Engendrando um grito de resistência: poesia e barbárie no cinema de Claudio Assis [Wuldson Marcelo e Gina Trigueiro]

Engendrando um grito de resistência: poesia e barbárie no cinema de Claudio Assis


As paisagens desérticas de “Paris, Texas” (1984), de Wim Wenders, apontam o distanciamento entre o fluxo, a aceleração e a leveza dos centros urbanos – as chamadas megalópoles –, e os cenários desoladores, caóticos, mas pulsantes de vida de regiões ermas, alijadas do desenvolvimento prometeico ocidental, da racionalidade tecno-científica aos efeitos avassaladores da globalização. Segundo Milton Santos, a globalização que vivemos é a da perversidade, ou seja, tal como o mundo é. O que faz com que o mundo tal como querem (os agentes do capital) que o enxerguemos, isto é, a globalização como fábula deixa lacunas para a compreensão de um mundo que acossa o indivíduo e engendra um imperialismo cultural que estandardiza modos de vida, de consumo e de produção artística. E essas sendas, aos quais é possível capturar e reverter em forma de denúncia, são exploradas nos filmes do cineasta Claudio Assis. Em “Amarelo Manga” (2003), o Texas Hotel (não por acaso, uma homenagem de Assis a “Paris, Texas”), no qual reside ou circula boa parte das personagens,  é um caldeirão que carrega elementos díspares acentuados por uma globalização que exclui e perpetua o estigma social dos deserdados da cultura (Adorno & Horkheimer) e dos refugos humanos (Zygmunt Bauman), que, em busca de um solo fértil ou de um lugar ao sol, se digladiam numa luta constante pela subsistência ou para fazer valer os desejos que nascem e se efetivam em meio a uma brutal cidade ensolarada, em uma Recife que exala os rumos de uma globalização que separa os de “dentro” e os de “fora” e que separa mesmo os que estão “dentro”, em uma periferia que pulsa no centro da cidade.

Estar à margem no centro implica em ter que batalhar pela visibilidade não de seus feitos ou expansão de seus domínios, como ocorre às aspirações ensejadas pela classe média ou da elite global, mas pela realização de suas vontades e necessidades primárias e pelo prazer ou busca de qualquer emoção que brote como válvula de escape à rotina de trabalho massacrante ou carências sociais que os fazem refugiados, mesmo que nativos, em seu próprio território, pois numa sociedade na qual o que conta são o acúmulo e a capacidade de descarte não reunir condições para tal prática serve para por à parte justamente os refugos gerados pela industrialização e especialidade do trabalho, que não observaram a dificuldade, fruto de um abismo social gritante, dos que não acompanharam o desenvolvimento industrial e nem se especializaram em um tipo de serviço. Como escreve Bauman, “Para ser admitido na cultura do cassino da era líquido-moderna, é preciso ser despretensioso e onívoro, abster-se de definir com muita rigidez a sua preferência e de aderir a alguma por muito tempo, mostrar-se pronto a provar tudo que esteja atualmente em oferta e a ser pouco coerente e estável em suas predileções” (Zygmunt Bauman, Vidas Desperdiçadas, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p. 145).

Porém, as personagens de “Amarelo Manga”, e também da produção seguinte de Assis, “Baixio das Bestas” (2007), não primam pela falta de posicionamento, nem pela despretensão. São carnívoras, como evidencia a fala do padre em “Amarelo Manga”, “O ser humano é estômago e sexo”. E como carnívoros seguem uma lógica do capital: a da devoração. Em “Baixio das Bestas”, a crueldade é elevada a forma de poder, mas de um poder usurpado da dignidade de outrem, um poder conquistado a partir da submissão dos tipos já condenados pelas desigualdades econômicas e que, assim, podem ser objetificadas em nome de um prazer ou da necessidade. Uma violência rés-do-chão num mundo degradado, no qual o individualismo encerra o gosto pela humilhação do outro. O abandono, a distância, a exclusão são substratos de uma terrível face da humanidade, a de esquecer por completa àqueles que deserdam da partilha das riquezas (no caso, habitantes da Zona da Mata) e, desse modo, lançando-os a própria sorte, e a de se chocar como se tomasse contato com sua animalidade extirpada, a custa da remoção dos instintos e sensações, quando se ouve relatos de barbáries nos confins do mundo.

A extrema violência vista tanto em “Amarelo Manga” como em “Baixio das Bestas” é a tradução de um processo de esmorecimento da vivência comunitária, que sem as garantias de proteção da modernidade, desembocaram, no mundo contemporâneo, em incerteza e insegurança, características apontadas por Bauman como as que marcam a atualidade (para o autor, a sociedade líquido-moderna). A fragilidade dos laços afetivos não suporta a demanda por uma individuação crescente. A exacerbação da individualidade é resistência, mas também a redução gradativa da possibilidade de reajustar a dinâmica social a fim de restaurar a importância da comunidade. O que afeta a subjetividade numa sociedade que se molda sistematicamente em uma objetivação dos meios de produção, da força de trabalho, do comportamento e das relações pessoais. “As sociedades contemporâneas se apresentam assim como corpos inertes atravessados por gigantescos processos de dessubjetivação que não correspondem a nenhuma subjetivação real” (Giorgio Agamben, O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Chapecó, SC: Argos, 2009, p. 48). Na contemporaneidade, a constituição do sujeito e os dispositivos que intermediavam essa constituição e os elementos históricos se atritam e perdem valor, e o que temos é um processo de dessubjetivação, pois é na negação da subjetividade que o individualismo hodierno se estrutura, na padronização de gestos, vontades e na dissipação das fronteiras políticas, o que vale dizer, neste caso, que o imperativo econômico e de manutenção do poder, relega a segundo plano a formação do cidadão democrático, que passa a ser ilusão ou hipocrisia. Para Agamben (2009, p. 47), “[...] o que acontece agora é que processos de subjetivação e processos de dessubjetivação parecem tornar-se reciprocamente indiferentes e não dão lugar à recomposição de um novo sujeito, a não ser de forma larvar e, por assim dizer, espectral”.

As personagens de Assis flutuam diante de uma subjetivação que toca os instintos e lapidam sua relação com o mundo. Em “Amarelo Manga” há uma procura e posterior reconhecimento da perversidade humana, no qual o Outro se reduz a meio de prazer ou soma de imagens de um “eldorado” moral. Os afetos são frágeis e as convicções idem. Qualquer coisa fora do eixo rompe o elo entre a ordem forjada e a hipocrisia. As máscaras se desfazem e o jogo vira, santas tornam-se devassas e toda a iniquidade escondida, mas latente como um perigo imediato, vem a tona expondo que os dispositivos do processo de subjetivação não garantem mais a sustentação de vidas pacíficas inteiradas no regime social do sucesso profissional e da filiação comunitária e partidária. Já em “Baixio das Bestas” a perversão constitui a comunidade e os elementos estrangeiros que passam pela Zona da Mata. A objetificação do outro é elemento de diversão e o jogo dúbio entre humilhação e prazer revela o contato com o que há de mais baixo em relação aos instintos e a impossibilidade de participar do modelo liberal de escolhas e sucesso.

Em seu terceiro filme “Febre do Rato” (2012), Cláudio Assis acrescenta um elemento que estabelece a resistência às agruras da globalização e as diferenças sociais engendradas no local, entre a elite e os deserdados da cultura: a poesia. Na figura de Zizo, o poeta é o vínculo possível que pode unir comunidade e enfrentamento às vicissitudes geradas pelo poder abstrato do capital e dos seus agentes que condenam milhares à miséria.  A cidade de Recife em preto e branco é o elã de Zizo pela vida, além do amor, do sexo, da arte, da amizade. As primeiras imagens passam por um Recife elegante até chegar às moradias degradadas de seres desfavorecidos pelas bênçãos da ordem econômica. E é uma fotografia da beleza e da violência, de um mundo contemporâneo entranhado em suas próprias contradições.  Uma Recife caótica, urgente, presa de um presente que Assis mostra vivo, mas misturado à revolução possível, filha da negação de qualquer esquema que ensine ou defina a vida e a arte.

Neste sentido, a liberdade é transitar à margem (para invadir o centro), mesmo que a liberdade seja a utopia de se entregar ao sexo, a maconha, a beleza de um amor que procura seu próprio entendimento ou do desejo que provoca a perda do controle, no entanto, um descontrole que consagra um rumo poético-político e de declaração ao amor. Neste sentido, Hakim Bay contribui para elucidar que a utopia em se ver livre de tensões, coerções individuais e do domínio das relações de poder procura conciliar uma visão crítica de um mundo cujas condições sociais atulham o ser humano de medo, obrigações e restrições e um território no qual as peripécias de uma vontade livre podem se efetivar.

“Estamos nós, que vivemos no presente, condenados a nunca experimentar a autonomia, nunca pisarmos, nem que seja por um momento sequer, num pedaço de terra governado apenas pela liberdade? Estamos reduzidos a sentir nostalgia pelo passado, ou pelo futuro? Devemos esperar até que o mundo inteiro esteja livre do controle político para que pelo menos um de nós possa afirmar que sabe o que é ser livre? Tanto a lógica quanto a emoção condenam tal suposição. A razão diz que o indivíduo não pode lutar por aquilo que não conhece. E o coração revolta-se diante de um universo tão cruel a ponto de cometer tais injustiças justamente com a nossa, dentre todas as gerações da humanidade” (Hakim Bey, TAZ - Zona Autônoma Temporária. Digitalização: Coletivo Sabotagem: Contra-Cultura).

“Febre do Rato” de Claudio Assis, assim como o conceito de TAZ (Zona Autônoma Temporária), de Hakim Bay , é uma “fantasia poética”.  A comunidade em que o poeta anarquista Zizo vive é como que o “enclave livre” proposto por Bay.   Não existe mais terra que não fora descoberta, não há lugar que não exista polícia e impostos.  O que pode existir é a resistência à opressão do Estado, esse Estado onipresente, mas que, ao mesmo tempo, deixa rachaduras para a ação. A mini-sociedade de Zizo é uma irrupção temporária, assim como alguns agrupamentos piratas. Pessoas que vivem fora da lei e da moral estabelecida e estão determinadas a viverem assim ainda que por pouco tempo, mas alegres (Hakim Bey).  Os efeitos da globalização, da exploração, da repressão criam esse “enclave”, essa fuga.  O espaço de Zizo é um espaço negligenciado pelo poder estatal, o que possibilita a ação. Quando ele sai da sua “Zona Autônoma” e confronta diretamente os agentes do Estado acaba se martirizando.
 
Hakim Bey argumenta que o núcleo central da TAZ seria o bando.  Ao contrário da família tradicional, o bando se relaciona por afinidades, é um grupo aberto às pessoas com interesses semelhantes. Em “Febre do Rato”, a relação se dá por afetos e afinidades, pelo carinho. O bando não pertence a uma hierarquia maior, se junta por contrato, parentesco, afinidades espirituais (Hakim Bey).  A fotografia em preto e branco traz uma ideia de igualdade, não existe distinção de cor. Existe uma identificação na maconha, na cachaça, no sexo, na utopia, no amor.

A poesia é a ferramenta de ação.   “Que eu me organizando posso desorganizar” é a poesia motriz. O peso de uma sociedade em putrefação leva a uma busca por renovação. A febre do rato é um levante, a poesia é o instrumento para infiltrar nas rachaduras que estão expostas. A liberdade do corpo, a paixão pela vida pulsante, o amor é o que move e mantém esse “enclave”. A poesia é analgésica e revigorante. A poesia de Zizo é um grito fora de controle, “gritos de não para o abismo mundo”.

E esse abismo mundo que Wenders soube delinear em “Paris, Texas”, o desmemoriado que vaga em busca de sua identidade e daquilo que é possível recuperar, e Assis em sua filmografia explora como poucos no cinema brasileiro: que expressa a barbárie e seu antídoto (senão seu aparelho de combate), a delicadeza que há na alucinação de construir um mundo menos cingido pelas hostilidades sangrentas dos poderes institucionais corrompidos e corruptores. É a subjetivação perdida nos filmes anteriores (“Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”) para a globalização que homogeneíza e constrange tudo, de pessoas a produção cultural e as faz se render as suas cláusulas que favorecem a alienação e a demência, que “Febre do Rato” resgata e projeta para frente, emergindo dos escombros da cidade e da sujeira do rio, e desafiando Platão a expulsar novamente o poeta da República.  

“Eu não sei se todos os povos amam seus cientistas, mas todos os povos amam seus poetas. Os poetas são amados por milhões. Por que os povos amam seus poetas? É porque os povos precisam disso, os poetas dizem uma coisa que as pessoas precisam que seja dita. O poeta não é um ser de luxo, ele não é uma excrescência ornamental da sociedade, ele é a necessidade orgânica de uma sociedade, a sociedade precisa daquilo. Daquela loucura para respirar. É através da loucura dos poetas, através da ruptura que eles representam que a sociedade respira” – Paulo Leminski em uma entrevista.


Gina Trigueiro é graduanda em Filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).


Wuldson Marcelo, corintiano apaixonado por literatura e cinema, nascido em 1979, em Cuiabá, que possui Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea e graduação em Filosofia (ambos pela UFMT). É revisor de textos e autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (Editora Multifoco-RJ, 2013) e um dos organizadores da coletânea “Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na Cidade Verde” (no prelo, Editora Multifoco).

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