OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO, DE ÉRICO VERÍSSIMO [Angélica Pina]

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO, DE ÉRICO VERÍSSIMO

Eugênio Fontes é o personagem principal do livro, que vive em Porto Alegre na década de 1930. Sua trajetória tem uma mudança tão radical durante a narrativa que o livro é dividido em duas partes.

Na primeira parte, Eugênio é um homem que relembra, através de flashbacks, todas as dificuldades que passou durante sua infância e adolescência por causa da pobreza de sua família, que fez dele uma pessoa amargurada e com um sério complexo de inferioridade.

Ainda criança ele decide que deve estudar e se tornar um homem rico, pois assim será um ser humano digno. Sua obsessão com relação a esse objetivo faz com que ele cometa graves erros no decorrer de sua vida, como esnobar o próprio pai, fingindo não o conhecer e abrir mão de um grande amor em troca de um casamento por interesse.

Mesmo sem condições, seus pais investem para que Eugênio consiga estudar e depois de passar por um bom colégio interno, com isso, ele consegue ingressar na faculdade de Medicina e se formar para ser um cirurgião.

No dia da formatura, após pegar seu diploma, ele se encontra cheio de questionamentos acerca de como será dali pra frente e se depara com Olívia, outra formanda que ainda não sabe o que fazer com aquele “canudo” que tem nas mãos. Os dois engatam uma longa e interessante conversa e ali nasce uma forte amizade. Eugênio e Olívia tornam-se colegas de trabalho, confidentes e, por fim, amantes.

Depois de um tempo ela vai passar um período em outra cidade e Eugênio se depara com a oportunidade de casar-se com Eunice, filha de um homem muito rico, pensando em alcançar status na sociedade e encontrar enfim o conforto que tanto desejava. Ele vive por um tempo esse casamento de aparências, inclusive traindo sua esposa com a mulher de um amigo da família, tendo todas as regalias que a riqueza do sogro proporcionava, mas ainda infeliz. Até que ele descobre que Olívia retornou para a cidade com uma grande surpresa: uma filha deles, Anamaria. Enquanto ele enfrenta seus medos e indecisões, criando coragem para separar-se de Eunice e assumir sua verdadeira família, Olívia morre.

Começa então a segunda parte do livro, que mostra um Eugênio em constante transformação. Ele separa-se de Eunice, termina seu relacionamento extraconjugal, vai morar com Anamaria e retoma sua carreira, porém como um médico popular, que atende pessoas menos favorecidas e se dedica realmente com amor à profissão. Eugênio vai mudando sua forma de pensar, amadurecendo, abrindo mão da obstinação que o fazia pensar que precisava de riquezas para ser feliz e se tornando um ser humano muito melhor. Grande parte dessa mudança se deve aos ensinamentos deixados por Olívia nas várias cartas que escreveu para ele. A primeira delas, antes de ir para o hospital, prevendo que algo poderia acontecer-lhe e as outras foram escritas enquanto estava longe, mas nunca enviadas ao destinatário. A principal carta contém a citação bíblica que dá nome ao livro. Segue um trecho da mesma:


“Quero que abra os olhos, Eugênio, que acorde enquanto é tempo. Peço-te que pegues a minha Bíblia que está na estante de livros, perto do rádio, leias apenas o Sermão da Montanha. Não te será difícil achar, pois a página está marcada com uma tira de papel. Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no ponto em que Jesus nos fala dos lírios do campo que não trabalham nem fiam, e no entanto nem Salomão em toda sua glória jamais se vestiu como um deles.

Está claro que não devemos tomar as parábolas de Cristo ao pé da letra e ficar deitados à espera de que tudo nos caia do céu. É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E, quando o amor ao dinheiro, ao sucesso nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu.

Não penses que estou fazendo o elogio do puro espírito contemplativo e da renúncia, ou que ache que o povo devia viver narcotizado pela esperança da felicidade na “outra vida”. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços enquanto os aproveitadores sem escrúpulos engendram os monopólios ambiciosos, as guerras e as intrigas cruéis. Temos de fazer-lhes frente. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência e sim com as do amor e da persuasão. Considera a vida de Jesus. Ele foi antes de tudo um homem de ação e não um puro contemplativo.

Quando falo em conquista, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação. E quando falo em aceitar a vida não me refiro à aceitação resignada e passiva de todas as desigualdades, malvadezas, absurdos e misérias do mundo. Refiro-me, sim, à aceitação da luta necessária, do sofrimento que essa luta nos trará, das horas amargas a que ela forçosamente nos há de levar.”


Esse clássico da literatura brasileira, publicado em 1938, não foi o primeiro livro escrito por Erico Verissimo, mas foi seu primeiro grande sucesso. O próprio autor fala no prefácio: 

Com a publicação de Olhai os Lírios do Campo operou-se uma mudança considerável em minha vida. O romance obteve tão grande sucesso de livraria, que se esgotaram dele várias edições em poucos meses, deixando editores e escritor igualmente satisfeitos e perplexos. Tamanha foi a influência desse livro no espírito de certos leitores, que ele teve a força de arrastar consigo os romances que o autor publicara até então em tiragens modestas que levavam quase dois anos para se esgotarem. Posso afirmar que só depois do aparecimento de Olhai os Lírios do Campo é que pude fazer profissão da literatura.” 


A obra foi adaptada para a televisão e a novela foi exibida pela rede Globo em 1980. 


É um livro que leva à reflexão e é provável que uma única leitura não seja suficiente. É para ler e reler!


Este post foi elaborado por Angélica Pina, publicitária e colaboradora do blog Universo dos Leitores.

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