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Reflexão sobre os processos de transformação da família [Olga Borges Lustosa]

Reflexão sobre os processos de transformação da família

Em algumas afirmações não cabem contestações. Por si, elas expressam uma realidade pesquisada, comprovada e pronto. Na defensiva, muitos querem colocar seus conceitos em fatos e dados absolutamente consolidados, como é o caso do estudo das diferentes formas de famílias estabelecidas na sociedade contemporânea brasileira, conduzido por Parry Scott, Professor titular de Antropologia na Universidade Federal de Pernambuco.

Ao analisar dados seriamente pesquisados, aprendi que devemos nos ater a eles, frios como estão no papel. Pois bem, há uma mudança substancial na forma como se tem realizado a conjugalidade nas famílias brasileiras: Há menos casais com filhos do que havia certo tempo atrás e esses casais que optaram por ter filhos, tem em média 2,5 filhos por casal; há mais pessoas morando sozinhas; há mais mulheres chefiando famílias e há mais casais formados por pessoas do mesmo sexo.

Há aumento significativo de famílias sem casais, casas chefiadas por mulheres chefes de família, tanto na classe pobre quanto nas camadas mais abastadas; há mais mulheres morando sozinhas do que homens. O número de homens chefes de família, sem esposas é muito insignificante no Brasil. Os homens moram sós quando mais jovens, para experimentarem um período de liberdade e individualidade.

A separação e posterior constituição de uma nova família não encontra nenhuma estigmatização na atual sociedade brasileira. Essas alianças fragmentadas geram arranjos conjugais múltiplos; crianças com dois pais ou duas mães. Embora muitas mulheres, por temerem que uma nova conjugalidade possa causar prejuízo na relação com as filhas, principalmente, tenham decidido manterem-se sozinhas na chefia da família.

Os arranjos conjugais homossexuais são parte de uma inegável realidade, onde os casais, que valorizam a qualidade do relacionamento, buscam ter condições, sem necessidade de acionar aparato judicial, de resolver questões de cidadania, herança e adoção de filhos. As pessoas estão se tornando avós muito jovens e a expectativa de vida tem aumentado, sobretudo para as mulheres, que vivem de 6 a 8 anos mais que os homens. Esses avós redescobrem novas atividades, lançam-se numa nova rotina de vida a sós, ou reconstroem suas vidas, formando novas alianças conjugais.

Segundo Fox, o único agrupamento familiar elementar é o da mãe e seus filhos, porque esse laço é inevitável, é dado. Os demais, fluem, modificam, modernizam-se, são variáveis. Não podemos ignorar as novas configurações na construção da identidade social ao nosso redor. A família, é certo, é o ponto de estabelecimento de alianças entre grupos. A vida social, que é estabelecida na base da troca é um jogo complexo, onde as famílias sem casais estão sendo colocadas a prova, pois mesmo num mundo de alianças quebráveis, a valorização das alianças continua firme.


Olga Borges Lustosa é cerimonialista pública e acadêmica de Ciências Sociais pela UFMT e escreve exclusivamente no blog  do Romilson toda terça-feira 

olga@terra.com.br

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