Geni e o Zepelim [Marcelo Vitorino]

Geni e o Zepelim

— Caio, faz um favor para mim, envia um e-mail urgente para o almoxarife e pede uma caixa de ringtones.

Recém-contratado na empresa, como estagiário do departamento de compras de uma grande multinacional, mesmo sem saber do que se tratava, Caio sentou em frente do seu computador para tentar realizar a tarefa.

Ligou o equipamento e tentou usar o mouse. Em vão. O periférico insistia em não funcionar. Nesse meio tempo seu colega de sala já mostrava certa impaciência.

— Como é que é, ô do estágio? Vai demorar muito? Daqui a pouco eu mesmo faço!

Não era nem nove horas da manhã e o garoto já estava transpirando de tensão. Moveu o mouse para todos os lados, desligou e ligou novamente os cabos e finalmente teve a ideia de virar o mouse para cima.

A primeira de muitas brincadeiras estava feita, bloqueando o sensor ótico do mouse estava uma tirinha com a foto do Sérgio Malandro e um “salcifufú” escrito.

Quando olhou para trás notou que o departamento inteiro, cerca de sessenta pessoas, ria desenfreadamente dos seus momentos de infortúnio.

Em pouco mais de três meses, Caio sofreu com toda a diversidade de sacanagens que seus colegas preparavam: bagunçavam as coisas da mesa dele, sujavam seu monitor e mandavam-no buscar coisas que não existiam como, por exemplo, um envelope redondo para colocar uma circular.

Certa vez o rapaz quase perdeu o emprego por causa de uma peça que lhe pregaram. Ele havia ido ao banheiro e esqueceu-se de desligar seu computador. Os poucos minutos que ficou fora foram suficientes para que os colegas enviassem um e-mail com conteúdo comprometedor, em seu nome, para o supervisor da área. O texto fazia referência à esposa do chefe. O resultado da brincadeira foi ter que passar duas horas explicando o ocorrido.

Em quase toda empresa o estagiário é o último da fila do respeito. Se der, consegue algum, mas não é a prioridade. Caio conheceu muito bem essa lógica maquiavélica que impera no meio corporativo. Não via a hora em que outro estagiário fosse contratado para poder passar o problema adiante.
Mal sabia que a sorte estava prestes a lhe sorrir. Em dada sexta-feira, já na hora de ir embora, Robson, seu colega de baia atende uma ligação. “Deus” queria falar com Caio e pedia sua presença imediatamente. “Deus” era o apelido que os funcionários davam ao presidente, visto que nunca ninguém o via, mas eram sensíveis as suas decisões. O diretor executivo era chamado de Jesus.

— Não tem graça, Robson! Chega de sacanagem, essa semana vocês passaram do limite!

— Não é zoeira, juro! Em dois anos nunca recebi uma ligação da dona Mirtes, secretária de Deus, a coisa deve ser séria.

— Só falta ser por causa daquele e-mail que vocês enviaram para o Ademir… Se for, quero avisar, vocês estão fodidos comigo.

— Falou o Chuck Norris! — debochou Robson. — Agora pare de bobagens e vá ver o que o homem quer.

Caio foi até o banheiro, lavou o rosto, verificou o hálito e até as sobrancelhas penteou. Queria estar impecável, mesmo que estivesse sendo chamado para ser demitido. Chegando ao vigésimo andar, lugar que só os gerentes conheciam, ficou encantado com a decoração. Tudo muito caro, mas com muito bom gosto. Diferente das coisas bregas que via nas salas dos gerentes. 

Aguardou por cerca de uma hora.

Quando estava quase cochilando a dona Mirtes disse que poderia entrar. Deus, aliás, o presidente foi muito direto:

— Rapaz, sente-se. — disse apontando para a cadeira que estava em sua frente — Te chamei aqui porque estou problema.

— Seu Osório, peço que o senhor me desculpe, foram os meus colegas de sala. Nunca tive nada a ver com a mulher do Ademir. — disse Caio, tentando se justificar enquanto pensava em como seria difícil arrumar outro emprego naquela época do ano.

— Garoto, não sei do que está falando. Mas, não me interessa. Te chamei aqui para falar de um problema meu, não sobre um problema seu. O motorista da minha filha sofreu um pequeno acidente e ficará oito semanas fora. Fui informado pelo RH que você acabou de ser contratado e que em seu currículo há uma informação sobre você ter carteira de habilitação.

— Tenho sim, senhor.

— Muito bem. O que vou lhe pedir é muito pessoal, está fora das suas atribuições aqui na empresa, portanto sinta-se livre para declinar o pedido. Peço que não se sinta pressionado. Não preciso que você fique dirigindo todos os dias, apenas quando o meu motorista não conseguir levar minha filha. O que deve acontecer uma ou outra vez. O que me diz?

Obviamente seria impossível não se sentir pressionado. Caio era novo, mas não era besta. Aceitou a proposta. Foi advertido para que o pedido ficasse entre eles e o RH, Deus não queria dar motivo para falatórios. Se ele precisasse sair nas horas de trabalho, não precisaria justificar ao seu supervisor, ele seria avisado que suas faltas seriam abonadas.

Quando voltou para sua baia foi recebido pelos colegas com vários questionamentos, porém, conforme o combinado disse que havia ocorrido um engano. Estavam atrás de outra pessoa.

Na semana seguinte teve sua primeira missão. Parou o serviço as quinze horas e foi, discretamente, pegar Mariana na faculdade de medicina. Mariana, a filha mais nova do presidente, era de uma beleza e carisma impressionante. Não havia homem no mundo que não se encantasse com ela. Caio, por medo de qualquer tipo de problema, sequer a olhava nos olhos.

Ao chegar para trabalhar no dia seguinte seus colegas foram tomar satisfações sobre seu sumiço.

— Ô, estagiário… Que folga, hein… Saindo do “trampo” as três da tarde e, sem dar satisfação. Tá achando que virou gente, é? — perguntou um dos presentes, o mais alto que conseguiu, com a intenção clara de constranger o rapaz.

O supervisor da área ouviu a interpelação e chamou todos os encarregados para uma conversa.

— Pessoal, não sei o que está acontecendo, mas recebi uma “CI” — um comunicado interno — diretamente da dona Mirtes, dizendo que era para abonar qualquer falta ou atraso do Caio.

— E você não perguntou por quê?

— De jeito nenhum! Se tem uma coisa que eu aprendi é que quem abre a boca para reclamar não é promovido, Deus gosta de quem fica quieto e não enche o saco. Nessas horas, sou soldado. Pediu, eu faço. Por via das dúvidas, vamos maneirar nas brincadeiras com ele. Acendeu o sinal amarelo…

A curiosidade da turma já estava no limite quando Alicinha, a patricinha da turma, chegou ao departamento boquiaberta.

— Gente, vocês não sabem quem eu vi com a filha mais nova de Deus! O Caio! Eu vi ele dirigindo o carro dela, entrando em daqueles restaurantes super chiques lá na Vila Olímpia.

Daquele dia em diante a vida de Caio mudou. Para o pessoal do trabalho estava mais do que claro porque ele havia herdado o cartão de isenção junto ao presidente. Ele estava namorando a Mariana, óbvio.

Sem entender nada do que estava acontecendo, Caio estranhou o comportamento dos colegas, não somente as aporrinhações cessaram como diversos mimos passaram a lhe ser dados. Alguém voltava da copa, trazia água gelada para o rapaz. Seus almoços passaram a ser pagos por seus colegas, que se revezavam na função de lhe puxar o saco. Até carona para casa ele passou a ter. Ele passou a ser o máximo, suas piadas que antes eram sem graça agora faziam as pessoas chorar de rir.

O motorista se recuperou em tempo recorde, para o azar de Caio. Foram seis semanas de boa vida, não precisando mais bater o ponto e nem dar satisfação do seu trabalho para ninguém. O lado bom é que o “prestígio” que obteve pelas circunstâncias continuou. Pelo menos por algum tempo.

Cerca de três meses depois, a Alicinha trouxe uma daquelas revistas de fofocas para o departamento. Mariana estava oficializando a sua relação com um ator muito conhecido. Caio, o filho mais querido do presidente, pelo menos na opinião de seus colegas, voltou a ser o Caio, o estagiário mais do que desnecessário.

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Marcelo Vitorino- Trabalho com publicidade desde 1999 e, depois de um tempo, acabei indo naturalmente para o marketing e desde 2007 passei a integrar o pessoal do marketing digital.
Como produtor de conteúdo na internet estreei escrevendo o Pergunte ao Urso, um projeto que visava entender como funcionava o consumo de conteúdo pelo público feminino. A ideia deu certo, o blog virou dois livros, teve presença em rádio, mídia impressa e até na televisão. Chegou a ter um milhão de acessos mensais.
No final de 2012 decidi que era a hora de virar a página e encerrar o projeto. Publiquei todo o meu aprendizado em um documento que está disponível na internet, portanto, se você quer começar um blog, sugiro que leia.
Acabei me viciando em escrever e interagir com o público. Já que não fui forte o bastante para largar o vício, entendi que o melhor caminho era começar outro projeto.
Sou fruto de uma família muito numerosa e como acabei chegando por último tive uma formação muito diferenciada. Aos 14 anos escutava muita Bossa Nova e MPB, depois passei a escutar Samba, Blues, Jazz e Soul. Fui escutar Rock e outros gêneros musicais bem mais velho.
O fato é que sempre gostei de música. Para mim, todo grande momento da vida tem uma trilha sonora.
Como referências literárias tenho dois modelos: Nelson Rodrigues e Luís Fernando Veríssimo. O primeiro pela ambientação perfeita que há nos seus textos, o segundo pelo diálogo e reflexões de seus personagens. 

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