QUEM VIVERÁ? OBSERVAÇÕES SOBRE A PERDA DA HUMANIDADE EM BLADE RUNNER [Wuldson Marcelo e Thiago Costa]

QUEM VIVERÁ? OBSERVAÇÕES SOBRE A PERDA DA HUMANIDADE EM BLADE RUNNER

Texto originalmente publicado no jornal “Folha do Estado” em 26 de Julho de 2012


Ano passado, quando Ridley Scott retornou ao estilo que o consagrou, a ficção científica, com “Prometheus”, comemorou-se os trinta anos de seu maior clássico, “Blade Runner, o caçador de androides”. O filme, baseado na peça literária do escritor Philip K. Dick, “Do Androids dream of electric sheep?”, teve seu lançamento oficial nos Estados Unidos, em junho de 1982. Inicialmente um fracasso nas bilheterias, a obra de Scott tornou-se, então, um clássico do cinema, indispensável na coleção de qualquer amante de ficção científica, contribuindo, ademais, para a formatação de novo gênero na linguagem cinematográfica, a saber, o neo-noir. 
Na primeira cena, somos introduzidos à problemática do filme com uma legenda: “No início do século XXI Tyrell Corporation criou os robôs da série Nexus, virtualmente idênticos aos seres humanos. Eram chamados de replicantes. Os replicantes Nexus 6 eram mais ágeis e fortes e no mínimo tão inteligentes quanto os engenheiros geneticistas que os criaram. Eles eram usados fora da Terra como escravos em tarefas perigosas da colonização planetária. Após motim sangrento de um grupo de Nexus 6, os replicantes foram declarados ilegais sobre pena de morte. Policiais especiais, os blade runners, tinham ordens de atirar para matar qualquer replicante. Isto não era chamado execução, mas sim de ‘aposentadoria’”. Deste modo, já sabemos do que se trata. A trama se passa na Los Angeles do ano de 2019, em que o homem, como indivíduo, é uma mancha dentro do vapor úmido da cidade.
Nesse primeiro quartel do século XXI, a história das colonizações entrou em um novo estágio e a maior parte das atividades humanas agora é executada por máquinas, androides construídos para o trabalho escravo nas frentes de exploração espacial. Os replicantes simbolizam um proeminente avanço tecnológico, porém, as suas tarefas nas colônias são executadas em condições adversas. O sistema de escravidão ao qual são submetidos os androides corresponde não somente ao domínio da máquina pelo homem, mas assemelha-se a exploração do trabalho assalariado de todo século XIX e XX: do poder econômico de uma elite contra a força de trabalho operária, ou seja, o domínio do homem pelo homem.
Os Estados Unidos atingiram a condição de “velho mundo”, e a secular procura pelo paraíso terrestre foi empurrado para fora da Terra: para as colônias interplanetárias. O Éden bíblico, que nos séculos XV e XVI acreditava-se estar na América indígena, em 2019 estava oculto em outro planeta. É o que diz um zepelim comercial na primeira cena: “Uma nova vida espera por você nas colônias extraterrestres. A chance de começar de novo numa terra dourada de oportunidades e aventuras”.
A brutal sofisticação técnica e tecnológica substituiu o homem em suas funções mais básicas, no trabalho, no lazer e nas relações afetivas. O que expõe de forma crucial a fragilidade da vida humana, a deterioração do corpo e a obsolescência da memória. Um homo sapiens que faz de sua debilidade física substrato de suas perdas espirituais. É nessa fragmentação dos referenciais de humanidade que os andróides ganham destaque. A tentativa de humanizar criaturas inanimadas acontece quando o próprio homem já perdeu todas as suas referências humanas; quando, em realidade, já perdeu a vida.
O filme de Scott acompanha a trajetória do ex-policial Blade Runner, Rick Deckard (Harisson Ford), que é forçado a voltar à sua antiga profissão. A temática do homem que vaga solitário por dentro da noite, angustiado e encurralado por algum problema (do passado ou do presente) que não consegue se desvencilhar, é característica típica do noir, aquele gênero de filme famoso nos anos de 1940 e 1950. Mas, em “Blade Runner”, os becos sujos e de ruas imundas são as de uma futurista Los Angeles de 2019. Deckard é encarregado de capturar 4 androides do tipo Nexus 6, mais fortes e inteligentes que os humanos e que todos os androides precedentes, a perfeita expressão da engenharia genética, não fosse o breve período de vida. Isto é, de funcionamento: apenas 4 anos. É justamente contra esse tempo tão curto que os replicantes, liderados por Roy Batty (Rudger Hauer), rebelam-se e retornam à Terra. Querem encontrar aquele que os criou e pedir (ou exigir) o que ninguém pode dar: mais tempo de vida. É precisamente nessa senda que “Blade Runner” instiga algumas discussões existenciais: a relação criação e criador, a busca da identidade (no caso dos androides, uma identidade inexistente). Essa identidade enseja a procura odisseica pelo significado da vida, que é a pedra angular da liderança de Roy, além de ser seu desespero. O leitmotiv da busca frenética dos replicantes pelas respostas que dariam fim à cruzada que iniciaram com a rebelião, perpassa pela memória fabricada, lembranças implantadas, pertencentes aos humanos com quais não possuem ligações afetivas, pela inquietação (humana, demasiadamente humana) entre destino – determinismo – e escolha – feitos e ações, pelo conhecimento da vida que os replicantes gerados por programação tecnológica e não fruto da educação, de um processo cognitivo.
Em 2000, Ridley Scott declarou à imprensa britânica que a personagem de Harrison Ford, o detetive Blade Runner, Rick Deckard, também era um Replicante. De fato, a condição não humana de Deckard fica um tanto implícita, e, em ao menos um dos trechos do filme, pode-se observar uma sugestão nesse sentido, ainda que muito sutil. Na versão da obra lançada em 2007, chamada “Blade Runner: the final cut”, a versão definitiva do diretor (esta é a terceira), encontramos um indício bastante significativo numa cena intrigante: no capítulo final, quando Deckard retorna à sua casa para buscar Rachael (Sean Young), o Blade Runner percebe um pequeno objeto de papel, um origami, no chão, ao passo que escutamos as palavras do policial Gaff (Edward James Olmos), “Que pena que ela não viverá. Mas quem vive?”. O policial fazia alusão à condição de Rachael, ela também um modelo do tipo Nexus 6, portanto, próxima da desativação, logo, da morte. Em dois momentos anteriores do filme, vemos Gaff construir suas miniaturas; deste modo, combinado ao comentário em off, presume-se que ele esteve por ali, na residência do Blade Runner. O origami no chão imita um minúsculo unicórnio, a mesma criatura que aparece na sequência – cortada na edição que foi aos cinemas em 1982, e incluída nesta de 2007 – do sonho de Deckard: uma paisagem utópica, próxima da fantasia medieval, com o belo e vigoroso animal correndo entre altas árvores num bosque verdejante e atemporal. A presença reincidente do unicórnio, no objeto artesanal (que se supõe) de Gaff e na viagem onírica de Deckard, não é casual, e poder-se-ia representar como o uso (pelo policial ou pelo caçador de andróides?) de memórias alheias, humanas, procedimento padrão adotado pela Tyrell Corp. em todas as suas criaturas como meio de sensibilização e controle. Essa é a afirmação do próprio Tyrell, idealizador e principal responsável pela companhia de engenharia genética que leva seu nome: “Se lhes dermos o passado, temos um ambiente aconchegante para suas emoções e, consequentemente, podemos controlá-las melhor”.  
 Neste caso, no entanto, quem seria o ente orgânico, Gaff ou Deckard, uma vez que cada máquina recebe uma habilidade específica – construir animais de papel, por exemplo, ou a capacidade de identificar robôs?  A escolha por Deckard seria espontânea e até lógica, talvez, por se tratar de um caçador de androides, um Blade Runner. Não obstante, a afirmação de Ridley Scott, de que a personagem de Harrison Ford seria sim um Replicante, põe em evidencia uma questão chave para a compreensão do filme: o slogan das Corporações Tyrell: “Mais humanos que os humanos”. A aparência cadavérica, robótica, de Gaff, que inclusive comunica-se num idioma incompreensível, facilmente o identificaria com um androide. Em verdade, a exterioridade do policial constitui um artifício, não para dissimular e confundir, mas, ao contrário, para revelar o drama latente da obra de Scott, a saber, a progressiva perda de humanidade dos homens, e a busca desesperada pela vida empreendida pelas máquinas.
E nesse sentido, um aspecto da dominação capitalista, que infligi ao corpo perdas de sua vitalidade orgânica, está no desenvolvimento da robótica de corpos artificiais, superiores ao organismo humano, desgastado pelo tempo. No entanto, os androides do tipo Nexus 6 sofrem também as limitações impostas pelo tempo, porém, de um tempo programado, e quando fogem desse determinismo, devem ser “aposentados”, eufemismo para executados; e aqui outro ponto do imperativo capitalista, quando não há mais vida útil ligada à produção, o esquecimento ou o extermínio são as soluções adotadas pelo cálculo instrumental. Ao falar do corpo, a discussão concernente ao humano e pós-humano surge no horizonte, não elucubrando a montagem de um ser humano com partes mecânicas, mas na relação mundo e cultura, na possibilidade da construção de seres híbridos nos quais componentes culturais estarão vinculados/em simbiose com componentes biológicos. A imagem técnica em “Blade Runner” evidencia uma (des) valorização do trabalho, feitos por seres mais perfeitos que o homem. Lembremos que Ray Kurzweil, o grande cientistas da computação e inventor estadunidense, autor de “The age of intelligent machines” (1990) e “A medicina da imortalidade” (2004), escrito em conjunto com Terry Grossman, vem prevendo nos últimos anos a fusão entre homem e computador. Segundo Kurzweil, num futuro próximo assistiremos à existência pós-biológica do ser humano graças ao transporte de todo conteúdo intelectual para um chip, o que consagraria a sobrevivência tecnológica de nossos feitos mentais.   
Em “Blade Runner”, a seu modo, todos buscam algo: os Replicantes rebeldes querem tempo, mas não o tempo propriamente. Eles aspiram à vida: cheia de realizações e plena de sentidos. Contudo, o tempo de vida que dispõem é o tempo de trabalho, e suas memórias, manipuláveis e manipuladas, na verdade, não são suas, e não são mais que meio para o melhor controle e governo de suas ações, dentro de uma margem pré-determinada desde a fabricação. Para Deckard, a investigação e a necessidade de extermínio dos androides insurrectos, o conduz contraditoriamente para dentro de si, para despertá-lo de sentimentos quase impossíveis para a Los Angeles de 2019: o amor por Rachael, e, por extensão, a preservação de sua existência, pois, ela própria é um autômato. Mas os diversos interesses da elite que dirige o mundo limitam o desenvolvimento da vida. Por isso, a incapacidade de realização dos anseios apaixonados do Blade Runner, bem lembrados por Gaff, “Pena que ela não viverá”.
Nesse universo “scottiano” de “Blade Runner” com máquinas que desejam a vida e de homens que perderam a humanidade, cabe-nos a mesma pergunta do policial: quem viverá?


Thiago Costa é mestre em História e autor (ao lado de Luzo Reis) do curta-metragem de ficção “Boneca de Neuza”.

Wuldson Marcelo Marcelo é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea e graduado em Filosofia (ambos pela UFMT). É revisor de textos e tem um conto publicado na Antologia “Os matadores mais cruéis que conheci” (Multifoco – RJ, 2012). É autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (Editora Multifoco, 2013) e um dos organizadores da coletânea “Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na Cidade Verde” (no prelo, Editora Multifoco).

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