Fita amarela [Marcelo Vitorino]

Fita amarela

Estavam todos consternados. Até o dia de sua morte ninguém imaginaria que Agenor pudesse ter uma amante. Diga-se de passagem, uma amante de dar inveja aos colegas de tão exuberante que se apresentou.

O fato é que Agenor era de uma obediência à esposa que beirava a doença. Claro que toda e qualquer pessoa que conhecesse o casal tinha a mesma impressão: naquela casa, se alguém usasse saias não haveria de ser a esposa. Sim, Agenor era um frouxo!

Há um dito popular que diz que um casamento é feito de duas pessoas onde uma está sempre certa e a outra é o marido. Provavelmente quem disse isso devia conhece-los. Não importava o grau da discussão, mesmo estando certo, sua submissão lhe obrigava a discordar de sua razão em apoio a Mariel.

Ao avistar outra mulher ao pé daquele caixão, tão mais bela e jovem do que Mariel, as más línguas não hesitaram em discorrer sobre os motivos que faziam de Agenor o marido mais capacho que a história conheceu.

O tratamento que ele recebia talvez justificasse sua pulada de cerca, Agenor chegava a ser tratado pior até mesmo do que o cachorro de Mariel, um cão da raça Miniature Pinscher que só comia filé cortado em pequenos pedaços, contanto que não estivessem bem passados. Para quem não conhece, um Pinscher é mais ou menos como um Doberman, porém, muito menor e incrivelmente mais chato.

Que homem aguenta ver a mulher servindo o jantar para um cão enquanto o manda preparar a própria comida? Talvez não tenha se separado para viver com sua amante por mera comodidade…

Bobagem! Agenor era apaixonado por Mariel, certa vez ficaram quinze dias separados. Nunca um homem sofrera tanto, parecia que tinham lhe arrancado a alma.

De ouvido em ouvido não se falava de outra coisa, mas enquanto os comentários eram feitos a suposta amante não se conteve e caiu em prantos, daqueles de lavar o caixão. Provavelmente ensoparia o defunto se o mesmo não estivesse protegido pela tampa que se mantinha fechada.

As lágrimas sinceras que a moça despejava agiam como uma afronta a todas as mulheres presentes, que horrorizadas com aquela situação, em sinal de apoio a viúva, começaram a cutucar os maridos para que tomassem alguma providência.

Óbvio que nenhum ousou se mexer, o choro de uma mulher é como uma arma letal contra qualquer homem. Não há brutamontes de caráter que não se dobre diante dessa prática feminina.  Mesmo assim, o constrangimento da família começou a ser notado.

—   O que você quer que eu faça? Que arranque a mulher de lá e a coloque para fora do salão? — Questionou o genro à esposa.

—   Faça qualquer coisa, mas faça rápido, antes que minha mãe tenha um treco!

—   Ora essa… Teu pai é que apronta e agora o vilão há de ser eu? Deixe a mulher chorar em paz, se gostava dele devia ter um bom motivo! É preciso se respeitar as relações!

Devia haver leis que proibissem as mulheres de chorar em discussão, um soluço embargado de uma pequena é como o “zap” do truco, imbatível!

Como nenhum dos homens tomou qualquer tipo de decisão, pouco a pouco os presentes começaram a sair.

A movimentação acabou por chamar a atenção da amante. Ao chegar já tinha ficado incomodada com tanta gente no velório. Ela não fazia a ideia de quem seria qualquer em dos que ali estavam.

Seu companheiro sempre foi muito fechado quando se tratava de sua vida pessoal. Como disse-lhe não ter mais ninguém no mundo, não recebiam visitas em casa e não faziam programas com outros casais, estava perplexa.

Estaria casada há mais de dez anos com um homem que não conhecera de verdade? Como ele pode esconder que conhecia aquelas pessoas? Não poderia ser do trabalho, pois ele era tradutor e trabalhava em casa, apenas recebia pautas e horas depois as entregava.

Antes que se desse conta, mais da metade das pessoas tinha ido embora do velório. Ninguém a cumprimentou.

—   Que gente mais mal educada! — Disse à Mariel.

—   Ora essa, também pudera… Com o seu descaramento, não havia como ser diferente.

—   Descaramento? Onde? Chorar pelo amor que partiu não é senão prova de devoção. Esperava que eu fizesse o quê? — Respondeu enquanto chorava ainda mais.

A expressão de Mariel não podia ser menos amigável, a vergonha que estava passando naquele momento é algo que nunca tinha lhe ocorrido na vida. Por um instante pensou que seria melhor ter morrido antes de Agenor, pelo menos não teria passado por esse constrangimento. Queria ir embora, mas sua curiosidade não lhe deixava em paz e acabou por perguntar:

—   Há quanto tempo vocês estavam juntos?

—   Cerca de 10 anos, mas passaram como se fossem dias. Nunca vi homem tão atencioso e companheiro como ele.

—   É mesmo? Me fale mais. — Disse Mariel, em tom de deboche e com a raiva subindo à cabeça.

—   Tínhamos poucos problemas, o que pesava mais era o fato de ser centralizador. Muitas vezes tomava as decisões sem sequer me consultar…

—   Mas, e na intimidade?

   Olha, não vou te mentir, sentirei falta! Esse foi o melhor homem que já passou pela minha vida. Homem com pegada forte, decidido, coisa que me deixava louca!

Bastou! Antes que começasse qualquer outra frase, Mariel lhe deu as costas e totalmente desnorteada achou melhor sair do velório. Junto com ela, todos os demais também tomaram o mesmo caminho.

Esperou por meia hora, só ela e o caixão. Sem entender nada, deixou o salão em que estava e decidiu perguntar à administração sobre o motivo da demora em prosseguir com o enterro.

—   Boa tarde, estou aguardando há um bom tempo, mas ninguém do serviço apareceu até agora?

—   Desculpe, minha senhora. Qual é o seu nome, por favor?

—   Maria Alice, e estou aguardando o enterro do meu marido, José Rubens de Holanda. Estou na última sala, a 6.

—   Minha senhora, deve estar havendo algum engano, a última sala é a 9 e o enterro da 6 aconteceu há, aproximadamente, uma hora.

Em meio a confusão que se formou, José Rubens e Agenor, que em vida tiveram comportamentos completamente díspares, terminaram do mesmo jeito. Pior ainda para Agenor que, provavelmente, não terá direito a missa de sétimo dia. 


Fita Amarela

Composição de Noel Rosa na voz de Ivan Lins
Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela
Se existe alma, se há outra encarnação
Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão
Não quero flores nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho
Estou contente, consolado por saber
Que as morenas tão formosas a terra um dia vai comer.
Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos mas não paguei a ninguém
Meus inimigos que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim.

Fonte:

Marcelo Vitorino- Trabalho com publicidade desde 1999 e, depois de um tempo, acabei indo naturalmente para o marketing e desde 2007 passei a integrar o pessoal do marketing digital.

 Como produtor de conteúdo na internet estreei escrevendo o Pergunte ao Urso, um projeto que visava entender como funcionava o consumo de conteúdo pelo público feminino. A ideia deu certo, o blog virou dois livros, teve presença em rádio, mídia impressa e até na televisão. Chegou a ter um milhão de acessos mensais.

No final de 2012 decidi que era a hora de virar a página e encerrar o projeto. Publiquei todo o meu aprendizado em um documento que está disponível na internet, portanto, se você quer começar um blog, sugiro que leia.

Acabei me viciando em escrever e interagir com o público. Já que não fui forte o bastante para largar o vício, entendi que o melhor caminho era começar outro projeto.

Sou fruto de uma família muito numerosa e como acabei chegando por último tive uma formação muito diferenciada. Aos 14 anos escutava muita Bossa Nova e MPB, depois passei a escutar Samba, Blues, Jazz e Soul. Fui escutar Rock e outros gêneros musicais bem mais velho.

O fato é que sempre gostei de música. Para mim, todo grande momento da vida tem uma trilha sonora.

Como referências literárias tenho dois modelos: Nelson Rodrigues e Luís Fernando Veríssimo. O primeiro pela ambientação perfeita que há nos seus textos, o segundo pelo diálogo e reflexões de seus personagens. 

2 comentários:

Unknown disse...

Muito obrigado por incluir um texto meu e referenciar meu blog :)

Unknown disse...

Muito obrigado por incluir um texto meu e referenciar meu blog :)