1 + 1 = uma multidão [Ana Paula Veiga]


1 + 1 = uma multidão

Vamos combinar uma coisa a partir de hoje? Somos uns dos poucos animais que sabemos do prazer e nos perdemos nele e dele. Algumas pessoas sabem do prazer que a comida traz, comem sem parar e se sentem infelizes com o resultado desse descontrole. Outras já ouviram falar dos prazeres do sexo e estão brincando de esconde-esconde até hoje.

Vou me deter (ou tentar, pelo menos) a falar sobre o prazer sexual. Estamos vivendo a orgasmocracia onde todos têm mais do que direitos, mas deveres em sentí-los. Sim, a frase é no plural mesmo. Temos que ser multiorgásmicos: homens e mulheres, claro. Não importa a disponibilidade fisiológica. Nesse regime ditatorial, onde tudo se transforma em desejo, as pessoas se usam para demonstrar o quanto são prazerosas e sexualizadas, sexuadas e satisfeitas. Acontece que a libido não é tão linear assim como parece ser e a sexualidade é mais do que os poucos centímetros que temos no corpo. Ela está lá, mas também está impressa na realidade de cada cultura, já que somos um entrelace entre o real, o imaginário e o simbólico e cada um desses ingredientes nos oferece tonalidades diferentes ao que somos e do que levamos.

A insatisfação dentro do desempenho imposto pelos outros resulta em menos gozo e mais afirmação. Círculo vicioso: busco de mais, tenho de menos. Quantas são as pessoas que estão vivendo um mal estar sexual? Outro dia ouvi um termo para isso: ressaca sexual. A pessoa se sente super in na noite anterior e super out quando o dia amanhece. Na noite, já diz o ditado, todos os gatos são pardos, mas de manhã, é o galo que canta bem cedinho e te fazer despertar numa incrível dor de cabeça.

E assim, acreditando já saber a resposta, me pergunto: Será possível viver uma sexualidade só com o corpo? Afirmo categoricamente que o erotismo é o plus corporal mas não pode prescindir dele. A dissociação corpo e sujeito leva a um sofrimento, já que o corpo sem o sujeito submete-se a qualquer coisa: é objetalizado, havendo, assim, a possibilidade da violência alheia e de si próprio.

É preciso que haja o questionamento sobre a felicidade sexual e não se você está na linha de frente da sociedade de espetáculo, onde o ter é parecer e ponto final. Entrando mais nessa questão, será que algum dia isso já foi questionado? Eu sei que questionaram a liberdade sexual procurando pela tal felicidade mas, infelizmente, não sei dizer se já a acharam. Isso porque a mecanização do sexo acabou tornando a sexualidade um objeto de uso e satisfação outras. Os sentimentos são por vezes anestesiados num sexo castrado e por vezes vazio.

Percebe-se a sexualidade a serviço da auto-identidade perdida, num momento em que a satisfação é momentânea. É por isso que grande parte da sexualidade hoje é feita de amores frustrados, angústias engolidas e frustrações disfarçadas.

É preciso ampliar a sexualidade e trazer algo mais original ao que foi formatado. É preciso estabelecer relações mais saudáveis, com maior capacidade de comunicação. É preciso ter cuidado com o outro, além de liberá-lo de nossas próprias deficiências, e cuidar de si. É preciso temperar carências, equalizar necessidades e se achar mais do que se perder. 



Ana Paula Veiga. Dedica a atividade profissional às questões da sexualidade. Trabalha em consultório particular no Rio de Janeiro com casais, terapia de grupo e individual, além de realizar orientação psicológica mediada pelo computador. É colunista sobre sexualidade para alguns sites, para o jornal Correio Carioca e tem diversas entrevistas publicadas em revistas e sites especializados. Email para contato: consultoriodepsicologia@gmail.com  Site: http://www.wix.com/ana_paula_veiga/atendimento


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