A CAÇADA [Edelson Nagues]


A CAÇADA

Matar é sempre uma tarefa complicada. Requer técnica e certa dose de sangue frio. Mas quando se consegue dominar o remorso, uma onda de serenidade é a recompensa. Não, eu não sou psicopata. Tampouco sou um assassino, no sentido literal da palavra. Vocês vão entender. É que às vezes é preciso matar. Ou, mais que isso, às vezes é inevitável matar. E, se tem de ser, eu prefiro fazer a execução olhos nos olhos. Ver o fio de vida se esvaindo do corpo que se amontoa, como um boneco inflável que perdesse o ar... A primeira vez é um inferno: o coração dispara, o suor escorre, as mãos tremem. Mas depois de certa prática, passa a ser algo normal, corriqueiro até.

Ontem, por exemplo, eu devia ter matado José, mas o desgraçado insistiu no direito de fugir de minha mira. Isso me deixa nervoso e ao mesmo tempo aumenta a excitação para consumar o ato. E saber que é uma questão de tempo me permite planejar a execução quase com requintes de crueldade, como se diz no jargão policial. Não sou psicopata, já disse! Porém, se tenho de matar, que seja de modo interessante, único. Até por uma questão de respeito ao eliminando.

Passei o dia todo – ontem, repito – perseguindo o quase-morto. Não é trabalho encomendado, não, que eu não sou matador de aluguel. É que José cavou a própria sepultura. Querem saber como? Bem, é uma longa história... E eu não posso perder tempo enquanto ele anda solto por aí. Solto e vivo, o que é pior. (Embora pareça um contrassenso ele andar solto e morto, nesse mundo tudo é possível... Você tem de prestar atenção em tudo.)

José é um sujeito comum, como não poderia deixar de ser, com um nome desse. E por sujeito comum entenda-se um homem cheio de problemas e contradições. Ele tem – ou, melhor, tinha – sonhos, emprego e família (mulher e três filhos, para ser exato). Mas dos pais e irmãos ninguém nunca nada soube. Um dia, revoltado com essas e outras negativas, o infeliz largou tudo em uma fuga alucinada. Não sem antes cometer algo terrível.

Preciso encontrá-lo o quanto antes, para evitar outra tragédia. Hoje, desde cinco da madrugada estou em seu encalço. Comecei a percorrer os lugares em que foi visto pela última vez. Conversando com pessoas e seguindo seu rastro como um cão farejador, pude reconstituir sua última noite. E isso não é figura de retórica. É última mesmo, porque de hoje ele não passa.

Pois bem, o sacripanta, depois do ato que o condenou, foi visto correndo pelo centro velho da cidade, perto do rio, por volta das sete da noite. Tinha os olhos esbugalhados, conforme disse o entregador de pizza que quase o atropelou, e olhava desesperado para todos os lados, para cima e para baixo (ele sabe que o castigo pode vir de qualquer parte). A boca, de onde saíam grunhidos, espumava, ainda segundo o motoboy. O coitado (refiro-me ao entregador de pizza, é claro), aliás, levou uma queda feia ao tentar desviar do pré-defunto. Nada sério, por sorte, mas ainda estava em estado de choque. Parecia que tinha visto o diabo, moço, ele disse, cerca de uma hora depois, quando o encontrei. Saiu de um beco em disparada, e mal se virou quando o guidão da moto bateu na altura da costela, assim, por trás, pouco acima da cintura. Foi então que vi seus olhos, Deus do céu!, olhos de morto-vivo. Nunca vou esquecer aquela visão.

Não descobri o que ele fez depois disso até as nove. Acho que andou se esgueirando por detrás dos carros, dos prédios, dos ônibus (que ele bem aí cabe, repare nos detalhes...). Na estação ferroviária perto do cais, acho que cheguei a ver uma pontinha dele atrás de um trem, mas logo o vulto desapareceu. Ainda contornei o comboio, mas era como se ele, acompanhando meus passos, se deslocasse rapidamente para fora do meu campo de visão à medida que eu avançava.

Já disse que, para matar, só olhando nos olhos do condenado, ainda que a uma certa distância. Não por medo, que eu não corro risco. É que às vezes não dá para chegar muito perto. Mas, até por uma questão de princípios, eu preciso ver a vítima. Como já disse, aliás (e eu tenho mania de repetição). Estou certo de que o José, que de bobo não tem nada, sabe desse meu capricho e tira vantagem disso. Capricho sim, porque eu sei de muitos que não dão a mínima. Eliminam o sujeito sem sequer se darem ao trabalho de encontrar o tal. Há meios para isso, e muitos, principalmente com a tecnologia destes tempos, que facilitou muito a nossa lida. Mas longe de mim querer entregar colegas de ofício... Cada um sabe de si.

Mas o José, que é o que importa agora, conseguiu escapar na estação (pensei ter ouvido passos apressados enquanto dava a volta na locomotiva, mas sei que não poderia). Havia muita gente, pois era hora do rush. E José, como também já disse, é um sujeito comum, um verdadeiro zé-ninguém (me desculpe, mas não pude evitar o trocadilho). Perde-se fácil na multidão.

Depois disso, ele se encontrou com uma prostituta perto da área central, nos arredores do Hotel Califórnia. Ela disse que era um cara estranho, caladão, sabe? O tempo todo de cabeça baixa, se escondendo. Entramos no quarto da pensão onde eu atendo ele foi logo apagando as luzes e fechando as cortinas. Gosto de fazer à meia-luz, sabe?, um strip antes, cantando “Ne me quite pas”, pra criar um clima e deixar o cliente em ponto de bala. Quem me ensinou foi uma tia minha, que viveu uns tempos na França, com um velho cheio da grana. Mas mal comecei a tirar a roupa e gastar meu francês e ele me deu um safanão, me derrubando na cama e cala a boca, sua vadia! Vê se dorme e não enche, porra! Me senti um lixo, sabe... Acabei cochilando com a cara enterrada no travesseiro, e quando acordei ele já tinha se mandado. Nem se dignou a deixar algum, o filho-da-puta. Então o cretino é perigoso?! Eu sabia... Se era tarde? Acho que nem  meia-noite, pois ainda saí com outros dois clientes, sabe?

As descrições do fugitivo me levaram até o metrô. Mas eu sabia que lá não iria encontrá-lo, sabe? (Opa, escapou!) Esperto que é, iria se esconder facilmente. Mesmo assim procurei pelos cantos escuros (que na luz José não pode se ocultar. Só se estivesse como Zé... Eu sei que você está atento), atrás das pilastras e dentro dos vagões. Fui até o final a oeste e depois voltei, a leste, também até o fim da linha. Então, já cansado, desci na estação de início (“desci” é modo de dizer, você sabe). Eram 2h15, minha mulher me esperando na cama.

José ainda foi visto em uma boate underground (o sujeito gosta de lugares insalubres, por assim dizer), por volta das três ou quatro horas. Então era você que estava perseguindo o coitado?! Ele olhava pra todos os lados, pra cima e pra baixo, assustado, como se uma maldição fosse cair em sua cabeça. O que foi que ele fez? Minha nossa! Não, não vi pra onde ele foi.

Parece que terminou a noite (a última, garanto) com um grupo de mendigos, embaixo do viaduto da rodoviária. (Eu quase podia sentir o fedor do óleo diesel e urina entranhado no cimento.) Pelo menos foi o que um deles me disse. Um cara baixo, moreno, cabelo bem curto? Vi, sim. Ficou com a gente até um pouco depois das seis. Lembro que se assustou com as badaladas do sino da catedral. Ele não tava bem, não. Tremia muito, mesmo perto da fogueira. Tá doente, meu bróder?, perguntei. Mas ele calado tava e calado ficou. Deixei o cara na dele.

José pode ser um canalha, mas não é bobo. Alcançá-lo não é fácil. Com esse nome, então... Ele sabe que tem uma infinidade de homônimos, o que dificulta ainda mais a tarefa. Mas eu tenho à disposição todas as formas de localizá-lo. Se o caço assim, como se lhe desse chance, é só pra tornar o fim mais interessante. Sei que já disse isso. E também sei que já disse que às vezes sou um tanto repetitivo – e nem sempre muito claro. Pode ser um defeito de estilo, não me importo. Além do mais, a linguagem não passa de um arremedo da realidade, sem obrigação de ser precisa.

Ele não perde por esperar. Já defini uma estratégia: reduzir seu espaço fazendo o caminho inverso, até o local da tragédia. Vou usar a tecla page up, pra ganhar tempo (poderia utilizar a ferramenta “Localizar”, mas aí não teria graça...). Ele não pode sair do itinerário. Além do mais, no cais José não pode se esconder; tampouco no mar e menos ainda no rio. Encontrá-lo é só uma questão de tempo. Pois mesmo reduzido a ele não pode se ocultar em qualquer ponto  

Do livro Humanos (Scortecci Editora).


Edelson Nagues (nome literário de EDELSON RODRIGUES NASCIMENTO) é natural de Rondonópolis/MT e radicado em Brasília/DF. Estudou Direito e Filosofia, com pós-graduação em Língua Portuguesa. É poeta, escritor, revisor de textos e servidor público.
É autor dos livros Humanos (coletânea de contos premiados) e Águas de Clausura (de poesia, vencedor do X Prêmio Livraria Asabeça), ambos publicados pela Scortecci Editora.
É membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (de Cachoeiro de Itapemirim/ES) e mantém (ou tenta manter) o blog pessoal www.senaoescrevodoi.blogspot.com.

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