1Q84 - LIVRO 2, DE HARUKI MURAKAMI [Isabela Lapa e Kellen Pavão]

1Q84 - LIVRO 2, DE HARUKI MURAKAMI
 
Se não conhece a história, clique aqui para ler sobre o livro 1.

Enquanto no primeiro livro da trilogia Murakami introduziu a história, o cenário, os personagens e a idéia de um aparente universo paralelo, no segundo livro temos um verdadeiro misto de suspense, mistérios, romance e tensão. É incrível o avanço da história!

Aomame é designada para a missão de matar o líder da comunidade em que Fukaeri vivia. Tengo, por sua vez, se vê diante de um embate ético: aceitar o financiamento de um grupo misterioso em troca de proteção, ou correr todos os riscos de estar sozinho diante de problemas que ele sequer conhece a dimensão e a gravidade.

Os personagens amadurecem e  aprofundam a autoconsciência e a compreensão da própria vida e dos problemas e questionamentos pessoais.  

Inúmeras perguntas são respondidas neste livro: quem é o líder, quais os motivos da sua atitude, quem é povo pequenininho, o que é crisálida do ar, entre outras. Novos conceitos, como os de maza e dohta, foram introduzidos e devidamente explicados. 

Neste volume, repleto de frases de impacto e que nos conduzem à reflexão, Murakami intensifica os questionamentos acerca da "realidade", do "verdadeiro". A ambição do escritor é tamanha  que ele nos apresenta situações inimagináveis como duas luas no céu, dois universos coexistindo em um único etc, como se fossem temas corriqueiros e presentes no cotidiano do leitor. 

Neste segundo livro também conseguimos perceber, de forma mais intensa, as características do escritor, que utiliza da repetição como marca da sua escrita. 

Particularmente, confesso que em alguns momentos o uso abusivo da técnica me incomoda, entretanto, em outros, contribui para a intensidade da percepção do leitor acerca do fato e até mesmo para aumentar o suspense a história. De qualquer forma, penso que Murakami utiliza o recurso para enfatizar muitas situações de pequena relevância na história (como, por exemplo, o complexo de Aomame com o tamanho dos seios), o que é um ponto negativo. 

Também cabe salientar que a intenção do escritor em criar um sentimento de amor "prosaico" e determinado por forças superiores me desaponta. O contexto do romance foge à racionalidade expressa em outros pontos da história e que, ao meu ver, é o seu forte. 

No entanto, independente de tais ponderações, trata-se de um livro que prende o leitor do início ao fim. Diálogos bem colocados, um universo diferente, personagens complexos e muito mistério. Também é imprescindível mencionar a capacidade do escritor de transitar entre o real e o imaginário. 

Agora só nos resta esperar pelo lançamento do livro 3, que está previsto para o final do ano.

Passagens interessantes:

— A maioria das pessoas não busca a comprovação da verdade. A verdade quase sempre traz consigo uma intensa dor, como você mesma acabou de dizer. Elas não buscam a verdade que vem acompanhada da dor. O que as pessoas querem é uma história bonitinha e agradável, que as faça enxergar um sentido em suas vidas. É por isso que existem as religiões.

O homem virou o pescoço algumas vezes e prosseguiu:

— Se a teoria “A” mostrar que a existência de um homem ou de uma mulher possui algo de significativamente profundo, essa teoria será considerada verdadeira. Por outro lado, se a teoria “B” mostrar que a existência desse homem e dessa mulher é impotente e insignificante, ela será considerada falsa. Isso está bem claro. Se alguém insistir que a teoria “B” é a verdadeira, as pessoas provavelmente vão odiá-la, criticá-la e, dependendo do caso, atacá-la. Para essas pessoas, não importa se a teoria “B” possui algum tipo de lógica que se possa provar. A maioria das pessoas se recusa a enxergar sua própria imagem como impotente e insignificante e, ao negar isso, tenta manter, de um modo ou de outro, sua própria saúde mental. (p. 175)

"As batidas de seu coração continuavam a emitir um som seco e duro, mas a tontura estava passando. Escutando as batidas, ele continuou olhando as duas luas que pairavam no céu de Kôenji, com a cabeça encostada no corrimão do escorregador. Era uma imagem inusitada. Um mundo novo em que existe uma nova lua. Tudo parecia incerto e ambíguo. 'Há uma única coisa que eu posso afirmar', pensou. 'Independentemente do que aconteça comigo, jamais conseguirei contemplar o céu com duas luas como algo natural e cotidiano.'" (p. 318)


Isabela Lapa e Kellen Pavão – Administradoras do blog Universo dos Leitores, que fala de livros e de tudo que estiver relacionado a estes pequenos pedaços de papel que nos transferem do mundo real para o universo dos sonhos, das palavras e da felicidade!

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