JACARANDÁ [BERNARDINO LUÍS DE MOURA MACHADO GUIMARÃES]

JACARANDÁ

Na minha rua, como em algumas outras ruas do Porto, floresceu um jacarandá. Explosão de cor, festa das cores. Azul e violeta, roxo. As flores são pequenos sinos de azul e aparecem tardiamente, entrando brilhantes neste belo mês de Junho, quando bate mais forte o coração da cidade.
As variações de luz, a intensidade maior ou menor dos raios solares, a chuva leve que amiúde cai, tudo isso altera a coloração do jacarandá, como se quisesse exibir não apenas esplendor, mas versatilidade. E o tempo, sempre o tempo, vai diminuindo a frescura e a profusão das flores, até que desaparecem, como se um meteorito lilás e veloz ali tivesse passado.

Não há muitos jacarandás no Porto, mas nota-se o esforço de plantação destes espécimes nos últimos anos, atenção do município que a cidade agradece.

Vale a pena lembrar o jacarandá solitário e monumental, de provecta idade, ali no Largo do Viriato e que morreu há pouco tempo, para consternação dos seus muitos admiradores quotidianos.

As árvores são um elemento fundamental na ligação urbana entre cultura e natureza, entre cidade e natureza. Pode dizer-se que uma prática ambiental avisada, em qualquer grande cidade, começa pela atenção e cuidados com a árvore urbana. E uma de duas: ou bem que queremos que sejam mais e mais saudáveis as árvores citadinas, ou bem que não. Esta última opção revela-se sempre desastrosa. Há um fortíssimo princípio estético, ou se quisermos, decorativo e harmonizador que depende da existência de árvores. As cidades não podem prescindir desse capital de formosura e de equilíbrio. O elemento visual é porém apenas um dos factores a ter em conta.

Alguém disse um dia que, ainda que soubesse, de ciência certa, que o mundo iria acabar amanhã, continuaria plantando árvores. Isto para realçar que há na estima que se dedica à árvore uma espécie de enaltecimento da esperança. Estes seres únicos fincam-se na terra mas apontam o infinito. Radicam no solo de uma pequena nesga de terra mas é o longe que sugerem. Dada a sua relativa longevidade, simbolizam também a vitória sobre o tempo, a perenidade num mundo que vive o efémero e verifica a impermanência. Daí que uma política para as árvores---coração de uma política ambiental urbana— possa ser entendida como um «pacto entre gerações» --para lá dos impulsos dos dias que correm.

Árvores lembram-nos a necessidade de cuidarmos e gerirmos bem o espaço urbano, para que ele seja acolhedor para todos os que na cidade habitam e trabalham. Uma cidade com mais natureza é uma cidade mais humana e nesta afirmação se nega o dualismo que ainda faz a chuva e o bom tempo nos urbanismos esquemáticos.

Ameaçadas estão sempre as árvores— aprisionadas em caldeiras exíguas, vegetando em passeios de pedra ou no meio do asfalto, sem espaço, sem ar, manietadas e poluídas.

As podas regulares são talvez a agressão mais estúpida e maléfica— embora hoje as câmaras municipais estejam mais conscientes desse facto e evitem cada vez mais o arboricídio «bem intencionado» e ignorante, não faltam particulares retomando a malvada e inútil tradição.

Outros perigos: a má escolha das espécies, pouco adequadas ao local para onde se destinam. As obras na via pública, valas e outras, nas imediações de árvores, que ferem e mutilam as raízes ou impermeabilizam o solo em volta. Ultimamente, a moda dos relvados trouxe consigo a rega excessiva, desperdício de água que afecta as árvores presentes, encharcando-as até à asfixia radicular e ao apodrecimento. Para não falar do
puro vandalismo!
                            
Vida dura, a das árvores. Mas as cores do jacarandá em Junho bradam um azul transcendente, resistente, poesia vegetal na rua congestionada.


BERNARDINO LUÍS DE MOURA MACHADO GUIMARÃES-Escritor, cronista e jornalista independente, dedica-se há vários anos ao jornalismo e divulgação ambiental e de temas científicos. Foi fundador e editor da revista «Tribuna da Natureza» e colaborador regular no diário (já desaparecido) «O Comércio do Porto».

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