No elevador [Jean Marcel]

No elevador

– Ops, o que foi isso? – ela sussurrou com a voz trêmula, mordendo o canto dos lábios.

– Você também sentiu... Esse tranco?

– Se senti? Olha só... – apontando para baixo – Minhas pernas estão até bambas! 

Como foi ela que pediu, praticamente insistiu, o Jonja olhou mesmo. Contemplou com certo pudor e constrangimento... mas que olhou, olhou! Seu olhar esquadrinhou cada centímetro quadrado daquelas coxas, joelhos e panturrilhas. Em fração de segundos, entre a microssaia e o par de tamancos, nenhum centímetro quadrado escapou da minuciosa auditoria. Avaliou o formato, apreciou o bronzeado e até descobriu uma pinta quase imperceptível, mas que conferia ainda mais charme ao conjunto. Só não reparou se estavam realmente “bambas” como ela disse, até porque não tinha a menor idéia do que isso significava. Para ser franco, achou que estavam bem demais!

– Acho que o elevador parou! – comentou o Jonja, tentando desviar o olhar das pernas “bambas”.

– Ai, meu Deeeeus! – Ela parecia realmente assustada – Parece brincadeira, mas eu morro de medo de elevador!

– Pois então eu tenho uma má notícia... O elevador travou. Estamos trancados aqui!

– É? Não diz isso... Minha mão está gelada. Sente só... – e ofereceu-lhe a mão para um teste de temperatura.

– Uhmm... tá mesmo...

– Ainda bem que você está aqui comigo! Já pensou se eu fico trancada aqui sozinha? Acho que eu morria... Que sorte a minha!

Sorte a dela? Sorte a dele! Será que finalmente Deus se lembrara que ele existia? Ele, o Jonja, alguém que nunca ganhou um sorteio, uma rifa, uma aposta! Nunca achou uma carteira de dinheiro ou uma moeda perdida que fosse. Ele, que nem no par ou ímpar se dava bem... Mas aquilo era melhor que qualquer bilhete premiado! Melhor que qualquer sonho... Chegou mesmo a pensar em se beliscar para ter certeza de que não estava dormindo. Melhor não, raciocinou em tempo, se fosse mesmo um sonho, não queria acordar! O fato é que podia ter ficado preso com o síndico, com o chato do 301 ou até com o xarope do seu cunhado, que não saía da sua casa. Mas não, estava trancado com a Dona Lurdinha, a gostosa do 703. Claro que ele sabia quem ela era, mesmo que nunca tivessem conversado pessoalmente. Quem do prédio não sabia quem era a Lurdinha? Impossível não perceber sua presença. Misterioso era o seu marido, que nunca ninguém viu. Há uma versão de se tratar de alto oficial da marinha mercante, outros afirmam ter ouvido falar que era representante comercial. A única coisa que realmente se sabe com certeza é que ela definitivamente não esperava que ele voltasse das suas frequentes viagens para continuar vivendo. Talvez por isso as mulheres do condomínio não a suportassem. Não, mais que isso: elas a odiavam e nem disfarçavam! E os homens, bem... por prudência fingiam não saber de sua existência. Assim, o Jonja só a via de longe. Observava a distância cada movimento seu. As idas e vindas à padaria, à academia, as saídas noturnas, tudo monitorado. Acompanhava secretamente horários, companhias e até o figurino que usava. Mas o que gostava mesmo era de observar as idas dela à piscina. Monitorava tudo de sua janela, escondido atrás das persianas. Foi dessa forma que acompanhou nesse início de verão o bronzeado se formando lentamente no corpo da vizinha. O mesmo bronzeado que agora acabara de inspecionar de perto. E dizer que tudo o que ele queria era respirar o mesmo ar que ela por alguns instantes. Como podia sonhar com mais que isso? Passou até a frequentar as reuniões de condomínio na esperança de dar uma força ao destino. Inclusive votou na assembléia a favor da reforma do salão de festas só porque ela parecia empolgada com a idéia. Depois, de volta ao seu apartamento, evidentemente teve de se explicar com a esposa, justificando que apesar do aumento da taxa de condomínio, valorizaria o patrimônio. De fato, “aquele patrimônio” não saía da sua cabeça! Pois não é que tudo indicava que ele, o destino, finalmente resolvera recompensá-lo por décadas de esquecimento?! Não só estava agora a poucos centímetros de distância de sua musa, como ainda, se não bastasse, segurava firmemente sua mão.

– Estamos trancados aqui? E agora? O que fazemos? – ela perguntou com uma suspeita ingenuidade.

O Jonja, que ainda aproveitava a oportunidade de segurar sua mão, chegou a olhá-la nos olhos, esperançoso de encontrar algum sinal de duplo sentido na pergunta que lhe foi feita. “O que fazemos?” repetiu mentalmente... Ela está falando sério? Fazemos? Eu e ela? No plural? O que devo responder? Mas não teve tempo de chegar a uma conclusão, pois foi surpreendido por mais um gesto que o fez tremer. 

– Olha como meu coração está acelerado! – ela disse, levando a mão dele ao encontro do seu peito, comprimindo-a junto a si com força para que ele pudesse sentir as batidas daquele coração que não podia estar mais bem localizado. Na verdade, o Jonja é que ficou com receio de que ela ouvisse a disparada do coração dele. Foram segundos que pareceram horas. Ele ali, com a mão espalmada invadindo parcialmente o decote da Dona Lurdinha, enquanto fingia prestar atenção a uma alegada taquicardia. Mil coisas passaram pela sua cabeça. Certamente já tinha ido muito mais longe do que poderia imaginar nos seus melhores devaneios. Infelizmente, porém, sabia que morreria com esse segredo, pois ninguém da turma acreditaria nem de longe no que estava acontecendo. 

Sem tirar a mão, que ainda repousava no “esconderijo”, o Jonja moveu a cabeça para o lado procurando a imagem de ambos refletida no espelho.  Ao se deparar com a cena bizarra que compunham, não pôde deixar de soltar um sorriso de felicidade. Agora foram as pernas dele que ficaram “bambas”!

É difícil dizer com precisão por quanto tempo ficaram ali, juntinhos, congelados, imóveis como uma estátua. Ele “ouvindo” o tum-tum daquele coração. Um observador diria que não se passaram mais que poucos segundos, mas o Jonja, com toda a sinceridade, afirmaria que foram horas. Foi ela quem suplicou uma iniciativa por parte dele:

– Por que você não aperta a campainha?

O Jonja, ainda na mesma posição, corou com a sugestão! Sentiu-se como aqueles cachorros que latem desesperadamente e com toda a valentia para os carros que passam, mas não sabe o que fazer quando algum deles pára diante de si. Era uma daquelas típicas situações em que se separam os homens dos ratos. Ela clamando por uma atitude dele. “tocar a campainha... tocar a campainha!...” Ficou repetindo mentalmente. A verdade é que mesmo assim hesitou...   

– Será? Tem certeza?

– Claro! Por que não? – ela confirmou convicta. Mais tarde, lembrando em detalhes o ocorrido, o Jonja jura que sentiu na sua mão os batimentos dela dispararem. 

– Não te parece uma boa idéia? Experimenta... – Ela ainda disse.

O Jonja buscou internamente uma coragem que nunca teve e, sem mais nenhuma palavra, envolveu por completo o seio esquerdo dela com sua mão. Então, num gesto rápido, calculado, apertou-o duas vezes, fazendo um legítimo “fom-fom”.

Era o paraíso! Olhar fixo no generoso decote, ainda pensou em repetir o gesto, mas em vez disso, levantou lentamente seu rosto em direção ao rosto dela, buscando a reciprocidade no olhar. Para seu espanto, ela estava branca como uma cera. Até tentou falar, mas era tal o susto que preferiu apontar para o painel de botões que se encontrava ao lado da porta. Ali, embaixo dos indicativos dos andares, podia-se ver um botão com a inscrição: “Em caso de emergência... Aperte a campainha!”

Nossa... E agora? O que dizer? Ficaram se olhando em silêncio. Ela boquiaberta e ele tentando em vão encontrar alguma palavra que justificasse seu ato despropositado. As palavras não vinham... E mesmo se as tivesse, não sabe se conseguiria pronunciá-las, tamanho o constrangimento. O Jonja estava justamente tentando articular mentalmente uma desculpa quando ela novamente quebrou o silêncio. Na verdade não falou nada, melhor que isso... respirou fundo, pulou no seu colo e tascou-lhe um beijo molhado! Bom, daí pra frente tudo aconteceu sem que ninguém precisasse incentivar o outro. Estavam suficientemente “motivados”, por assim dizer! O resto não precisa ser relatado. Entregaram-se com uma voracidade adolescente e a urgência de quem fazia algo proibido. Tudo muito rápido e intenso; afinal, a qualquer momento, supunham, alguém poderia abrir a porta e flagrá-los praticando o mais antigo dos divertimentos. Pois não é que assim que terminaram de recolocar suas roupas parcialmente tiradas e arrumar seus penteados desfeitos o socorro realmente chegou? Foi o tempo de estabelecer uma distância adequada entre vizinhos que mal se conhecem e improvisar um sorriso amarelo.

– Oi, pessoal – arriscou o Jonja para o zelador que comandava o “resgate”, que contava ainda com vários outros moradores 

– Foi bom vocês chegarem! – disfarçou a Dona Lurdinha.

– Como souberam que estávamos trancados aqui? – pergunta o Jonja.

– Ôooo, Doutor – mais envergonhado que ele – foi fácil – e apontou para o canto superior do espelho, onde se podia ler:

SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO!

Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

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