Boxeando [Jean Marcel]


Chegada de campeão. Entrou no ringue pulando as cordas numa meia cambalhota, caindo de pé no tablado. Que estilo! A tática é impressionar desde o início; afinal, a primeira impressão é a que fica. Assim, mal cumprimentou o adversário e partiu logo para a ofensiva. Como desafiante, não tinha nada a perder.
– Oi, eu tava lá com uma garota, mas te vi me olhando... – Já ocupando, sem pedir licença, o lugar vazio na mesa ao lado dela – Faz amor comigo se eu estiver errado, você está a fim de um beijo meu, acertei?
Perplexidade.
– Ãh? – ela diz sem entender – Como é que é? Tá falando comigo?
Pronto. Mostrou pra que veio... Seus punhos não estão pra brincadeira. Está preparado e não teme o combate. Jab... jab... Precisa agora sentir o oponente.
– Sabe, eu adoro conhecer pessoas novas. A troca de olhar... O friozinho na barriga da primeira vez... Deixa eu te confessar uma coisa: quando rola um clima, eu transo no primeiro encontro. E você?
– Ui, seu grosso! Por que não escolhe outra garota pra alugar?
O oponente veio pro ataque. Estilo agressivo. É preciso cautela, estudar a luta. O Tigrão percebe que é hora de andar em círculos, fazer seu jogo de pernas, esperar uma brecha...
– Tudo bem... Tudo bem.., Sabe o que é, você acredita em amor à primeira vista?
– Ai, saco... Não, não acredito! – deixando claro que não quer conversa.
– Não acredita? E amor à terceira ou quarta olhada? Acho que já te vi antes. Jamais esqueceria esse olhar.
O Tigrão acerta ao falar do olhar. A garota parece dar um sinal amistoso: um sorriso tímido e uma passada de mão nos cabelos.
– Mmmm. Todo mundo fala do meu olhar!
Isso... Não pode ter pressa! Está ganhando por pontos. Agora é hora de encaixar uma sequência de uppers no baço. Minar a resistência... Ganhar confiança.
– Sério! Já te vi antes. Será que não nos conhecemos de algum outro lugar?
– Talvez...
Tudo indica que vai relaxar a guarda!
– Mas se for verdade, provavelmente por isso parei de frequentar esse outro lugar! – levantando a cabeça e olhando em volta, como quem procura por ajuda.
Tsss... Jogo sujo! Essa doeu. Foi pego desprevenido num cruzado de esquerda, no contra-ataque.
– Vocês já pediram? – pergunta o garçom, interrompendo a conversa que não ia mesmo muito bem – Eu sugeriria um gin tônica ou um...
Salvo pelo gongo! Precisa de alguns minutos no corner para recobrar o fôlego e avaliar o combate.
O Tigrão permanece em silêncio por longos minutos. Pensa em ir ao banheiro para ganhar tempo, mas acha melhor não, teme encontrar alguém sentado no seu lugar ao retornar. Nem na escolha da porção de aperitivo ele se intromete. Queijo de búfala com tomate seco, uma provocação. Mesmo assim ele não diz nada e ela parece não se importar com sua omissão.
Silêncio...
– Ai ai... – Ele diz, sem deixar claro se está suspirando ou se lamentando.
Ela inspira fundo e olha para os lados. Depois, solta o ar aos poucos.
Impasse. Depois de violenta troca de golpes, os lutadores parecem agora esgotados. Porém, o combate está indefinido e o clinch não é bom para nenhum dos dois.
– Tô morta de sede! – Ela diz em voz alta, examinando novamente o cardápio.
O rompimento do silêncio é rapidamente interpretado como uma tentativa de “puxar assunto”. Nem tudo está perdido. É a deixa...
– Jura? Tá com sede? Tá bom, eu confesso, só de te ver com sede fiquei com água na boca! Não é uma feliz coincidência? Acho que a gente se completa! – intercede o Tigrão.
Ponto pra ele. Está recuperado e mostra que esse round será diferente.
A tirada foi boa e ela não conseguiu conter a gargalhada. Mais que isso: depois, ofereceu um enorme e divertido sorriso só para ele. 
– Você é mesmo uma “figura”! 

Pronto, ela acusou o golpe. Está no combate de novo! Deve aproveitar o bom momento...
– Olha só, não quero errar, então... Diz ai, qual é a cantada que funciona melhor contigo? – Essa estratégia de ir direto ao ponto sempre funciona com as garotas. Estava guardando essa abordagem para a melhor hora.
É o campeão no seu melhor estilo “um, dois... um dois”.
– Cantada? – Ela pergunta com voz de deboche – Por que quer saber, você por acaso é cantor?
Uhm... Uma esquiva. O golpe foi no vazio. Precisa continuar no ataque.
– Não sou cantor, mas embaixo do chuveiro eu não desafino. Quer ir lá em casa ouvir?
– Engraçadinho! – Ela ri novamente; depois, umedece os lábios com a ponta da língua. 
“Pode ser sede, mas também pode ser sedução”, especula o Tigrão.

– Melhor...Tive uma idéia! Eu te dou um beijo, se você não gostar, pode devolver! O que acha?
– Devolver como?
– Ora, me dá o beijo de volta! – fazendo cara de safado.
Agora ela mostra as covinhas.
Gancho de direita! Os golpes estão entrando... Tá fácil... Direita, esquerda, direita... Ela está no corner. Já está até sentindo o gostinho da vitória. Agora é só soltar um cruzado!
– Por que não abreviamos esse suplício? Somos adultos, diz aí, vamos para a minha casa ou para a sua?
Silêncio... Ela, olhando sério para ele:
– Os dois... Eu vou para a minha e você para a sua!
– Poxa, o que eu preciso fazer pra te agradar? Diz aí...
– Que tal nascer de novo?
O quê? Não é possível! Um gancho no queijo?! Está zonzo.
– Mas... – Ele ainda tenta.
– Olha só – ela interrompe - desculpe, mas não vai rolar! – fulmina.
– Como assim? Eu estava lá com uma garota e te vi olhando pra mim... Dispensei-a para vir aqui, falar contigo.
– Pois é, devia era tê-la trazido!
A perna fraqueja... Está vendo tudo rodar... O coro da torcida vai distanciando... O teto está rodando...
– Ãh? Não entendi.
– Sinto muito, gatinho! Eu estava olhando pra ela e não pra você! Tens o telefone dela?
Direto de direita no nariz. Está vendo estrelas. 1, 2, 3, 4... Nocaute! Alguém chame a maca...


Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

2 comentários:

Stenio Luz disse...

Entrada, ou prefácio, muito interessante e que pode levar à venda de muitos livros. O autor parece bastante criativo, sucesso!

Caderno Descolorido disse...

Hahaha, gostei! (: