O amor é o lastro [Stella Florence]

O amor é o lastro


por Stella Florence

Como escritora, tenho de reconhecer a qualidade dos livros psicografados por Chico Xavier: fato.

A psicografia em si nunca foi motivo de espanto para mim, filha e neta de espíritas que sou – espíritas que, no final do século XIX, em Itapeva, trancavam portas e janelas para ler o proibidíssimo “O Livro dos Espíritos”; espíritas cujos parentes, vizinhos e conhecidos atravessavam a rua para não dividirem a calçada com aqueles seres imundos dados a práticas heréticas; espíritas que foram presos (sim, houve um tempo em que ser espírita no Brasil era crime passível de xilindró).

Por falar em atos violentos, descabidos e arbitrários, vale lembrar um dado curioso: a última ação perpetrada pela Inquisição Espanhola, então impossibilitada de queimar seres humanos, foi a queima de 300 livros espíritas (entre eles “O Livro dos Espíritos” e “O Livro dos Médiuns”) em praça pública. O auto de fé de Barcelona foi conduzido pelo Bispo Antonio Palau Y Termes, às dez e meia da manhã do dia 09 de outubro de 1861, sob os gritos populares de “Abaixo a Inquisição!”. Pasme: mesmo as obras tendo sido confiscadas e queimadas, Allan Kardec teve de pagar as taxas alfandegárias correspondentes. Conhecemos bem esses absurdos burocráticos, não é?

Voltando ao assunto, o que mais me intrigava, portanto, não era a existência da psicografia em si, mas por que Chico Xavier (Francisco Cândido Xavier, 02/04/1910 – 30/06/2002) se tornou uma unanimidade que ultrapassa credos e rótulos? Centralizando ainda mais minha questão: como os livros de Chico continuam sendo uma unanimidade nos próprios centros espíritas? É sabido que existem certos médiuns que não são aceitos por certos centros: todos têm suas ressalvas quanto a esse ou aquele médium, essa ou aquela obra (inclusive eu), por que, então, Chico é diferente? Por que sua obra (obra dos espíritos que dele se serviram) é aceita por 100% dos centros espíritas? Seria ela mais bem escrita? Maior? Melhor? Mais substanciosa? Mais variada? Mais rica? Mais fecunda em emoção e conteúdo? Mais abnegada, já que o médium cedeu todos os seus direitos autorais a obras de caridade? Sim, mas nada disso seria suficiente para torná-la aceita por todos.

Passei dias com essa dúvida até que a resposta me foi inspirada. Antes, porém, é preciso contar um fato.

Em certa época, algumas pessoas aconselharam Chico a suspender o atendimento aos que o procuravam, a parar de ir ao encontro dos miseráveis, a interromper a assistência que não raro entrava madrugada adentro para se concentrar apenas na psicografia dos livros. Chico respondeu que se fosse forçado a escolher, ele preferiria ajudar o próximo e abandonar os livros, pois esse foi o exemplo que Jesus Cristo nos deixou. Em “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, cap. VI, item 5, lemos a recomendação: “Amai-vos, eis o primeiro mandamento; instruí-vos, eis o segundo”. Há uma clara ordem aí: amor primeiro, instrução depois. (Se nossas escolas pudessem beber dessa fonte...). Chico era fiel a esse preceito. E foi justamente por causa do seu exemplo de uma vida inteira de doação, de humildade, de abnegação, de desinteresse material, de, numa palavra, amor, que a sua obra se tornou inquestionável.

Portanto não teríamos uma obra intelectual tão grandiosa (mais de 400 livros, cuja qualidade é impressionante) se não houvesse o coração de Chico Xavier a embasá-la. Ela teria se perdido na poeira do tempo ou não seria levada a sério como esses borbotões de livros psicografados que soterram nossas livrarias. Rendo graças à inteligência, mas reconheço que sem amor ela é casca oca destinada à deterioração. No fim das contas, o amor, apenas o amor, é o lastro de tudo.

Stella Florence nasceu em 1967, é escritora formada em Letras e vive em São Paulo. Tem uma filha, 30 tatuagens e oito livros. É exatamente desse modo, objetivo e charmoso, que a autora de "Hoje Acordei Gorda" e "Ser Menina é Tudo de Bom", entre outros títulos, costuma se apresentar.

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