Da saudade [Tatiana Carlotti]


Da saudade
Quantas pessoas estão neste exato momento pensando em outras que não estão por perto? Qual a porcentagem noturna da saudade? Deste tanto, quantas vão saciar com delícia o desejo? Ou quantas vão esperar por um milagre?
Adoro a dança do desejo e da saudade. Ambos se evaporam com uma campainha bem tocada. Aquela taquicardia que antecede o pulo no pescoço de alguém.
Saudade pra mim é isso.
E mais um pouquinho.
Saudade é aroma. O cheiro do outro que, do nada, você sente e sorri. É assim que eu divido a saudade daquela outra parecida com a saudade.
A saudade do desejo sabe bem, puxa pelos detalhes, abocanha o que já sentiu e quer de novo e de novo e de novo. Anos luz da saudade esquálida do sonho.
Daí a pergunta: qual a porcentagem noturna da saudade? Quantos agora estão fechando os olhos feito criança que acredita na transmissão de pensamento?
Saudade cozinhando na panela. Panela colorida com desejo cheio d’água. D’água porque todo desejo escorre. Pinga feito molho nas costas das mãos pro outro lamber.
Eu gosto da saudade. É um bom tempero.


Tatiana Carlotti. Balzaquiana convicta e amante das letras. Existe neste contínuo espaço/tempo, sem muita pretensão de eternidade. No momento pulsa, quatro andares acima do solo, no centro de São Paulo. “Venta, eu gosto”Ainda sonha...  Site: SobremargenS.

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