Bilhetinho de amor para Giuliana Vallone [Xico Sá]

Bilhetinho de amor para Giuliana Vallone


Artigo publicado na Folha de S.Paulo 

Querida, queridíssima Giuliana Vallone, mal acabamos de nos falar, sobre a pauta que eu faria aqui no Rio do “TV Folha”, e a PM, covardemente, te alveja o olho. Falaste: vou às ruas cobrir a passeata. Te desejei boa sorte. Beijo. Fuerza, baby.

Quase disse te amo e outros pronunciamentos que fiquei pensando depois. Sabe como é passional este cronista diante da comoção da existência. Vivo dessa gasolina azul do sentimento.

Depois foi isso que sabemos. Teu rosto tingido de sangue e um bocado de teorias e versões oficiais que não batem. Teu relato é límpido: o homem fardado, sem mais nem menos, te atingiu e pronto. Claro como um parágrafo dos romances policiais de Dashiell Hammet.

Esse cara é a PM, não importa o nome. Digo a PM no plural, digo a PM como tropa, digo a PM como Alckmin, o chefe, pois fica difícil particularizar e punir depois que o governador encorajou seus homens, como em uma preleção de jogo de futebol da Libertadores da América.

Ele avisou que iria jogar duro. Está gravado em todas as mídias. Vide vídeos.
Desde Paris, onde se encontrava, Alckmin diria, qual um anti-Flaubert da ignorância e da treva Opus-Dei:  a PM c´est moi, a PM sou eu, para o bem ou para o mal.

Giu, Ju, como chamo, que merda, que covardia na Augusta. Nem o pior e mais violento dos cafetões desta rua que bem conheço seria capaz de tamanha falta de consideração com uma moça.

Bem sabes que não tenho músculos para enfrentar essa covardia toda, mas bem sabes que faria do meu pobre esqueleto envelhecido um exército em tua defesa.

O luxo de viver é a coragem, Giu.
A covardia, bem, a covardia é típico da tropa cega.
Não sabes como fiquei feliz por teu olho estar a salvo. Teu bonito olho que filma além do “risco da profissão” de não estar ao lado da polícia nessa hora, como diz a guarda alckmista. (…)
Teu olho como história.
Teu olho como narrativa.
O roxo e o risco da tua vista são uma forma de ver de novo o mundo.
 
Um beijo, sempre no olho, do teu repórter-cronista, Xico


Xico Sá é escritor, jornalista e colunista da Folha

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