"Tenho pudor da loucura", diz Lygia Fagundes Telles, 90 [PAULO WERNECK]

"Tenho pudor da loucura", diz Lygia Fagundes Telles, 90


PAULO WERNECK
EDITOR DA "ILUSTRÍSSIMA"

Foi na primeira comunhão, ainda muito pequena, que saltou aos olhos algo que a marcaria pela vida inteira: a menina Lygia não era exatamente igual à outras. 
"Os outros anjos tinham as asas de papel crepom. As minhas asas eram de penas de pássaros. Foi o meu primeiro momento de soberba, de superioridade em relação aos outros anjos", brinca. 

Autoironia à parte, Lygia Fagundes Telles, que ontem completou 90 anos, ainda parece levar as tais asas de anjo nas costas. Ainda tem o sorriso de Princesa dos Estudantes, título que conquistou em 1935. Ou melhor, por 15 votos, registrou a "Folha da Manhã", Lygia perdeu o título de Rainha: a escolhida foi sua colega Aurea C. Giraldes. 

"Nunca fui rainha. A mamãe dizia: 'Injustiça! Você era mais bonita que ela...'", ri. 

Debilitada fisicamente por uma perna quebrada, a autora de "Antes do Baile Verde" (1970), "As Meninas" (1973) e outros clássicos da literatura contemporânea continua às voltas com contos de juventude, que reescreve com a ajuda de Regina Vampré, sua secretária, e da neta Lúcia. 

Quando a reportagem chegou para entrevistá-la, elas atacavam uma antiga história em que um homem sai à procura de um tesouro e acaba encontrando a vida. 

"Estou revendo alguns textos meus que ficaram lá atrás", explica. "Isso me faz muito bem. Enquanto eu estiver viva, eu quero..." --ela se interrompe. "A gente precisa correr com pressa porque a coisa tá braba...", conclui. 

Foi essa intenção de consolidação da obra que a levou, há cinco anos, a trocar a editora carioca Rocco pela paulistana Companhia das Letras, que relançou todos os seus livros (e alguns novos). 

Os 13 volumes têm obras de Beatriz Milhazes nas capas e textos críticos especialmente encomendados, além de material de apoio para professores --investimento editorial que, no Brasil, costuma ser dispensado a autores mortos. 

Lygia tomou gosto pela coisa e decidiu, esse dias, retirar a obra de seu marido, o crítico de cinema Paulo Emilio Salles Gomes, da Cosac Naify, que publicou cinco volumes com capa dura, DVDs e outros aparatos. 

Paulo Emílio vai para o lado dela, na Companhia das Letras. A editora ainda não definiu quando sairá a coleção, nem se o organizador Carlos Augusto Calil permanecerá à frente do projeto, como na Cosac. 

O cuidado se explica: Paulo Emílio foi um encontro fundamental na vida da escritora paulistana, filha de uma pianista e de promotor público "riquíssimo" que perdeu tudo no jogo. 

A ruína financeira corroeu também o casamento de seus pais e, ainda menina, Lygia se viu estigmatizada por ser filha de pais separados, obrigada a planejar meios de ganhar a vida. Foi estudar direito no largo São Francisco, onde se formou em 1945, e educação física, ambas numa USP ainda quase exclusivamente masculina. 

A decisão causou controvérsia na família: "Minhas primas diziam para minha mãe: 'Zazita, a sua filha vai ver homens nus na aula de medicina legal. É possível isto?' Minha mãe respondia: 'Ela está estudando'".

"Tinha seis virgens na faculdade de direito, eu era uma delas", conta. "Não tinha banheiro feminino, a gente fazia pipi no banheiro das funcionárias." 

ESTREIA
 
Àquela altura, Lygia já havia estreado com o conto "Vidoca" na revista "A Cigarra" e era apontada como promessa ao lançar, em 1938, seu primeiro livro, "Porão e Sobrado", hoje renegado. 

"Anotem este nome: Lygia Fagundes. Será o de uma grande novelista", vaticinou o crítico da "Folha da Manhã" em 1938, empolgado com a estreia da autora. 

"Lygia Fagundes tem todas as qualidades para ser uma grande contista brasileira, exceto a maturidade", escreveu.

A maturidade viria em 1954, quando lançou "Ciranda de Pedra", que considera o marco zero de sua obra. 

Maturidade literária, mas também amorosa: seis anos depois, repetiu o gesto da mãe e separou-se do marido, seu ex-professor de direito Goffredo Telles Jr., pai do cineasta Goffredo Telles Neto (1954-2006), seu xodó. 

Em pouco tempo estaria com Paulo Emílio, iniciando uma relação amorosa marcada por grande troca intelectual: juntos, eles adaptaram para o cinema "Dom Casmurro", de Machado de Assis, com o título "Capitu". 

Foi aí que ela se libertou de amarras que pareciam segurar as mãos da escritora e desenvolveu os "contos de atmosfera" que projetariam seu nome, lhe dariam prêmios, leitores e edições no exterior. 

"Com o Paulo Emílio, eu peguei uma liberdade absoluta", conta ela, mencionando o apelido com que ele a chamava: "Ele dizia sempre: 'Vai, Cuco, vai em frente. Não segura, vai, vai!'". 

Lygia foi. E, nos anos 1970, lançou livros premiados e de grande repercussão, como "Seminário dos Ratos" (1977) e "Filhos Pródigos" (1978), primeira versão de "A Estrutura da Bolha de Sabão". 

No auge desse grande momento, Paulo Emilio morreu de infarto. Lygia assumiu a presidência da Cinemateca Brasileira, fundada por ele. 

Àquela altura, já estava assegurado seu lugar como grande dama das letras, e ela não recusou honrarias como o fardão da Academia Brasileira de Letras e da Academia Paulista de Letras. 

Popular e consagrada pela crítica, já estava distante de sua quase contemporânea Hilda Hilst, que ainda sofria com a pecha de desbocada, "maldita", "louca". 

"O homem é um ser bastante loucão", diz. "Eu tenho um pouco de pudor da loucura. Mas tenho vontade, às vezes. Agora é tarde, a Inês é morta. Não quero fazer papel miserável." 

"Eu me comporto e tal, sou da ABL, sou da APL", continua. "Mas, na realidade, às vezes eu tenho vontade de fazer tudo ao contrário. Mas me contenho. Não fica bem uma mulher da minha idade extrapolando." 

Será mesmo? Vai, Cuco, vai em frente. Não segura, vai, vai! 

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