Sobre as Elites ou Cadê o Título? [Wuldson Marcelo]

Sobre as Elites ou Cadê o Título?

Um dia de calor extenuante, um bom lugar para escrever uma crônica, um artigo, um ensaio. Ideias: renúncia do papa Bento XVI, reeleição de Barack Obama e o desfile da Mangueira, homenageando Cuiabá no Carnaval 2013. Uma nova ideia: juntar os três temas. Ponto a se explorar: como a elite extraterritorial (transnacional) faz qualquer negócio para manter o poder e como consegue convencer que algo relevante para si é bom também para as massas.
Segundo a nossa mídia, a renúncia do papa abalou o mundo (de quem?). Essa mesma mídia que vende a imagem do Joseph Hatzinger como um homem cansado, que fez tudo que pode pela população católica do planeta. O papa Bento XVI, quer ela nos fazer acreditar, tornou-se vítima de disputas internas dentro da alta cúpula do Vaticano (entre conservadores e os favoráveis à modernização da Igreja) e não um erro crasso do conclave que o elegeu em abril de 2005. Renovação com um homem (santo?) amigo da ordem vigente (da mais truculenta) e arbitrário é algo difícil de conceber.
A Estação Primeira de Mangueira homenageou Cuiabá neste ano na Sapucaí, a passarela do samba no Rio de Janeiro. Homenageou? Egotrip da cuiabania, o desfile da Mangueira foi um “show de horrores de estupenda beleza”. Cuiabano que se sentiu representado ali só se for da elite, que percebe tudo como se fosse a mesma coisa, e faz questão de não distinguir “mulher fantasma”, de “mulher algodão” ou “mulher de branco”. A elite padroniza hábitos e formas de conhecer a história para poder circular com segurança e sem necessidade de alterar seu modo de vida e seu modus operandi de diversão e “absorção” de cultura, independentemente de onde esteja. A elite controla o Poder Público, o Poder Público quer (pois, precisa de verba de campanha, doações, favores políticos) agradar a elite. Três milhões e seiscentos mil reais entregues sem constrangimento. E quem pode viajar (as palavras-chave são deslocamento e mobilidade) aproveitou para se regozijar com o jequitibá inexistente em Cuiabá, mas apropriado para rimar com o nome da cidade.   
A reeleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos pareceu um duelo entre a ideia de liberdade e as forças reacionárias que se mantêm ativas por lá, os direitos humanos contra a defesa de métodos de tortura em nome de um bem supostamente maior, o hibridismo cultural versus um discurso nacionalista tacanho (vide Tea Party). Obama carrega consigo a imagem de ser o homem certo no momento errado. Momento de aguda crise econômica, de guerras encerradas, mas infindáveis e de recrudescimento de um espírito retrógado no mundo. Mas, mesmo assim, sua vitória foi esperada ansiosamente por pessoas no mundo todo, um aceno de respeito à democracia, à igualdade e à liberdade. Contudo, o que mudou realmente nesse tempo decorrido de quatro anos? O poder não é popular, é dependente das verbas de campanha, do dinheiro injetado pelas grandes corporações, a política internacional permanece refém de alianças suspeitas e manobras tradicionais de ameaças comerciais, sanções e perseguições (como a realizada contra Julian Assange, fundador do site WikiLeaks). Claro que ocorreram significativas mudanças, como um peso maior ao diálogo, o que favorece a diplomacia, e, talvez, estejamos assistindo a nova configuração do poder político global sustentado pelas peripécias econômicas, o que coloca a China em destaque, e, além dela, um ou outro integrante do BRICS (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul) ou algum país que detenha armas nucleares.
Depois vem a chuva e a vontade de escrever sobre isso começa a esmorecer, agoniza e morre lentamente. Então, ao olhar para o lado, para a cama, o livro “A Lua na Sarjeta” (1953), de David Goodis, repousa nela, recém-terminada a leitura, e o desejo de escrever uma resenha da obra surge. Livros de suspense ou do gênero policial sempre exploram o pior do ser humano, de uma elite local corrompida ou de pessoas tão degradadas que se entregam a uma vida de crimes e amoralidade. São pessoas condenadas pela cobiça de quem muito tem, mas existe apenas para explorar ao máximo aqueles que não têm bem material algum e, muito menos, influência política ou valor social. E toda a cidade, parece, submerge em sua própria ambição, devassidão e violência, como em “Safra Vermelha” (1927), de Dashiell Hammett.
No entanto, mais uma vez, algo ronda a determinação em elaborar um texto sobre um assunto, dessa feita “A Lua na Sarjeta”, e a certeza que o tema seria levado adiante é assolada pela dúvida e acaba por sucumbir sem mais nem menos.
Então, um passeio se faz necessário, mas a caminhada se encerra em frente a estante de livros, e de lá se retira, sem razão aparente, a obra “O Ânus Solar” de Georges Bataille. Abre-se o livro e a frase “A ereção e o sol escandalizam tanto como o cadáver e a escuridão dos antros”. E, aí, dá vontade de elaborar alguns palavrões para descrever o impacto dessa frase, aqui isolada, mas que no contexto significa que o homem teme encarar o sol, não somente pela fragilidade dos olhos, mas pela possibilidade de se deixar consumir, de se encantar com o perigo e a beleza, com a própria atração por si, assim como a ereção desperta o poder de destruir o erotismo. É tolerável quando admirado de um modo que pode ser Outro, como visto por intermédio de um espelho.
E o coito envergonha o homem que inventa melindres, e o faz acanhar-se quando citado em conversas de bar. A violência e a humilhação verbal são permitidas, a sexualidade deve permanecer na alcova ou ser explorada como mercadoria, mas, nesse caso, o prazer não está na relação livre do corpo, na comunicação do desejo e na disposição em recusar ou aceitar a volúpia carnal, está em tornar o prazer desprazer, pois ao objetificá-lo, ao percebê-lo como mero meio de transição para a satisfação do consumo do Outro, o que passa a contar é o entendimento desse Outro como estatística, enfim, como um número ou como objeto sexual a ser contabilizado. Então, o que se tem é a indistinção dos corpos e rostos sem nomes.
Quando tudo parecia encaminhado, o argumento não se desenvolve, estaciona e não volta a seguir o rumo de jeito nenhum. Logo, a conclusão lógica é parar, e pensar em um título para o descalabro textual que nasceu. Uma possibilidade seria batizá-lo de “Que porra é essa?”. Mas, tal título não parecerá aceitável, pois os palavrões ainda não receberam o status de pertencer ao vocabulário oficial, ou seja, não estão no dicionário ou são bem-vindos em um texto acadêmico. No fim, talvez, o que resta, e seja perceptível, é uma crítica à elite e às forças conservadoras que ainda dominam os meios de produção artístico-cultural e das decisões políticas. Então, um título como “Se essa elite fosse minha eu mandava pra PQP” talvez seja sensato, mas não aceitável. Desse modo, a elite permanecerá onde está e o conservadorismo reunirá munição para um levante em prol de um poder que ainda não perdeu. 


Wuldson Marcelo, corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É revisor de textos e autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (Editora Multifoco-RJ, 2013) e um dos organizadores da coletânea “Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na Cidade Verde” (no prelo, Editora Multifoco).

2 comentários:

Valeria del Cueto disse...

O Jequitibá não é de Cuiabá, é pra dar em doido! É incrível como uma mentira contada mil vezes engana até quem acha que está dizendo umas "verdades". http://delcueto.wordpress.com/2013/02/17/e-pra-dar-em-doido/

wuldson marcelo disse...

Obrigado pelo seu comentário!
O que chama a atenção nele é o foco que se dá a uma palavra, jequitibá, para um texto que trata do modo como as elites e um pensamento conservador se apropriam de esperanças e desejos populares para sustentar o poder que já desfrutam sem ter, necessariamente, de fundamentá-lo ou explicá-lo. Nisso se inclui o desfile da Mangueira e Cuiabá. O que ocorreu na Sapucaí não foi e exibição de uma cidade pelos olhos e talentos da maior escola de samba do país (eu sou mangueirense), mas a demonstração de que aquilo que foi realizado atendia um desejo da elite cuiabana de se ver refletida país afora. Então se faltou viola de cocho, o siriri, a Maria Taquara, tanto faz ou tanto fez. E se é como você explica, Valeria del Cueto, que o jequitibá no samba é o cerne da mangueira, força e determinação, então tivemos a exaltação da própria Mangueira com o dinheiro dos contribuintes cuiabanos, das pessoas que pagam impostos. O samba-enredo da Verde e Rosa fez questão de ignorar as tais lendas e mistérios citados. “Mistérios e lendas de assombração/ Segui com coragem, mostrei meu valor/ É a Mangueira a todo vapor”. O que tem aí senão uma frase, quais são as personagens apresentadas? Nenhuma. E isso acontece em 99% dos sambas que homenageiam uma cidade.
Agora se temos que interpretar um samba que exalta quem faz e não o homenageado ou quem paga por ele, então a dinâmica do Carnaval que deve ser avaliada, e não a tal incapacidade do povo cuiabano de interpretar um simples texto.