FRAGMENTO DO DISCURSO POÉTICO − OU QUASE ISSO (versão comportada) [Raul J.M. Arruda Filho]


FRAGMENTO DO DISCURSO POÉTICO − OU QUASE ISSO (versão comportada)


quem faz um poema abre uma janela, uma porta, derruba paredes, não deixa pedra sobre pedra, a alegria de ver ruínas espalhadas pela planície, o poema exige suor derramado na batalha contra os arquitetos da certeza, o preço da vida não tem apreço, emoções baratas e o barato da poesia é que ela é cara, caríssima, amabilíssima, mel misturado com algum chá alucinógeno, vertigem, alma perversa, simbiose de dona de casa e dominatrix, tímidos segredos revelados na intimidade, covas e alcovas, luz fraca em fracos frascos, elixir da juventude em labiríntica lábia, palavras e saliva misturadas nos lábios lambuzados pelos lábios teus, prenúncios do mergulho na volúpia, mergulhar dentro de uma mulher, descrever o que não pode ser descrito, o intangível, caça ao tesouro, mares do sul, oceanos coalhados de piratas, carregamentos de ouro e prata, saudades daquilo que não nos mata, em longa jornada de amores perdidos a caravana quer encontrar um oásis para alugar, sombras, água fresca, vento, ah, essas palavras que desmancham os versos, universos sacanas,
grávidos de insinuações, situações inexplicáveis, a maldade escandindo o ar, virar o rosto e mergulhar no mar, ficar sem fôlego, ficar sem voz, a afasia é moléstia menor, bastam 5937 sessões de psicodrama e um drama psicológico para piorar a situação, se isso não for suficiente, deixe marinar por duas horas, depois as palavras jorrarão aos borbotões, um chafariz no meio do jardim, estatua mijando, chuva provisória, basta fechar a torneira, acabar com a festa, o calendário com a gravura do sagrado coração de jesus parece indicar nossas culpas e isso implica no entoar mesmices, o buraco é mais embaixo e mais gostoso, delicioso, basta escolher e esconder o bem mais precioso no lugar adequado, jeito antiquado, século XIX, a arte cavalheiresca do arqueiro romanesco, farsesco como um afresco falsificado, pintura de segunda, cena muda, o gato continua dormindo na soleira e parece olhar para o espaldar da cadeira de palhinha, lá nas terras do sem−fim, do sem−meio, do sem−início, visagens no dia findo, fim de tarde, antes tarde do que nunca, como se fosse possível ser feliz na terra do nunca, never more, gritou o corvo, feche as pernas, implorou a mãe receosa de ter que criar outro neto, outra boca para alimentar na boca−da−noite, esse colorido que ilumina o horizonte mais−que−perfeito conjugado na terceira pessoa do plural, singular é a professora que obriga os alunos
a copiarem o versinho bonitinho, bem mimoso, letra de moça, escrito no quadro−negro, querendo esconder a manchete do pasquim: não há novidades abaixo do sol, paisagens lunares, lupanares em alexandria, istambul e greenwich são questões que não preocupam os covardes, foi bom, bombom, os melhores com licor de cereja, cerveja, ora veja, trocadalhos pra carilho, uma letra que muda de posição, surda por opção, em constante deslocamento geográfico, pornográfico, há o sentido de que isso não possui sentido, ou melhor, sinto muito, perceber que o aqui não é mais aqui, o brasil é aqui, o olimpo é aqui, o sujo também é aqui, ou ali, acolá, a cola descola e não decola, a tecnologia é uma forma de construir o que mais cedo ou mais tarde tardará, retardará, falhará, destruirá e nos deixará com o conhecimento na mão, a não saber o que fazer, o que fazer com a responsabilidade de ser irresponsável, desagradável, incomunicável, depois de sair da escola joãozinho e maria foram ao bosque,
nenhuma equipe de salvamento conseguiu chegar ao local, perda total, liquidação total, é para acabar com todos os estoques,aproveitem, somente hoje, amanhã também, a semana vai ser longa, curta é a saia da moça que já não é mais moça, sorriso maroto, é tarde para fazer as malas e fugir, quer um punhado de mirtilos?, estação de colheita, deus queira que não falte comida, poeta é quem não pensa no amanhã.



Raul J.M. Arruda Filho, 53 anos, Doutor em Teoria da Literatura (UFSC, 2008), publicou três livros de poesia (“Um Abraço pra quem Fica”, “Cigarro Apagado no Fundo da Taça” e “Referências”). Leitor de tempo integral, escritor ocasional, segue a proposta por um dos personagens do John Steinbeck: “Devoro histórias como se fossem uvas”. 
Todos os direitos autorais reservados ao autor.

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