POR QUE SERÁ [Ana Maria Lauer]

POR QUE SERÁ

O meu texto abaixo é uma resposta ao texto “As Chances da Vida”, do Sr. Walcyr Carrasco, publicado na revista Época em 08/03/2013, que você pode encontar no endereço: http://revistaepoca.globo.com/vida//2013 

Caro Sr. Walcyr Carrasco,

Permita-me discordar de alguns pontos da sua análise sobre o caso Bruno e Eliza Samudio. Vamos analisar os fatos com objetividade. Em primeiro lugar a criança só foi concebida porque o ex-goleiro Bruno fez sexo com Eliza sem usar nenhum contraceptivo – nem camisinha, nem coito interrompido, nem vasectomia, nem nenhum outro método, que porventura exista. Quando o senhor diz: ”Eliza usou a única arma que tinha para sobreviver: seu corpo. Quando conheceu Bruno, parecia a chance de sua vida. Teve Bruninho.” O senhor está esquecendo-se de levar em conta que Eliza não teve o Bruninho por passe de mágica. 

Mas, se não foi por passe de mágica, então na sua lógica o ex-goleiro Bruno tinha direito ao prazer sexual com Eliza Samudio. Não encontrei em seu texto nenhuma palavra que recriminasse este fato. Por outro lado todo o seu texto empenha-se em fazer um juízo de valor sobre a conduta de Eliza. Será devido ao fato de ela ter sido prostituta ou por ser mulher? Gostaria muito que me respondesse se, na sua compreensão da vida, prostitutas, que também são mulheres, não podem se apaixonar nunca? Nem tampouco têm o direito de ter um filho? Por que estes direitos são sumariamente negados as mulheres prostitutas? Deve ser porque não interessam aos homens, não é? 

Mais adiante o senhor diz: “Eis o que quero dizer: Eliza não era santa. Quis usar o filho. Atirou-se no que parecia a única oportunidade de deixar a vida que tinha.” O senhor está esquecendo-se de levar em conta que o ex-goleiro Bruno, na época do homicídio de Eliza recebia o salário de R$350.000,00 (trezentos e cinquenta mil reais) mensais, fora os ganhos com propagandas. Se o filho era dele, por que Eliza, mulher pobre, sem nenhum apoio de família, deveria criá-lo sozinha? E como cria-lo sozinha, uma vez que ela nada tinha? Mas, isto o senhor não falou nenhuma vez no seu texto. A questão central – o direito da criança – de ser bem nutrida e protegida por seu progenitor, que recebia um salário que poucos brasileiros recebem e que a maioria jamais receberá – isto o senhor não falou. Por que será? 

Então eu lhe convido a fazer um novo exercício de compreensão dos fatos. Vamos fazê-lo como se tivéssemos escrevendo uma mini novela. O nosso personagem principal será um jovem bem empregado, ganhando muito bem – R$350.000,00 mensais, com algum sucesso, a caminho de se tornar um ídolo ou modelo para crianças, está querendo preencher as suas horas vagas com divertimento e sexo adulto. Ao invés de ele procurar uma boa moça para fazer feliz, uma que tenha todas as qualidades que ele acha que merece e tem direito, ele procura uma prostituta, ex-atriz de cinema pornô, criada pelo pai e possivelmente abusada pelo próprio, por sua vez foragido da polícia, cuja mãe tem paradeiro ignorado.

Com esta pobre moça ou mulher ele faz sexo sem camisinha, engravidando-a. Mas para ele isto pouco importa, por que ele, rico e todo poderoso, sabe como resolver o seu problema de pagamento de pensão alimentícia para seu filho. Para ele é muito simples, basta mandar matar a mãe da criança e também a criança. Para isto ele conta com o fiel amigo, que não é ninguém, vive na sua sombra, administrando os seus bens, portanto, ele sabe, fará tudo que ele mandar. Ele também sabe que este amigo, fiel escudeiro, encontrará os Bolas da vida e um deles resolverá o seu problema, por quaisquer tostões. A criança só não foi morta, por que o matador se recusou a matá-la, demonstrando ainda ter um fiapo de dignidade.

Quais são os elementos dessa nossa mini novela? A crueldade, a banalização da vida dos outros, o desrespeito à mulher, o direito ao prazer sexual consagrado só aos homens. Todos estes ingredientes podem ser resumidos em uma única palavra, que vou evitar pronunciar aqui, pois acho que ela vem tão carregada de significado, que hoje em dia, parece um xingamento. Coisa que de forma alguma me interessa fazer. Tudo que me interessa é demonstrar como estamos mergulhados ainda em uma sociedade eivado por conceitos discriminatórios, capaz de fechar os olhos aos erros e a culpa de um, se ele for do sexo masculino, ao mesmo tempo em que, escancara os olhos do entendimento, se ela for do sexo feminino. 

Mas, alimentar este círculo vicioso, circo onde horrores são permitidos é algo muito grave.  É condenar a morte o infante indefeso ainda em gestação. E, num sentido amplo, condenar a própria vida à morte. Hoje estes conceitos cruéis estão circunscritos as mulheres pobres e prostitutas, mas amanhã poderão ser estendidos às filhas da riqueza, numa segunda manobra cruel, facilmente engendrada. É o direito à vida que está em jogo. Há que se ponderar com maior profundidade.

Por outro lado, Sr. Walcyr Carrasco, a prostituição em todos os países do mundo está atrelada à pobreza, a falta de oportunidades, quer sejam de estudo, ou de trabalho. Em nosso país, o país do mensalão, isto é, o país que os políticos exigem ganhos extras para exercer as suas atribuições, subtraindo do povo, principalmente dos mais pobres, os benefícios como uma educação de qualidade, ou a criação de novos postos de trabalho, a prostituição deveria ser encarada, pelos homens ilustres, com olhos mais justos. A prostituição não é um defeito moral e sim uma contingência criada pela corrupção de nossos políticos, que nada têm de estadistas, ávidos por abocanhar uma fatia cada vez mais gorda dos impostos, que sangram o povo. 

Não posso deixar de dizer que me sinto frustrada pela dosimetria da pena conferida ao ex-goleiro Bruno. Na fritada dos ovos ele vai cumprir em regime fechado apenas seis anos. Que país é este? Que leis são estas, que o mandante confesso de um crime bárbaro contra uma jovem indefesa e pobre, deixando um menor sem sua mãe, é penalizado de forma tão leve? Que país é este que um advogado de defesa de um réu confesso vai à TV, com ares de vangloria, para esfregar na cara do povo que seu cliente vai cumprir apenas seis anos de reclusão? A quem servem estas leis? E quem são os seus defensores?Eu gostaria de penas mais severas, quiçá a pena de morte, para casos como este e outros, tais como estupro de menor seguido de morte e sequestro, dentre outros. Está na hora do povo brasileiro demonstrar o seu descontentamento com os legisladores brasileiros. Está realmente na hora de começarmos uma ampla campanha para a concretização de leis mais severas no Brasil. Ou vamos deixar que o nosso país continue sendo o país da impunidade?


Ana Maria Lauer -Nasceu em Belo Horizonte - MG, Brasil. Mudou-se em 1983 para Santa Maria-RS, onde mora até hoje.
Funcionária do Banco do Brasil, hoje aposentada, dedica-se a escrever.
Em 2005/2006 ganhou o prêmio UNESCO-MEC, tornando-se co-autora do livro trilingue: Educação: Importante ou Prioritária?, ISBN: 85-7632-137-8, Editora Folha Dirigida, Rio de Janeiro – RJ.
Em 2007 publicou o livro A Vida é Poesia,  ISBN: 978-85-366-0913-3, pela Scortecci Editora, São Paulo - SP. Podendo ser encontrado em www.scortecci.com.br
Em 2009 publicou na Antologia: Os mais belos Poemas de Amor, ISBN: 978-85-60489-27-5, pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores, Rio de Janeiro – RJ, o poema: Assinado com Batom. Podendo ser encontrado em www.camarabrasileira.com
Em 2010 publicou na Antologia:  Poemas à Flor da Pele, volume 3, ISBN: 978-85-62689-29-1, pela Grafite Editora Ltda – RS, os poemas: Tempo de Claridade, A Busca, Todos os Dias, Raio de Luz e Causa e Efeito.

4 comentários:

Elisabeth Lorena Alves disse...

Parabéns pelo texto muito coeso.Uma defensoria maravilhosa à figura da mulher. Escrevi algo sobre o assunto em meu blog, lembrando exatamente disto, que as pessoas julgam a atitude de Eliza - uma das vítimas desta tragédia - sem prestar atenção que ele usou do dinheiro para conseguir estas e outras mulheres, pois este era seu referencial de direito e homens como ele procuram mulher pela beleza mesmo. Não critico nem ele nem ela quanto o modo de encontrarem alguém ou seduzir e como você acredito que o menino, outra vítima disto tudo, não foi gerado por magia, mas pelo descuido deste ser,que sabe bem que sexo sem proteção além de ser prejudicial à saúde, ocasiona gravidez.
Muito bom seu texto.
Quem dera a maioria das pessoas prestassem mais atenção ao fato de que o direito a vida foi desrespeitado e que de fato este ser frio e calculista deve ser trancado a 7 chaves na prisão e jamais sair de lá. Infelizmente ele ainda sai de lá e é capaz de ir jogar bola e tornar-se um ídolo nacional.Este é nosso país com leis frágeis.

Anônimo disse...

Li, pois me chamou atenção, mas acredito q ñ devemos dar valor a esses tipos de comentários, principalmente p q eles ñ se fortfiquem mais. Apesar de pensar q cada tem o direito de pensar q o quiser sobre qualquer assunto. São pontos de vistas diferentes; quem vive o problema ou de quem assiste. Claro q sempre o respeito deve ser colocado em tds os pontos. Ela pagou um preço mt alto. Rogo a Deus q Ele a tenha recebido em seus braços.

Fran Uchoa

Sônia Pillon disse...

Ana Maria Lauer, concordo plenamente com você, palavra por palavra! Profundamente lamentável que um "autor" global, com tanta penetração entre as camadas menos informadas da população - e portanto facilmente influenciáveis por este tipo de comentário do novelista Walcyr Carrasco! Aliás, o sobrenome dele é bem apropriado com o tipo de interpretação que ela fez dos fatos... E o mais grave é que foi publicado no Dia Internacional da Mulher, 8 de março! O crime de homicídio contra a Eliza Samudio, da forma covarde e cruel como aconteceu, é inconcebível! E pensar que um bebê inocente permanece vivo apenas porque sabidamente o "carrasco" contratado não teve coragem de executá-lo... Aquela cena hipócrita do assassino Bruno segurando a Bíblia "arrependido" e chorando lágrimas de crocodilo, alguém acreditou?! Como jornalista e também escritora,sei da responsabilidade que se tem quando se é formador de opinião. Parabéns pela sua resposta,Ana, mais uma vez!

Anônimo disse...

Excelente texto mesmo querida Elisabeth Lorena Alves....Vivemos em um país de futebol, mulheres e política, mas nenhuma destes recebe os cuidados devidos, exceto o futebol. Se a mulher e a política fossem tratadas com respeito com certeza a situação em nosso país seria bem diferente. Não sou a favor da pena de morte, como a autora cita no fim do texto, mas de prisão perpétua. Neste país onde a justiça é falha,muitos foram presos por engano e pagaram anos por crimes que não cometeram, se fosse pena de morte,muitas cabeças inocentes já haviam rolado. Mas sou a favor da prisão perpétua para crimes odiondos assim, se houver confusão, o mal poderá ser desfeito a qq momento. No caso de Bruno, essa pena é uma piada...de mal gosto!
Cris Boanerges