Flor da Pele [Rosane Magaly Martins]


Flor da Pele
Ela apaixonou-se aos 40 pelo homem de 30, casado, pai de família, vigilante não armado, e quase como que numa história de terror, ela enviuvou enquanto ele pulava a janela do seu quarto, com as calças na mão.
O amor não podia dar certo, era o choro.
A paixão iria acabar, de dedos em riste.
O pecado morava com o casal, diário.
Ela assumiu o homem, o amor, o pecado em seu corpo, sua cama, sua vida. Diuturnamente permitia-se ser amada, desejada, copulada. Era acariciada por suas mãos sinuosas, mordida por seus dentes desalinhados, arranhada por sua barba cortante. Ela lavou, passou, cozinhou e estendeu no quintal seu amor, sua vergonha, as comparações culturais, as diferenças e igualdades humanas.
Ela apaixonou-se aos 50 pelo homem de 40, pai de família, vigilante ainda, e quase como numa história de suspense, ela revidou aquele amor cru, malfazejo, com durezas e controles. Vestiu a mortalha da viuvez na comparação diária da falta de modo, de jeito, de palavras silenciosas e cúmplices.
O amor não dera certo, era o silêncio.
A paixão acabou, mãos de reza.
O pecado açoitado.
Ela assumiu o seu homem, seu amor, as marcas em seu corpo gozoso daquele que havia lhe escolhido, mas que não entregou-se. Esferas de amor que não permitiam nada além do amor apreendido, preso às convenções sociais e religiosas, esfoliadas. As mãos ardentes já não circulavam, os dentes não lhe desejavam e a barba cresceu enquanto a louça era substituída, as roupas doadas, o cardápio repetido nos dias mortos pelo casal enclausurado.
Ela apaixonou-se sempre, aos 20, 30, 40, 50 e sempre por diversos homens possíveis, em profissões imprevisíveis, na diversidade de somente quem se entrega consegue compreender. Por que o dia, a noite, a tentação eram visíveis sempre. Era sôfrega, sórdida, fugaz, variável, variante, previsivelmente imprevisível, descumpria as juras, as verdades mentirosas, agruras daqueles que se arriscam.
O amor que sempre dá certo, publicável.
A paixão que queima entranhas.
O pecado rasgado e hoje desenhado na pele. FLOR DA PELE.


Rosane Magaly Martins é natural de Blumenau, Estado de Santa Catarina. Possui uma longa produção poética, que começou com fanzines pornô-poéticos na década de 80. Pós-Graduada em Gerencia en Salud para Personas Mayores (CIESS/OPAS-México, 2010) e em Gerontologia (Furb-Blumenau, 2006). Graduada em Direito (Furb-Blumenau,1996). É escritora, advogada com formação em Mediação de Conflitos (SEDH/Governo Federal), formação docente em Gerontologia (OPAS/IAGG-Colômbia, 2009 e 2011). Autora de diversos livros, sendo os últimos DO FEL AO FIO: duas décadas do olhar feminino sobre o feminino (Nova Letra, 2011), AME TODAS AS SUAS IDADES (Nova Letra, 2010); CLIO NO CIO: escritos livre sobre o corpo (Casa Aberta, 2010). É fundadora e atual presidente da ong INSTITUTO AME SUAS RUGAS. Participa e profere palestras sobre sexualidade, qualidade de vida e saúde do idoso na Europa e na América Latina. Organiza a publicação da coleção de livros Ame suas rugas: 1 Viver e Envelhecer com Qualidade; 2 Aproveite o Momento; 3 Pois há muito por viver, lançados no Brasil e em Portugal. É professora e coordenadora do Curso de Pós-Graduação Gestão em Saúde da Pessoa Idosa (ITECNE), tutora em EAD, Saúde da Pessoa Idosa da Fundação Oswaldo Cruz/Escola Nacional de Saúde Pública e orientadora de conteúdo de monografia na pós-Graduação de Gestão em Saúde no IFSC/Universidade Aberta do Brasil. Temas: Direito de Família, Violência Familiar, Gerontologia;Envelhecimento; Gênero e Sexualidades no envelhecimento; Qualidade de vida; Literatura brasileira. Sites:  http://pulonovazio.blogspot.com.br/ e http://advogadaemblumenau.blogspot.com

2 comentários:

Fátima Venutti disse...

Grande escritora. Maior ainda como poeta. Não lembrava desse texto (entre tantos outros que já tive o grande prazer supremo e privilégio de comungar) e se é recente não estranha-me o crescimento literário que Rosane vem traçando em sua vida tão tão atribulada. Delicio-me (aos goles) sempre ao lê-la e senti-la tão vida e real. Bom demais! Bom demais!

Rosane Martins disse...

Viscera. Pulsar. Viver o que a vida me permite e deixar relatado o que me é possível. Valeu grande amiga