Dos sentimentos e dos medos [Fátima Venutti]

Dos sentimentos e dos medos

Impotência. Sinto-me impotente com o que me chega, invadindo, rasgando, tomando conta. Mostrando-se real, enfim.

Eram outros tempos em que desejei sentir essa fúria, essa erupção acelerada de sentimentos. Eram outras as vozes que vinham e pediam, bem baixinho, quase imperceptível, uma mudança, um encontro, um saber daquele momento, daquela pessoa. Era ele, tinha que ser ele. Foi por muito tempo o desejo. Foram fórmulas e bulas a seguir ao pé da letra, direitinho pra não errar, Errar de novo.

Eram outros tempos. Tantos que nem mais consigo conjugar. Acabei por esquecer de como deveria ser.

Mas eu fui, uma, duas, três vezes. Alternadamente com o próprio tempo que me vinha a mostrar que eu precisava dele pra me manter e me encontrar. Encontrar o outro e manter=me viva, de novo. Ou ele, aquele que já estava à mercê, à disposição tão imperceptível do meu consciente. Mas inconsciente já havia se mudado de mala e cuia, "peito aberto ao encontro" e ali se escondeu. De mim. Em mim.

E eu brincava de faz-de-conta, arremessava poemas e escritos vomitados no dia seguinte pra não perder a essência das sensações gravadas, marcadas pelo último encontro. Eram só poemas, palavras, confissões e, declarações. Tamanha inocência a minha. E de tamanho maior eram os desejos de mais uma vez, outra e outra vez, na semana seguinte, no mês seguinte. Feito uma droga que causava um prazer físico e mental por dias e dias seguintes. Até que acontecesse a próxima ingestão, o próximo encontro. Quanto tempo? Alguns anos nesse vício, nesse delirium tremens já tomando conta da consciência. Eu queria, desejava escandalosamente que pudesse haver a próxima vez.

Menti demais. Fiz de conta por tempo demais até que o que achava que era uma inocente droga prazerosa se mostrou no proximo encontro como verdade absoluta. E o que estava inconsciente escorreu pelo suor, pelos poros, pelo poema que escrevera pra mim, sobre meu corpo nu. E o medo chegou.

Medo da próxima palavra, do que viria depois daquele olhar hipnotizado e recheado de declarações, de verdades. A única verdade que procurava em outros tempos, que desejava decorando fórmulas de encontrar, de sentir, de viver intensamente estava ali, num longo poema revelado sobre a minha pele. Senti-me enganada por mim mesma, por acreditar que a minha verdade era muito maior do que os sentimentos que já estavam instaurados dentro de mim.

Agora o medo: do sentir e ser tão verdade absoluta o que eu mesma vendava. Medo do depois, do dia de partir, do momento de ligar e não ouvir mais a voz, de um dia não ser mais a inspiração, de restar somente o rascunho do poema, jamais ser publicado, jamais ser a mesma. Medo de não ter mais que procurar. Medo de desejar que seja engano, pira, ilusão de ótica e jogo de palavras e descobrir que desejava bem o contrário. Medo de não ler mais o seu olhar, o seu desejo, a sua verdade.

Medo maior de não tirar nunca mais você de dentro de mim.


Maria de Fátima Venutti ou simplesmente Fátima Venutti. Paulistana de Osasco. Reside em Blumenau desde dezembro de 2002. Formada em Letras, escreve desde os 11 anos. Pág. na internet: Fátima Venutti.

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