O Instinto [Eduardo Moreira Lustosa]

O Instinto

Pedro acordou mais cedo do que de costume nesta manhã fria e algo chuvosa. Lavou o rosto, escovou os dentes e saiu de casa com o estômago doendo de fome. Ainda caia uma chuvinha fina e gelada, mas ele sequer se agasalhou. Tinha urgência. Não que tivesse algum compromisso marcado. Longe disso, atendia a um chamado do instinto.

Andou apressado com as mãos nos bolsos pelas ruas que começavam a clarear. Cabisbaixo, embora atento a tudo que lhe passava aos olhos. Ao cabo de vinte minutos deu meia volta e fez o percurso inverso. A rua já estava clara a esta altura e o frio tinha cedido um pouco pela ação dos primeiros raios solares. Tinha até se esquecido da fome e seus cambitos se moviam em ritmo quase frenético. Estava um tanto agitado e começava a ter dúvidas sobre sua sanidade. Desde quando ele tinha pressentimentos? E mais, desde quando estes pressentimentos de fato previam algo com acerto?

Diminuiu o passo e passou em frente à casa de Sofia pela terceira vez, examinando longamente cada detalhe daquele sobrado sóbrio e antigo. Parou alguns metros adiante e fitou desanimado o muro, pensando em sua má sorte.

Prosseguiu lentamente, pensativo e absolutamente quieto, quando ouviu o barulho do portão rangendo. Virou-se para trás timidamente, mas com sofreguidão e não posso descrever sua decepção quando viu que era a Dona Delaíde, avó da Sofia, que tomava a rua no sentido oposto.

Deixou-se encostar no muro e balbuciou um palavrão por puro desgosto. Ele agora tinha certeza de estava perdendo seu tempo. Era que seu instinto ainda era muito jovem para entender de amores. Era que seu instinto não entendia de nada.


Eduardo Moreira Lustosa-Nascido em Barra do Garças (MT), mas morando há mais de vinte anos em Cuiabá, é advogado, articulista e contista.

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