. Eu posso dizer que se viu, sim, no casamento bem negociado de Zefa Pia. O noivo matou cinco bois. Cinco pares de chifres imolados aos dois grandes deuses da festa. Um, a noiva, nuvem de luz bailarina, sedutora, ainda que de ouro no dedo. Outro... o violeiro, animador das valsas e das danças de cadeiras, onde sempre triunfava, sozinha, a própria noiva em seu trono, à espera de um príncipe. E, obviamente nesta história, de seu cavalo alazão. 

O vinho, este universal provedor de olhos depois dos gregos, acabou, ao fim da festa, por doar suas muitas córneas ao cego Manipo. Os dotes de Zefa Pia se transfiguraram. Abriu-se o terceiro olho do herói. Uma visão luminosa e transcendental arrebatou-lhe o espírito. Budicamente apaixonado, ele saiu de sua posição de lótus no canto da orquestra. Propôs um brinde que soou acintoso aos ouvidos do povo, que, esquecemos de dizer, estava presente à festa, pois não perdia um passo, que dirá uma apresentação, do violeiro-cavalo.

– À bela Zefa, alma prisioneira num corpo de pássaro! 

A bela Zefa entendeu o brinde. Sorveu de um gole o vinho vermelho da taça. Estendeu a mão ao cantor. E o cavalo arrastou-os em asas velozes, enquanto, com a noite, adensava-se a neblina, e o povo distraía o noivo com novas conjeturas sobre as armadilhas do demo. 

Teriam vivido felizes para sempre, se fosse esta uma história de fadas. Mas fadas não entraram nela até este ponto e duvido que ainda aqui pousem suas asas, agora que a fábula descamba para o dramalhão. Fadas são criaturas de bom gosto e detestam tragédias baratas. 

Na primeira noite de Manipo e Zefa Pia, os noivos já não viram as fadas, que se recolheram depois da festa, como todo conviva bem nutrido. Que isso de tocar o casamento é coisa, agora, para mulher e marido, em que não se mete a colher, guardada sempre depois do último pedaço de bolo confeitado. 

Foram sozinhos, fugidos, os dois jovens casados. Agora Zefa Pia montada, pernas abertas. O marido atrás, no caminhar curto de quem se desajeita em dois pés. Apenas sob a bênção das nuvens, que chovem sobre todos, esposos ou amásios, pois é no auxílio delas que se criam, parem e nutrem os projetos de amores. Refugiaram-se na estância de parentes de Manipo. Longe do lugar do crime e dos olhos policiais do noivo traído e da fome detetivesca do povo. 

Arranjaram um casebre só para os dois. E um rancho para o alazão. Mas poucas estrelas viu Zefa Pia, na sua primeira noite. Aquele corpo de homem tão leve sobre o seu! De pelo, só a barba rala e tufos esparsos nos peitos e braços. Mais espessos entre as virilhas, que aí, faltarem, só nos anjos de capelas, e Zefa Pia não gosta de anjos por maridos. Dizem que eles não têm o necessário para o cumprimento do estipulado. 

Manipo tinha, e até de fazer inveja a homens, que dirá a anjos. Mas amou Zefa Pia como isto que era: só um homem. Mentiram as lendas? Nunca! As lendas sempre dizem a verdade. Desde que não lhes façamos as perguntas erradas. 

Zefa Pia procurou outras respostas. Observava o sono do amante. Iluminado de luar, parecia mais feroz. As sobrancelhas engrossadas pela sombra. A pele acinzentada e endurecida pelo cansaço feliz. Por um momento parecia-lhe vir daqueles lábios estreitos e brancos o rechinado. Daquele nariz largo e férreo o sopro equino na noite. Mas era no estábulo o relinchar do cavalo acordado. Como um chamado, morno e sussurrante, de apaixonado em batentes de janela virgem. 

Esperou. 

Mas o marido ressonava como um homem. O que nunca deixara de ser, desde o dia do casamento, e já lá vão dois meses de fuga. Dois pés grandes de homem. Duas manoplas de homem. Barba e ombros rijos de homem, acostumados ao campo. Língua muda de homem. Sexo de homem. 

Zefa Pia observou toda a fragilidade disfarçada em força. Aquilo era só um macho humano. Tudo o que disseram, as histórias ouvidas quando menina, a figura fantástica que ela mesma acreditava ter visto e que foi o sol e a água na semente da sua paixão pelo rapaz... Nada cabia naquele corpo que se deitava humanamente ao lado do seu e quase a ofendia com o suor perfumado de homem. 

Dois meses. E todas as noites ela aguardou a transformação. O coração espancando as orelhas, enquanto ouvia o rapaz desencilhar o cavalo no estábulo. Depois, outros sons encantavam-na. Estranhos e mágicos na primeira semana. Mas, aos poucos, adivinhados e classificados. A sola das botas de Manipo. O patear dos cascos do cavalo. O derrame de ração no cocho. O tilintar do trinco na porteira. Então surgia no quarto o amante. Tão homem como o vira o dia todo e o deixara, antes de vir ao quarto, preparar-se para o encontro. 

Pelo terceiro mês, a mulher esperou o sono do companheiro, depois do amor que outros narradores chamariam “animal”. Mas este tem de ser fiel a Zefa Pia, que jamais permitiria o epíteto a embate tão humano. Com a sede das carnes ainda ardente, a pele pouco saciada, deixou a cama, o quarto, a casa, tomou caminho do estábulo, onde ouvia chamarem-lhe o nome: “Pi-i-a... Pi-i-a...”. 

Uma névoa rala começava a se adensar e esvoaçava nas revoluções da camisola da moça, que flutuava na espuma branca. No alto, o Cruzeiro do Sul reinava sobre a lua nova. 

Depois de atravessar a porta, Zefa Pia puxou-a sobre si, fazendo a noite mais escura no interior do galpão. A brisa fresca da noite não soprava ali. Só um hálito morno fazia voltas no ar negro. Um cheiro forte de grama pisada evocava planícies largas e sombras protetoras. 

Dormiu sobre a palha, abrindo-se para as docilidades da natureza que invadia seu novo ser. Retornou antes do sol, antes da primeira claridade anunciar o dia a Manipo. Trouxe para a cama um perfume bom de mato, orvalho e pelo.
As madrugadas passaram, então, a ser suas, como os dias eram do marido. Aprendeu a amar cada coisa no seu lugar e seu tempo, para amá-las todas. Foi esta sua maneira de gostar de Manipo. 

Este trabalhava, caçava, era bom de briga e cuidava dela quando adoecia de saudade ou outra enfermidade de mulher. Comprou até uma espingarda nova para defendê-la, se acaso o traído viesse exigir o sangue da honra. Insaciável, Zefa Pia consumia tudo. O trabalho, a caça, os cuidados, na sede de alguma coisa que nunca atravessava a porta da casa adentro. Todo dia, as mãos de Manipo vazias do que ela precisava e parecia tão próximo. 

Na madrugada, ela então encontrava a parte oculta da vida, que tanto procurara, devorando em vão todo o resto sob a luz do sol. 

Compraram móveis baratos, que venderam em seguida. Que sem móveis passam os homens, mas sem pão ainda não se teve notícia. Como os cavalos. Que, aliás, comem como cavalos. O que não é força de expressão nem metáfora, pois as metáforas tudo entendem, explicam e embelezam, menos a fome. E se já era difícil defenderem-se, contra a fome, dois humanos e um cavalo, a coisa ia ficar pior quando viesse, à mesma mesa jejuada, este filho que engordava as ancas de Zefa Pia. Só ela engordando, parecia que nem viviam em pobreza, de tanta abundância que exibiam as carnes da mulher grávida. 

– Isso aí vai ser gêmeos – dizia a vizinha parteira, no aguardo de um parto recorde. – E olha lá, que um par é pouco. 

O sorriso de Zefa Pia respondia com esforço e disfarce. Manipo não sorria, ocupado nos cálculos de somar bocas e dividir miséria. 

Finalmente, não houve mais o que vender. Doeu a Manipo concluir pela perda do cavalo. Passado a outras mãos, iria, ele, lá comer de outro, enquanto eles aqui poderiam comer do seu. Preocupava-se, Manipo, com a sorte da mulher e dos filhos a parir e alimentar. É assim com os homens, quando amam. Azar dos cavalos. 

– Não! De jeito nenhum! – exasperou Zefa Pia. Não deixaria vender alguém que era como se da família. 

Manipo puxou pela insistência e a razão. Baixo cacife, quando o adversário saca da manga a insistência e o choro, mão suprema e imbatível nessas rodadas de amantes. E nesse jogo não se apelava ao blefe. Sentia, Manipo, o desespero maior de perder a companheira, que o de perder o cavalo. Como deplorava, Zefa Pia, talvez o contrário. 

– Vende a arma! Vende a viola! – apelou a mulher. – Não têm sangue, não sofrem... Mas o cavalo... Você venderia um irmão? 

Zefa Pia estava no nono mês. Não convinha discutir e afligir suas emoções. Isso, até para um homem, cai-lhe na sensibilidade. Quem diz que não existe paternidade instintiva? 

Foi, então, o rapaz, a pé, à cidade, em viagem que levaria um dia inteiro, costeando, na sacola, a viola e a espingarda. Decidira vendê-las em cidade maior, para tentar bom preço, apesar do risco: estava indo para o lugar de onde fugira com Zefa Pia. Pela primeira vez, depois que se esconderam. 

Deixou selado o cavalo, no estábulo, pronto a conduzir Zefa Pia à fazenda vizinha da parteira, caso preferissem chegar os filhos na surpresa. Ficaram, pois, Zefa Pia e o cavalo. E assim estava bem para a mulher. 

Manipo trotou estrada. Entrou na cidade a tempo de encontrar aberto o comércio e fazer negócio. 

Tarde como era, dormiu à casa do comprador, que, vendo a necessidade do rapaz por trabalho e sabido da impossibilidade de retorno ao sem-luz dos caminhos noturnos, ofereceu-lhe um roçado no quintal a ser desempenhado na manhã do dia após. Manipo concordou no trabalho oferecido. Argumentou-se que Zefa Pia podia segurar ainda, um dia, as crianças na barriga, nessa de acharem, os homens, que no parto se dá como no amor: fechadas as pernas, nada entra, nada sai. 

Adiada a viagem de volta, não viu erro em passar algumas horas a passear pelas ruas poeirentas e bares iluminados. Sentia, já, a saudade da viola. Mas sabia que sempre se achava quem emprestasse a sua, se o cantador provasse talento. 

Os ouvidos o carregaram à rua das casas de dança e outros brinquedos adultos. Entrou na primeira cujas janelas concertavam e sinfonizavam música de cordas para o vício. Não demorou a estar com o instrumento entre os dedos, sob o aplauso dos camaradas e a cobiça das mulheres. 

Entretanto, já um tentáculo do povo, que nunca dorme, ubíquo e onisciente, corria a sugerir, ao marido abandonado, o paradeiro do adúltero. Logo lhe reconhecera a arte da viola, como igual nunca tinha visto. 

O afrontado desenfronhou-se da cama. Armou-se de couro, faca e revólver. Tanta espera acabava ali. Calçou as botas pesadas, com as quais calou toda a freguesia, ao pisá-las sonoramente na entrada da casa de alegria em que Manipo tocava. Este até desconfiava de que muito ousara, ao mostrar-se noturnamente às luzes dos cabarés. Mas dizem que a arte não teme a morte. Manipo acreditou no dito. Problema. Porque agora a arte não sabia o que dizer, pouco inspirada diante da irrupção inesperada da outra. 

Disse primeiro, Manipo, que não queria brigar. Que deixassem os desafetos no passado, lugar tão confortável para eles. Mas o outro não queria compreender as boas razões do pacifismo. Chamou o rival à largueza da rua, onde poderiam enfrentar-se sem pôr em risco a plateia. E com tão justa sabedoria a plateia concordou sobremaneira. 

Foram. 

E foi também a plateia, que prefere o espetáculo à sensaboria da segurança.
E de novo ele, o povo, estava no meio da plateia. E pintou para sempre a estampa desta luta memorável. Alardeou à posteridade o modo como o marido ultrajado desarmou-se ao saber que o adversário estava também desprovido de objetos matadores artificiais. Apenas os punhos levaram ao corpo um do outro. Conta o povo, que tudo viu e ouviu e repete sempre o que vê e ouve. Que lutaram. Madrugada adentro. Madrugada afora. Até dia amanhecer. E flagrar, dormindo, parte da plateia e parte do povo. A porção que depois teve de confiar nas narrativas juramentadas da parte acordada. Juraram todos, já despertos no fim da briga. Que o marido destratado estendeu, finalmente, a mão ao rival. Disse-lhe que era um bravo. E a um bravo incomoda pouco confiar a noiva. Menos que confiar a vida, é verdade. Depois desmaiou e teve de ser levado, às pressas, ao médico local. 

Igualmente desancado pela batalha, Manipo também foi socorrido. Teve, por isso, de adiar mais um dia o retorno à fazenda. E desfazer o negócio do roçado. Mais uma noite ele pediu à senhora do bom parto. Que cruzasse as pernas para segurar os filhos em Zefa Pia. Dormiu, então, como pai satisfeito e marido tranquilo. 

Dia feito, pé no eito, disse o povo, que se apraz nas rimas. Com isso informa que, tão logo o sol apontou, Manipo aprumou o nariz rumo ao local onde sua Zefa Pia, esposa e mãe agora sem pecado, perdoada do adultério pelo próprio ex-marido, ficaria muito feliz de saber da bravura de seu homem e protetor. Um pé. Depois o outro. Foi Manipo contando os metros comidos no abrir e fechar das pernas. Que as de Zefa Pia ainda estejam fechadas! Consinta Deus ou quem mais puder! 

Chegou em casa quando a noite já cortejava o dia, seduzia as luzes com sua mansidão velhaca de prestidigitadora. O sol caía hipnotizado e sonolento atrás de um outeiro. As primeiras estrelas espiavam com olhinhos brilhantes se podiam passear sem o risco de queimar-se na claridade. 

Manipo gritou alegremente para a mulher. Correu para a casa. Mas nada encontrou. Da janela, observou a porta do estábulo aberta. Adivinhou: sou pai! 

Depressa se adiantou à casa da vizinha parteira. Poucos minutos para uma corrida. Mesmo de quem passou a madrugada anterior batendo e apanhando. Especialmente se move o corpo a ansiedade e o contentamento de ver, pela primeira vez, o primeiro filho. 

Entretanto. 

A parteira o recebeu admirada. Nada de Zefa Pia ainda. E estava à hora de expulsar aquelas crianças. Que eram gêmeas, ele iria ver como ela estava certa! 

Manipo preocupou-se. Recordou a porta do estábulo corrida. “Ela não conseguiu montar”, pensou. “Está a sofrer as dores, sozinha, no estábulo.” 

Maior pressa o trouxe de volta do que o levou à casa da parteira. Mas não nos enganemos. Maior também pareceu a estrada que o trazia do que a que o levara. Coberta de obstáculos, uns pensamentos ruins e pedregosos, nos quais a mente preocupada de Manipo ia tropeçando. Ele nada ouvia. Será que a mulher morrera no parto? Mas, se morrera, foi com ela o filho. Ou os filhos, no dizer da parteira, pois nada de choro também. 

Diante da porta silenciosa do estábulo, ele estancou. Temia de olhar dentro. Demorou alguns minutos. Os pés afundados e imóveis na indecisão e no terror. Então ouviu o choro. Ou teria sido um relincho? O barulho o acalmou. Reconheceu que não era o relincho de seu alazão. Mais fraco e entrecortado, só podia ser o balbucio de uma criança. 

Lembrou que estava sem velas, e a noite agora já estava toda no mundo. Acendeu o isqueiro de bolso. Com um fio de luz, entranhou-se no breu do galpão. A vista procurou, assustada, alguma forma na fraca luminosidade que a chama lançava nas paredes. Reparou que o cavalo não repousava na baia. Fora arrancado ou fugira. A porteira estava descerrada. 

De novo ouviu o balido. Ou choro. Ou relincho. Vinha da parede lateral. De onde se amontoava a palha tantas vezes oferecida, pela noite, aos sonhos de Zefa Pia. 

Manipo iluminou aquele lado. Viu uma sombra mover-se. Chegou mais perto. Até poder divisar manchas vermelhas na palha. Zefa Pia não estava ali. Havia um corpo, sim. Mas era muito menor. Nem Zefa Pia nem cavalo. Aonde teria ido a mulher montada? Se não podia nem andar, com aquela barriga descomunal? 

Aproximou-se. Chegou perto o lume do isqueiro. E avistou. Esparramado sobre panos manchados de sangue como o capim seco, tentando erguer-se sobre os pés finos e cambeteantes. O mais formoso potro que Manipo já vira parir. Uma versão infantil do belo cavalo que Zefa Pia roubara da estrebaria. 

Nunca mais foram vistos. Nem o alazão, nem Zefa Pia. 

Mas o povo, terceira personagem de nosso conto, vai vivendo e falando. Onde não sabe, vai pontilhando episódios imaginados. A história sempre se encomprida, se não pomos nela um ponto. E o povo só conhece vírgulas. Segue, pois. Assim. Pespegando novas vírgulas a cada versão recontada. Zefa Pia cresce. Vira amazona. Vingadora. Amante noturna. Súcubo de outros homens e animais. 

Dizem, alguns – aqueles mais afeitos ao realismo literário –, que casou outra vez. Fez-se viúva herdeira de um haras, que na linguagem viperina traduz o povo por harém. 

Manipo teria sido mais feliz? Pouco sobreviveu de sua sorte na memória do povo. Mas inventaram que foi bom pai para o novo potro, depois de ser irmão do velho. 

“Como o diabo faz e goza”, remata o povo. Douto e filósofo.
E o diabo, montado em histórias, decerto aprova. Divertido.

Fonte:


Santiago Vilela Marques
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