Música brasileira, urbana, instrumental, contemporânea: entrevista com Guilherme Ribeiro [Bruna Repetto]

Música brasileira, urbana, instrumental, contemporânea: entrevista com Guilherme Ribeiro


Um acordeon suave, elegante, expressivo, que ruma entre os caminhos do tango, do regionalismo, mas pára numa paisagem urbana contemporânea. De uma música guardada na gaveta cria-se um disco que o músico paulistano Guilhereme Ribeiro trilha com firmeza.

Ribeiro é um instrumentista de mão cheia. No circuito do jazz brasileiro instrumental, já tocou ao lado Nenê, Bocato, Paulo Moura, Raul de Souza, acompanhou artistas com Roberto Menescal, Vanessa da Mata, Dominguinhos, Moraes Moreira, Tom Zé, Luiz Melodia, Marcos Valle, João Bosco e atualmente, integra a banda da cantora Céu.

Ano passado lançou seu primeiro disco autoral com o apoio do Governo do Estado de São Paulo. Pianista de longa data, agora grava e divulga seu trabalho como acordeonista e mostra muita personalidade. O CD, intitulado Calmaria, mostra parte de sua influência musical, que passeia pela música brasileira, jazz, tango e a música européia.O álbum conta com os músicos Michi Ruzitschka (violão), Sidiel Vieira (contrabaixo acústico), Pedro Íto (bateria e percussão), Rubinho Antunes (trompete e flughelhorn) e Gabriel Grossi (harmônica).

1. Você é muito conhecido como pianista, mas no entanto seu album de estréia foi com o acordeon, Por quê?
 
Me interessei pelo acordeon há alguns anos quando ainda estava na faculdade, apesar de meu pai tocar o instrumento e eu ter escutado o som do acordeon em casa durante toda a minha infância. Como eu já tinha uma formação musical por causa do piano, comecei a tocar as músicas do meu repertório, a procurar os acordes e harmonias que eu gostava de ouvir. Percebí então que eu teria uma longa trajetória entre aprender a tocar o instrumento, desenvolver a técnica, a sonoridade e tocar aquilo que eu queria e da maneira como eu queria. Fui incorporando o acordeon no meu som e as pessoas passaram a me chamar pra tocar, gravar o acordeon também além de piano e teclados. Aos poucos eu fui estudando cada vez mais, descobrindo as possibilidades sonoras do instrumento e passei então a compor algumas músicas no acordeon,  fui percebendo que aquele repertório poderia se transformar num projeto interessante. E hoje aqui está o "Calmaria", que por acaso é o meu primeiro disco solo.

2. Fale um pouco sobre os diferentes ritmos e linguagem que você quis explorar nesse trabalho.
 
Neste disco eu gravei somente minhas composições, que por sua vez dizem muito sobre minhas influências, e de uma maneira geral procurei não evidenciar por demais o aspecto rítmico nas interpretações. Mas acho que, inevitavelmente, algumas músicas são referências claras a alguns gêneros como por exemplo: "Magrí" é um tango, "Malvadeza" é um samba-jazz, "O quarto dos fundos" é um Jazz Waltz, "Monsieur" e "Prenda" que tem compasso ternário remetem aos rítmos do sul do país.

3. Quando se pensa em acordeon, se pensa em tango, música folclórica, alguns ritmos brasileiros, como forró e baião. No caso de Calmaria, alguns destes elementos estao presentes e você passeia por eles, mas há uma conexão entre eles e talvez um "elemento surpresa". Pode-se dizer que seja a linguagem jazzistica?
 
Sim, Calmaria é um disco de Jazz, no sentido mais amplo desta palavra. Apesar do acordeon ser um instrumento envolto de um certo regionalismo aqui no Brasil, eu quis levá-lo a outros lugares, outras paisagens sonoras.  Isso não quer dizer que eu não goste ou não seja influenciado pela música brasileira, pelo contrário, mas as minhas influências vão muito além. Como eu também sou compositor, tentei através das composições trilhar um outro ambiente, talvez mais próximo do jazz, da música erudita, da música francesa ou do tango. Mas ainda assim eu consigo ver uma "brasilidade" no disco, nas melodias e nos solos.

4. Acordeon e jazz, o que você buscou trazer nesse CD com esta aproximação?
 
Talvez um lugar incomum para o acordeon brasileiro, uma sonoridade não exatamente nova mas diferente. Sem pretenções.

5. Alguns projetos misturam estilos, colocando instrumentos típicos de um certo estilo num outro formato, Calmaria tem essa mistura de estilos, essa intenção?
 
Acho que não exatamente pois a instrumentação usada não é típica de nenhum estilo específico. Pensei muito sobre a instrumentação deste disco, principalmente quando se combina a Harmônica (gaita de boca) com o acordeon. Queria que a instrumentação gerasse uma unidade ao disco e acho que consegui um resultado interessante. Tenho recebido muitos bons comentários sobre essa questão.

6. Por quê Calmaria foi escolhida para o titulo do CD?
 
Calmaria é o nome que dei a uma balada que fiz há algum tempo e que estava guardada lá na minha "gaveta de idéias". Quando estava pensando no repertório, fui procurar minhas composições antigas e encontrei esta música. Acho que Calmaria reflete o meu estado de espírito, a maneira como eu encaro a música nesse momento da minha vida e a sonoridade do disco.

7. Nos títulos das músicas há muitos nomes próprios, é um disco sobre pessoas?
 
Sim e não. É um disco sobre pessoas que estão ou que passaram pela minha vida, mas é também um disco sobre lugares, momentos e lembranças. Tudo isso me inspira a compor e pra mim é como se eu conseguisse imortalizar todas estas coisas.

8. Qual o conceito deste trabalho, como você o definiria?
 
Hum, pergunta difícil. Talvez música brasileira urbana instrumental contemporânea

9. Há pretençoes de lançá-lo fora do País? 
 
Sim, pretenções não me faltam. Os meios, talvez!

10. O cenario instrumental independente de São Paulo é muito forte, e uma leva de músicos anda lançando discos, você acha que há também espaço em outros Estados brasileiros ou o exterior ainda oferece mais possibilidades para o instrumental?
 
Acho que o público para a música instrumental sempre existiu e sempre existirá. Apesar de São Paulo despejar a cada ano uma quantidade enorme de músicos, grupos, discos, etc, não falta em lugar nenhum do país material musical de altíssima qualidade.
Agora do ponto de vista da produção de um trabalho (seja ele um disco, uma turnê, etc) ou da viabilização de um trabalho que envolva muitas fases no processo de realização, desde gravação até a divulgação, captação, agenda de shows e festivais, o Brasil ainda, a meu ver, pode dever um pouco a outros países.  Mas não sou pessimista, acredito que as coisas estão mudando haja visto que o Calmaria foi realizado com o apoio do ProAc (Programa de Ação Cultural).

11. Malvadeza encerra o disco, é um presságio de que o próximo CD seja distante da "Calmaria"?
 
Não sei ainda, pode ser.... afinal, a vida não é um mar de rosas e ninguém vive numa Calmaria eternal, não é mesmo?

Confira mais sobre o trabalho, acessando www.guilhermeribeiro.com

Bruna Repetto é cantora, compositora e jornalista. Gaúcha de Porto Alegre, Bruna se interessou desde cedo por música. Aos 5 anos, já passava as tardes cantando na casa de uma vizinha pianista. Aos 18 anos, iniciou seus estudos de canto erudito e fez parte do coral da OSPA - Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Em 2000, Bruna viajou para Boston – EUA para estudar jazz na renomada universidade Berklee College of Music. De volta ao Brasil, terminou a faculdade de jornalismo na universidade PUCRS e mudou-se para São Paulo. Em 2006, graduou-se em música pela Faculdade Souza Lima & Berklee e foi convidada para lecionar canto no Conservatório de Música Souza Lima. Em 2010, depois de oito meses de trabalho como produtora, compositora e intérprete, lançou seu álbum de estréia chamado Em Movimento. Além do trabalho autoral, Bruna compõe trilhas sonoras e material publicitário. Recentemente, a cantora gravou com o violonista e compositor da Bossa Nova, Roberto Menescal, um álbum lançado no Japão. Como jornalista cultural, faz colaborações para o Jornal do Brasil e Zero Hora. É idealizadora do curso Música:hobby, profissão ou negócio? Tudo o que você sempre quis saber e não tinha a quem perguntar. Em 2011, lança seu primeiro livro pela Edipuc, chamado Quando a música entra em cena. Atualmente, está em produção do seu próximo projeto musical. Sites: www.brunarepetto.com/ - www.facebook.com/pages/Bruna-Repetto/207586755949882?ref=hl

1 comentários:

Anônimo disse...

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