Alice não estava no País das Maravilhas [Fátima Venutti]

Alice não estava no País das Maravilhas

Pela janela, uma brisa serena invadia, por fim, o espaço daquele quarto naquela manhã chuvosa e fazia bailar as cortinas de voil rosa claro. Lentamente, Dora foi despertando e pode sentir novamente o pulsar da vida através da luz a iluminar e despertar suavemente aquele seu mundo, antes quase sem cor alguma.
Ainda dormente, instintivamente deslizou a mão sobre o lençol da cama, a buscar algo. Foi então que abriu de súbito os olhos e foi conferir o que tocara. Espalhadas pela cama, lá estavam elas: as pétalas de rosas vermelhas.

Um sorriso de prazer esboçou seu rosto. Ela espreguiçou como de costume, sentou-se dobrando e abraçando os joelhos feito uma menina, observando minuciosamente o cenário que encontrara. Pelo chão, a visão de outras rosas espalhadas, ainda intactas com seus galhos e folhas quase murchas, rastros de roupas espalhadas sem pudor por sobre móveis e objetos e um cheiro que agora era respirado por ela num êxtase mais que absoluto tecendo em sua mente e trazendo de volta as imagens da noite anterior. Uma noite de total prazer.

Por minutos Dora ficou naquela posição, buscando em cada detalhe de seu quarto preencher, por mais uma vez, o espaço de sua alma e as frestas de seu corpo com os resquícios dos aromas, tentando ainda ouvir os gemidos, gritos e palavras trocadas há poucas horas.
Observando as pétalas jogadas e debulhadas pelas dobras do lençol, descobriu outro tom de vermelho tatuado. Naquele momento se deu conta de que ingressara numa outra fase de sua vida. A menina há poucas horas, agora, mulher. As gotas de sangue seco e já incorporado à malha do tecido, agora revelavam o verdadeiro significado das rosas vermelhas.

Imediatamente veio em sua mente o conto de fadas de Alice no País das Maravilhas, de L. Carrol, e ela mergulhou em cada cena da trama que tantas e tantas vezes ouviu sua mãe contar e por tantas outras foi embalada para dormir.
O caminho das rosas vermelhas mostrou-se como uma fase na vida de uma mulher, simbolizando a passagem da menina-flor de inocência em rosas brancas para a mulher liberta pela menarca e consciente de que jamais sua vida seria como antes. Bonecas começavam a ser encaixotadas e as brincadeiras ingênuas do pêra-uva-maçâ se apresentavam com um hálito mais apimentado de prazer.
Dora levantou-se e foi até a estante de livros. Ainda nua e já descalça de seus dogmas e pudores, começou a jogar pelo chão a sua inocência. A literatura infantil deixou espaços vagos no mogno escuro. As revistas e jogos de brincadeiras se mostraram fora de sua faixa etária e ela começou a lançá-los ao ar, Abriam-se as páginas em flaps e sons e uma baderna hasteou uma nova bandeira naquele mundo não mais de fantasia.

Uma mulher aflorou, feito todas as rosas que espalhadas estavam no chão. Ela não queria mais a ingenuidade daquele mundo. Por sobre a escrivaninha, sua agenda. Mais que depressa ela abriu na data do dia e escreveu em letras garrafais: O dia em que Dora, a mulher, nasceu!


Maria de Fátima Venutti ou simplesmente Fátima Venutti. Paulistana de Osasco. Reside em Blumenau desde dezembro de 2002. Formada em Letras, escreve desde os 11 anos. Pág. na internet: Fátima Venutti.

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