A Musa do Elevador [Eduardo Moreira Lustosa]

A Musa do Elevador

Encontrávamo-nos, se é que se pode dizer tal, regularmente alguns minutos antes das oito horas da manhã no elevador de um prédio de escritórios. Verdadeiramente, não tinha nada de singular ou extraordinário. O rosto era bonito e comum. Os cabelos talvez merecessem menção honrosa. Compridos, bastos e muito brilhantes. Também tinha um sorriso maroto, cativante. Era mais alta do que baixa, mais magra do que gorda, os seios eram fartos, embora nem tanto. A roupa um pouco mais justa do que provavelmente o ambiente recomendava. Contudo, o conjunto da obra era muito... vá lá, apelativo. Era como se ela exalasse um não sei o que – feromônio ou feitiço, talvez - que atraia a atenção. Um magnetismo de fêmea.

Nisso transcorreram-se semanas sem que trocássemos palavra, afora os banais bons dias. Num dia casual nossos olhares se cruzaram e arrisquei uma conversa qualquer, em que pese o elevador lotado de estranhos, como de costume. Conversa que transcorreu aos trancos e barrancos, como era de se supor, dadas as circunstâncias, mas nem por isso deixei de me entusiasmar. Dissemos “tchau” e sorrimos. Passaram-se dois penosos dias sem revê-la e já pensava constantemente em nosso próximo encontro. Numa bela quarta-feira – não sei explicar porque me lembro que se deu numa quarta e não numa quinta etc. -, lá estávamos nós. Olhei animado, com um sorriso irreprimido nos lábios, todavia ela continuou mirando o chão e nem me deu pelota. Os andares sucediam-se desdenhosamente e chegou o andar dela, que era antes do meu. Continuei fitando-a disfarçadamente - pelo menos penso que disfarcei - e, por fim, notei que ela estava de mãos dadas com alguém. Um cara até bem apessoado, pareceu-me naquele momento, contudo não sou capaz de descrevê-lo. O semblante festivo arrefeceu no meu rosto e procurei fingir que fazia algo de interessante com o celular. Enquanto a porta fechava ainda olhei de soslaio, mas ela simplesmente virou as costas e debandou.

Creio que foi no dia seguinte que nos vimos novamente. Estava desacompanhada e a conversa fluiu novamente, por iniciativa dela, mais animada do que da primeira vez. Ao descer, fez-me um olhar significativo.

Era minha última semana na firma e nunca mais a vi. Passei a trabalhar em outro lado da cidade e não nos deparamos nos derradeiros dias em que estive por lá.

Anos se passaram, ainda assim, vez ou outra, sinto uma leve nostalgia da musa do elevador, de nossos papos rápidos e nossos passeios verticais.


Eduardo Moreira Lustosa-Nascido em Barra do Garças (MT), mas
morando há mais de vinte anos em Cuiabá, é advogado, articulista 
e contista. 
Site: http://www.nadademais.com.br/.

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