Eliete Borges Lopes [Poeta e Escritora Brasileira]

Eliete Borges Lopes -nasceu em 1981 na cidade de Rondonópolis (MT).

É atriz, desenhista e escritora. Graduou-se em Pedagogia pela UFMT e é mestre em Cultura, Memória e Teorias em Educação, também pela UFMT.
É alfabetizadora, professora de criança. 
Tem algumas poesias esparsas publicadas em jornais locais, leituras e eventos em que lê grandes nomes da poesia mundial...


Em 2004, participou do projeto “Poesias, versos e corda” com o recital “Solidão e Poesia”, no qual declamava textos da poetisa estadunidense Emily Dickinson. 
É autora do romance “Scarlet e o Branco” (Editora Multifoco: Rio de Janeiro, 2012).





 
I    -     SCARLET   E ...

Era fina e leve a neve, que do branco céu provinha, se desbotando até tocar o solo.
Constituía esta fina neve, pequenos montículos e colininhas pontiagudas:
Já uma divisa separava o seu coração do aço cortante, e agora à rua sem saída do seu novo sentimento estava.
Isso, isso era feito um chouriço, da cor mesma do seu coração, e colocava na mão, no ar que adentrava o pulmão, uma súbita emoção gelada.
Enregelaria até mesmo a sombra da alma, caso esta ali se apresentasse, Ali; onde o Astro-Rei-Pai dos astros, nunca houvera brilhado.

A contar e a começar pela falta de referência ou pela falsa referência, tudo-tudo era longínquo, ou poderia a um segundo
estar dentro de si.
De lá,
de onde se insinuam as preces do mundo e brota o fôlego último,
sobe de uma só vez e em solavanco,
ultrapassando o limite do corpo tridimensional, a emotividade do sopro gelado: e o vento; tudo à volta toca,
com seus braços grandes e curvos.

Tecidas fio a fio
as horas, os minutos parecem proclamar o fim sublime em Aleluias, mas
a carne fria, sob a tremulante vaguidão das sombras, sente que por sobre a pele apenas jaz o último verso daquele poema triste;
daquela solidão poética resta o que não conseguiu ficar, nem na boca,
nem n’alma.
E àquela rouquidão só resta palavras roucas,
palavras de um entrave cerebral,
de um entrave social
...
de linhas
já sem sentido que são como linhas verdejantes de tempo a se insinuarem maliciosamente em sua timidez...
... Parecia um lume... que progredia...
o progredir daquela ideia
que não se delineava, mas que era
sensivelmente fria... e provocava calafrios, e desatava medos...
Justifica-se a quase hipnose, por aquilo que, simples assim: é o branco.
Concentrando-se em: como estava não permanecer,
havia cogitado possibilidades mil
para zarpar, para
zunir num som qualquer.
... E
saber que nem os rastros ali ficariam,
e em pensar que nem mesmo seria útil tentar...
Selo um gesto em desapego, e
em aceno a língua condena à solidão num tom sóbrio e vívido, que se aparenta a uma exclamação.
A pergunta que me sustenta agora é tão sem resposta...
então, eu falo, sim; eu falo até anoitecer e depois, eu durmo.
As sementes dormem...
Dormem as correntes...
Só a paisagem grita.
Grita aflita e dá vontade de gritar também!!!
Que dirás? Que já é chegada tua hora; e que já não resta tempo nem pra sentir a grande mentira do mundo? Ou que, mesmo adiando pra controlar a ansiedade e o descrédito - o tempo - vem dizer pra tudo, que tudo: tudo se move; e mofa... e morre, e isso tira da gente boquiaberto, um OH!
Oh! Que será então do tempo em sua gula?
Acaso a consciência se iria clareando; clareando, clareando... e chegaria ao meio dia com uma explicação pura?

...Se já todos os atos, todos os gestos se enroscavam na paisagem sonolenta de céu azul (violeta), azul relaxado em quase total branco (azul).
Aos poucos este céu desabava lá de cima.
Equilibrava-se todo em orvalho na ponta de uma folha pra cair horas e horas e horas depois, numa única gota:
Ah! Aquele céu de garoa que cai: sem nexo, Cai!
E é garoa e vento, como vento de quando se é criança e se ouve: o seu murmurinho por entre os furos de tijolos...
O vento é o próprio cheiro dos quintais úmidos.


 


Em Seis propostas para o próximo milênio (1996), Italo Calvino enumera cinco qualidades para o texto literário: leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade. Scarlet e o Branco, de Eliete Borges, apresenta ao seu leitor uma literatura leve, em estilo ágil, capaz de nos enredar, e de uma textualidade móvel e desenvolta. Os poemas vão além do que está escrito, esmiúçam o mistério da perenidade do vivido, buscam as palavras exatas para dizê-lo, e com elas o instrumento delicado da exatidão — se desdobram em imagens que surpreendem por sua fluidez.
 A associação dos sentidos às cores é a constante da obra, cada cor tem um simbolismo distinto através dos aromas, do tato, do som. O vermelho tem sabores variados de batom, de pimenta e de frutas deliciosas. É a cor que pulsa em nossas veias.  O branco é a cor que representa a pureza. Alivia a sensação de desespero, limpa e aclara as emoções, os pensamentos e o espírito.
Enfim, os leitores têm nesta obra infinitos prazeres que se instalam em sua mente e coração, ao lado de sua memória das coisas vividas.

                                                                                Rosemar Eurico Coenga
                                                          Doutor em Teoria Literária e Literaturas
                                                               pela Universidade de Brasília (UnB).




  Suicídio

Estourar portas não se faz uma necessidade, pois leva consigo chaves, chaves de todas as espécies... e entra.
Dormindo em pesadelo o corpo nu deitado...
Um quarto calmo iluminado pela luz que vaza do corredor embaixo da porta e pelos clarões de relâmpagos ao longe refletidos pela janela ampla de vidro grosso amarelado, aberto. Céu cinza meio pesado... como cobertor de chumbo.
O que se avista entre o longínquo lugar onde os relâmpagos e trovões estremecem é o terreno vasto das coberturas, que deixam cair suas luzes tremidas pelo vento na noite dormente e fria.
... Uma luz faz acordar o dia...
Uma luz faz-se de - repente num grito morno em que a mão acorda. Luz no céu. Clarão, trovão.
Estrondo do joelho na beirada da cama de lençol amarelo. Rápido, rápido esse poder de raio do pensamento: a mordaça, agonia, infindável... e depois... pendurada por  um único pé, pendendo carne de açougue... sangue... a escorrer pelas narinas... Mais um clarão, estrondo, corpo ao chão. Rápido, rápido, rápido, esse poder de raio do pensamento: enquanto as flores sobem, a Terra de Gagarin... ah esse poder de raio, o nu descendo a escada, os trigais de Van Gogh e seus Girassóis ... a água na jarra, a água, os girassóis  e Van Gogh: experiência de um deus que não se deixa violentar, tampouco se matar.


Eliete Borges Lopes 
Todos os direitos reservados a autora.

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