Tiranos domésticos [Stella Florence]

Foto: As mãos de Jô Soares segurando "Os Indecentes"
Tiranos domésticos 

por Stella Florence

Não são apenas os políticos e executivos que se digladiam pelo poder mundo afora; há uma espécie de homem, infelizmente muito comum, que açoita as mulheres na intimidade do lar. Eu estou falando dos tiranos domésticos.

A sede de poder do tirano doméstico é imensa e, por não ter como saciar essa sede fora de casa, por lhe faltar comandados, cargos importantes, honrarias, ele centraliza seus desmandos na única pessoa que o acompanha na jornada: sua mulher.


Essa mulher arruma as roupas dele com carinho, prepara a comida que ele deseja, o coloca como prioridade em sua vida, se doa incondicionalmente, mas nunca, nada do que ela faz é o bastante.
O tirano doméstico precisa beber o sangue do medo e da humilhação todos os dias, ele precisa acuar, precisa dar sermões e para fazer isso alguém tem de errar. E se ninguém erra? Os erros então serão criados pela cabeça dele.
É aí que encontramos essa mulher sentada na cama em total abandono, com lágrimas abrindo veios na pele seca por onde muitas outras irão escorrer. É aí que ela se vê sob a mira de acusações quanto ao tempero da carne, a conta de telefone ou qualquer outro assunto que será deturpado por ele, sempre, com o objetivo de diminuí-la.
Esse homem até diz amar sua mulher, mas o tirano doméstico ama apenas uma coisa: o poder. Uma vez tendo feito com que ela caia nas suas garras, ele passa a ameaçá-la. A todo momento, ele acena com a possibilidade de abandoná-la (abandono, o maior receio feminino) e essa mulher, apavorada, cede a tudo, inclusive ao que nem é culpa dela. Quanto mais ela cede, porém, mais vê que a sede de poder do tirano doméstico é insaciável.
Dizem os especialistas da mente que esse tipo de homem tem raiva da mulher com quem se casa, que ele vê nela uma pessoa superior e que, não suportando o sentimento de inferioridade, faz de tudo para diminuí-la, para submetê-la, para subjugá-la. Ele tenta arrastar essa mulher para o mesquinho ambiente mental em que ele vive e, infelizmente, consegue. Já vi mulheres inteligentes, bonitas, competentes, criativas que se enredaram de tal maneira nas garras do seu tirano doméstico que hoje não acreditam mais nas suas próprias potencialidades e se arrastam pela vida como esquilinhos assustados.
Já que não podemos mudar o outro, há solução? Só uma: se afastar desse tipo de homem. Às vezes não é possível um afastamento físico, mas um psíquico e espiritual é. Essa mulher pode partilhar o mesmo teto e respirar uma atmosfera interna totalmente livre e desconectada dele. Não é fácil, não é o ideal, mas às vezes é tudo o que se pode fazer.
Foto: As mãos de Jô Soares segurando "Os Indecentes" (a crônica "Tiranos domésticos" está no livro).



Stella Florence nasceu em 1967, é escritora formada em Letras e vive em São Paulo. Tem uma filha, 30 tatuagens e oito livros. É exatamente desse modo, objetivo e charmoso, que a autora de "Hoje Acordei Gorda" e "Ser Menina é Tudo de Bom", entre outros títulos, costuma se apresentar.

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