RUÍDO [Bernardino Guimarães]

RUÍDO

Fala-se pouco de poluição sonora. Será preciso falar alto— para que nos ouçam sobre tão esquecido assunto. Precisa alguém de saber do que se trata, ruído, barulho em excesso, contaminação acústica ou tão simplesmente agressão continuada aos nossos tímpanos? Basta conhecer e frequentar a cidade do Porto. O antigo burgo parece tomado por euforia acústica grave, se percorremos uma das suas ruas mais movimentadas. À semana é pior do que aos fins-de-semana. Os dias úteis são dias de barulho. O cidadão não tem direito ao silêncio, de onde vem toda a concentração, todo o pensamento, toda a música, para contrastar este universo dos sons.

Conhecido todos os perigos e malefícios do ruído em altas doses, para a saúde física e mental dos humanos, diremos que o barulho é um dos sintomas de uma cidade que se desumaniza, que não comunica, que agride e hostiliza os mais fracos e vulneráveis. A brutalidade do dia-a-dia pode também ser medida em decibéis, o ambiente urbano torna-se agreste e duro— quando a cidade deveria ser pátria dos que a habitam ou nela trabalham ou visitam, não um poço de perigos e de disfunções.

Claro que o tráfego automóvel, excessivo ele também e dominante, representa um dos factores mais importantes na geração de ruído. Mas ele há outros factores e bem pesados um pouco por toda a parte. Fenómenos localizados podem agravar o cenário sonoro: casas de diversão nocturna sem os meios necessários de isolamento, publicidade com recurso a meios sonoros, oficinas, enfim, toda uma constelação de pequenos emissores. Não é raro entrar-se num café ou restaurante e ser-se invadido pela sensação desconfortável de agressão aos ouvidos: a TV com volume excessivo, as máquinas debitando decibéis enquanto saem meias de leite ou cafés, até a manipulação de louça demasiado perto dos utentes.

Moídos pelo ruído, nervos em franja, acicatamos anda mais o massacre: é a buzina fora de hora e de lei por tudo e por nada, é a motorizada que atravessa uma avenida e atormenta milhares de pessoas no seu irritante percurso, enfim, o que não falta são exemplos do quotidiano infeliz.

Para tudo isto existe legislação suficiente— falta fazê-la cumprir. Os municípios não podem alhear-se deste drama, tanto mais que as «Cartas de Ruído» devem integrar os Planos Directores Municipais.
Um estudo recente revelou que «os níveis de ruído nas principais avenidas e eixos rodoviários das grandes cidades são «significativamente elevados» e «acima do que seria recomendável», com Lisboa e Porto a encabeçarem a lista negra das cidades mais ruidosas, com resultados «substancialmente perigosos».
Mais: «Os níveis estipulados como aceitáveis nas zonas urbanas em período diurno varia entre os 63 e 65 decibéis, mas Lisboa e Porto registaram valores superiores a 70 decibéis, com a zona dos Aliados, no Porto, a atingir os 76 decibéis».

«Nas principais avenidas e junto aos principais eixos das grandes cidades os valores são significativamente elevados, acima do que seria recomendável do ponto de vista de saúde e acima dos valores regulamentados» diz a Sociedade Portuguesa de Acústica.

Um problema ambiental que urge enfrentar com determinação.
Enquanto isso não acontece, vamos ficando surdos e nevróticos, incapazes de pensar e de viver em plenitude.

Os pássaros das cidades já se tentam adaptar: apurou-se em várias pesquisas que «os pássaros da área urbana dedicam mais tempo a cantar para compensar o ruído ambiente, prestando menos atenção a outras tarefas como a defesa ante possíveis predadores. E cantam muito mais alto do que os seus parentes rurais».
Nem as aves escapam!

Bernardino Guimarães
(Crónica publicada no Jornal de Notícias, 10/5/2011)


BERNARDINO LUÍS DE MOURA MACHADO GUIMARÃES-Escritor, cronista e jornalista independente, dedica-se há vários anos ao jornalismo e divulgação ambiental e de temas científicos. Foi fundador e editor da revista «Tribuna da Natureza» e colaborador regular no diário (já desaparecido) «O Comércio do Porto».

0 comentários: