A poesia de Paul Auster chega ao Brasil [RAFAEL DE PINO]

A poesia de Paul Auster chega ao Brasil

Os poemas rigorosos do escritor, célebre por seus romances, chega ao país pela primeira vez

RAFAEL DE PINO

O escritor americano Paul Auster, de 66 anos, tem seguidores apaixonados, mais que meros leitores. Ele surgiu para o mundo literário em 1982, com o livro de memórias A invenção da solidão, no qual lidava com a morte recente de seu pai, Samuel Auster. Poucos anos depois, virou referência do romance americano com o lançamento de três histórias policiais reunidas no livro A trilogia de Nova York (1987). Essa é uma história conhecida. Menos sabido é que seu sucesso como ficcionista foi precedido por uma fase quase clandestina, em que Auster se dedicou à poesia. Aos 20 e poucos anos, entre um ensaio e outro para seus futuros best-sellers, ele escreveu poesia com dedicação e publicou seis coletâneas, entre 1974 e 1980. Sua poesia completa está agora reunida em português no livro Todos os poemas (Companhia das Letras, R$ 49,50). A versão original em inglês acompanha cada tradução.

CORTE SECO

O escritor Paul Auster, em foto de 2010. Ele abandonou para sempre a poesia, mas ainda nutre carinho por seus versos (Foto: Francesco Acerbis/Corbis)

A tradução dos poemas, uma tarefa sempre difícil, ficou a cargo de Caetano W. Galindo, responsável pela recente (e muito elogiada) tradução de Ulysses, de James Joyce. “Logo que recebi a encomenda da tradução, nas primeiras conversas com o autor, ele disse que estimava demais aqueles poemas e que os considerava difíceis”, afirma Galindo. “Depois desse primeiro contato, fui eu sozinho com seus poemas.”

Publicada nos Estados Unidos em 2004, a coletânea foi bem recebida pela crítica. Em artigo para o jornal The Guardian, o poeta e romancista inglês Gerard Woodward, indicado ao Booker Prize em 2004, afirmou que os poemas de Auster mostram “um jovem escritor tateando por sua voz e sua temática”. Entre as influências evidentes nos versos de Auster, Woodward aponta o poeta francês Stéphane Mallarmé e o americano Edgar Allan Poe. Os poemas são construídos com versos livres, que pedem para ser lidos em voz alta. Auster se preocupa em descrever o mundo ao redor. Um brasileiro pode achar em seus versos semelhanças com o estilo rigoroso de João Cabral de Mello Neto, como este trecho do poema “Desterrar”:

De uma pedra tocada
à pedra seguinte
nomeada: terridade:
inacessível brasa.


Os fãs dos romances e ensaios de Auster encontrarão poucos elementos familiares em seus poemas. Isso o distancia da maioria dos romancistas e ensaístas também reconhecidos como poetas (leia o quadro abaixo). “É um outro mundo, que certamente complementa e suplementa o mundo do prosador”, afirma Galindo. O caminho entre a poesia e a prosa para Auster foi curto e sem volta. Num período de bloqueio criativo em 1978, com problemas financeiros e um filho pequeno para criar, ele praticamente parou de escrever. No fim desse ano, encantou-se com uma apresentação de dança e voltou ao caderno de anotações. Escreveu Espaços em branco, penúltimo texto de Todos os poemas. Terminou de escrever o texto em 15 de janeiro de 1979 e, ao acordar, soube que seu pai morrera. Com a herança, livrou-se dos problemas financeiros e passou a se dedicar à prosa, sua obsessão desde a adolescência. “Ele precisava do espaço maior do romance”, afirmou Woodward. “Não é surpreendente que ele não tenha olhado para trás.”   


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