Alice conformada, Alice revoltada [RERISSON CAVALCANTE DE ARAUJO]

Alice conformada, Alice revoltada



O tom geral das críticas à nova versão de Alice no País das Maravilhas, de 2010, dirigida por Tim Burton, é que o filme é visual e tecnicamente bem feito, mas apenas razoável ou mesmo fraco quanto ao roteiro. Concordo com essa análise, mas não quero aqui discutir genericamente a qualidade técnica ou o roteiro, mas tratar de um ponto específico: a trajetória da protagonista. Há algo no percurso da personagem que simplesmente não bate: a reviravolta final.


AUTO-DESCOBERTA

Parte da história da nova versão de Alice no País das Maravilhas trata da jornada da “descoberta do eu” pela protagonista. É um argumento clássico na literatura e no cinema, de acordo com o qual o protagonista da história: (a) ou parte voluntariamente em busca de experiências que lhe tragam um amadurecimento e uma maior compreensão de sua própria situação existencial ou (b), então, é jogado, contra sua vontade, em situações novas, as quais produzem o mesmo efeito.

Em Um beijo roubado, por exemplo, Elizabeth (personagem de Norah Jones) vai embora de seu apartamento e de Nova Iorque após uma desilusão amorosa e embarca em uma jornada de auto-descoberta por vontade própria. No filme de Burton, ao contrário, Alice é jogada à revelia em experiências que vão (ou deveriam) afetar seu caráter e personalidade. Ao longo do filme, ela deve descobrir e se tornar “a verdadeira Alice”, da qual falam sem parar os habitantes da Wonderland (ou Underland, na visão de Burton).


Alice iniciando sua jornada para se tornar “a verdadeira Alice”

Mas essa “verdadeira Alice” não tem a ver com o que Alice realmente é, mas sim com o que os demais esperam que ela seja. Por mais da metade do filme, Alice se recusa a fazer algo que os outros esperam e determinam que ela faça. Essa expectativa com relação a como ela deveria se comportar é tão sufocante que, em determinado momento, a personagem grita, irritada:

— Desde que cheguei aqui, todo mundo está me dizendo o que eu devo fazer, quem eu devo ser. A partir de agora, eu digo o que eu vou fazer!

É uma atitude louvável de coragem e de auto-afirmação da protagonista. Mas, como vemos no filme, é inútil. A vontade de Alice não tem importância alguma na Wonderland. Seu destino já estava traçado.

ALICE CONFORMADA

O caminho que Alice é levada a percorrer, na Wonderland, não é o da descoberta da própria força de vontade nem da individualidade contra um mundo ou uma sociedade sufocante, mas o caminho da conformação. Tornar-se a “verdadeira Alice” não é se afirmar contra as imposições dos outros, mas se conformar com elas. O destino da Alice de Tim Burton é se submeter ao que os demais esperam dela.

E sua jornada, então, só se completa quando ela aceita nobremente uma situação que ela não buscaria por iniciativa própria; quando ela aceita enfrentar o monstro que ela não quer enfrentar; quando ela aceita praticar uma ação que lhe causa repugnância. Só então — ao parar de se revoltar contra as expectativas dos outros e ao parar de questionar o destino que lhe querem impor—, Alice encontra o seu lugar naquele mundo que ela não compreendia e se torna feliz.


Alice: o ato de bravura não é auto-afirmação, mas conformação a seu destino.

Apresentada dessa maneira, é uma jornada que soa muito incômoda para nós (seres do século XXI, que pilotamos carros voadores e tiramos férias na Lua), mas é exatamente o que a história do filme mostra, muito provavelmente sem a consciência do diretor Burton e da roteirista Linda Woolverton.

Essa falta de consciência sobre a própria história se mostra no desfecho que o roteiro dá a Alice depois que ela volta ao mundo real. O único paralelo possível com o aprendizado que ela teve no “mundo subterrâneo” seria que ela, novamente, se conformasse com as expectativas que os outros tinham para com ela; que ela aceitasse o destino que lhe foi escrito, se submetesse às convenções sociais e dissesse sim ao pedido de casamento daquele lord insensível e com problemas estomacais, tão repugnante para ela quanto o monstro que ela, contra a vontade, tem que encarar na Wonderland. Só assim a história da Alice de Burton e Woolverton seria coerente.

Mas essa coerência, provavelmente, nos seria incômoda. Nós, expectadores de hoje, não gostamos de filmes com meninas conformadas. Uma história que nos diga que um personagem deve se conformar às expectativas dos outros e aceitar passivamente convenções sociais nos soa como um tipo de escravidão moderna, como uma concessão à hipocrisia, de uma submissão a uma força que não deveria nos controlar. Em uma analogia com outra cena de cinema, soa como o discurso do vilão Loki, em Vingadores, que tripudia sobre a liberdade humana, afirmando que nós, seres humanos, “fomos feitos para sermos governados” (“you were made to be ruled!”) e que precisamos desistir de nossa liberdade, pois somente a completa submissão nos traria paz.


Loki, na Alemanha, tribupiando a liberdade humana

HERÓIS CONFORMADOS

Mas, apesar dessa estranheza, o cinema e a literatura têm vários exemplos de histórias em que a liberdade humana não se exercita exatamente na luta para fazer prevalecer a própria vontade, mas sim na decisão de agir contra esta, de agir de acordo com a expectativa dos outros ou mesmo de acordo com um princípio que, a priori, recusaríamos

Esse é o sentido da jornada de Peter Park, nas duas versões de Homem-aranha, que tem abdicar da sua busca por conforto e dinheiro fácil e aprender, da pior maneira possível, a agir de acordo com a responsabilidade que acompanha os seus poderes. É também o sentido da jornada de Neo, em Matrix, que tem que se dispor a agir como O Escolhido, ainda que não seja ou não queira ser tal pessoa.

É a jornada de Benjamin Martin (Mel Gibson), em O patriota, que tem se envolver na luta pela independência dos Estados Unidos em relação à Inglaterra, contra a sua vontade inicial. É a jornada do capitão Hans Solo, na saga Guerra nas Estrelas, que deve superar sua visão pragmática e aprender a lutar nobremente contra o Império, junto com os rebeldes, ainda que sem recompensa financeira.


Mel Gibson como Benjamin Martin em “O Patriota”.


ALICE REVOLTADA

Quando está na Wonderland, é exatamente essa a jornada de Alice. Ela age como Peter Park, Neo, Benjamin Martin, Hans Solo e diversos outros heróis que aprendem a negar sua própria vontade e a aceitar o desafio posto diante deles.

Mas, já de volta à Inglaterra, Alice age da maneira oposta e simplesmente não aceita o seu destino. Ao invés disso — e contrariando tudo o que aconteceu anteriormente no filme —, ela decide agir como uma feminista de 1970: recusa o casamento, dá lição de moral em pessoas muito mais experientes e vividas do que ela e, no final de tudo, parte para a China, onde vai terminar seus dias queimando sutiãs (ou espartilhos) e discursando sobre relações de gênero de cima da Grande Muralha. Quem sabe até liderando uma Marcha das Vadias…

Nada contra filmes em que jovens se revoltam contra convenções sociais e dão um tapa na cara da hipocrisia dos mais velhos. Mas, a menos que haja uma intenção irônica ou cômica ou seja uma tentativa de caracterizar a imaturidade de um jovem personagem, isso deve ser feito de modo coerente, em uma história que se pretenda séria. Para que Alice dê lição de moral à sociedade, é preciso que tal lição seja verdadeira e sincera, que seja a manifestação efetiva de uma consciência ou compreensão maior da vida por parte da personagem, contra o entorpecimento do caráter da geração mais velha. A revolta final de Alice, entretanto, tem muito pouco de verdadeiro e parece atender muito mais aos clichês do cinema (e às expectativas de parte da plateia moderna) do que às questões construídas ao longo do roteiro.



À primeira vista, essa revolta final parece refletir a mesma coragem que Alice aprendera a exercer na Wonderland, mas a comparação é superficial. Na Wonderland, sua coragem é para negar sua vontade, esquecer seu medo e fazer o que é certo para com os outros. No mundo real, sua revolta é consequência do medo das consequências e um apego à própria vontade contra a dos outros. Não quero dizer que não se casar com o lord seja uma atitude errada em si. A questão não é essa. A questão é que essa escolha narrativa é simplesmente incoerente com o enredo do filme e com o aprendizado que as experiências de Alice lhe trouxeram antes. Um filme pode mostrar seus protagonistas agindo de modo incoerente? Sim, pode, mas desde que essa incoerência não seja disfarçada e vendida ao público como coerência. Essa reviravolta final funcionaria melhor se o trajeto de Alice na Wonderland também fosse o da auto-afirmação contra as pressões e expectativas dos outros, o que não é o caso.

É claro que uma escolha de Alice pela submissão social seria algo que estranharia a nós e desagradaria a muitos. É fácil aceitarmos e torcermos pela “conformação” de Peter Park, Neo, Benjamin Martin e Hans Solo, pois a “submissão” destes envolve, na verdade, atos de bravura externa que representam riscos de vida. Já a conformação a um casamento por convenção social, ainda que envolva a mesma abdicação dos desejos e sonhos, a mesma aceitação de uma vida de sofrimento, já não nos aparece como uma atitude nobre, mas apenas trágica; um sofrimento passivo ao invés de uma coragem ativa. Vemos nobreza e caráter no primeiro caso, mas apenas anulação e frouxidão no segundo. Daí que findar o filme com Alice, de bom grado, vestindo-se para enfrentar o monstro do casamento — assim como havia posto a armadura para enfrentar o monstro Jabberwocky —  é uma escolha que o filme não tem coragem de adotar ou mesmo cogitar.

Mas era a única fórmula que daria coerência interna à obra. Um vez que não queria apresentar ao público a mesma história do livro, Burton poderia ter a coragem de retratar uma visão que nos incomoda, mas que corresponde efetivamente ao mundo em que Alice realmente vive. Ao invés disso, o que vemos é a covardia de se submeter ao politicamente correto do século XXI.

A Alice de Burton, até na revolta, é uma conformista.

Fonte:



RERISSON CAVALCANTE DE ARAUJO é colaborador do Fala Cinéfilo!. É professor universitário, mestre em Letras pela UFBA, doutor em Semiótica e Linguística Geral pela USP e estudante do Seminário de Filosofia. E gosta de usar imagens de personagens de filmes no lugar da foto do perfil.

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