Mulheres são como a água [Stella Florence]

Mulheres são como a água 

por Stella Florence

Trabalhar com a mente requer alguns cuidados: é preciso parar de vez em quando para movimentar o corpo (isso é fácil, afinal, há sempre louça a ser lavada, chão a ser varrido, roupa a ser passada), depois é preciso desviar a cabeça por pelo menos alguns minutos para um tema diferente do que se está trabalhando, caso contrário corre-se o perigo de entrar num estado em que nada mais faz sentido. Dando um exemplo bem superficial, imagine-se falando pantufa, pantufa, pantufa, pantufa, pantufa seguidamente. A partir de um determinado ponto, você não sabe mais que palavra é pantufa, que significado tem pantufa, que raio de coisa é essa pantufa e em breve pantufa poderá ser também pantifa ou Xantipa (e que a esposa de Sócrates nos perdoe). Em suma: trabalhar com a mente exige paradas estratégicas.

Assim entrei eu numa pausa do trabalho. Em vez de ligar a TV, sentei na banqueta amarela da sala e olhei para a rua. Era sábado, uma da manhã, os bares e restaurantes começavam a esvaziar. Então algo insólito chamou minha atenção: bem no meio do cruzamento, um caminhão da SABESP tentava consertar um bueiro borbulhante.

Me senti atraída por aquela água que brotava no meio da rua. Apoiei os cotovelos nos joelhos e fixei a atenção nos instrumentos de ferro que escarafunchavam o bueiro. E quanto mais eles escarafunchavam em busca do foco generoso, mais envolvidos pelo líquido ficavam.

A água me hipnotizou com seu fluir à toa, seu fluir inútil, elegante, farto, para ninguém. Passei um longo tempo observando seu movimento ora furioso, ora alegre: um mutante tentando encontrar alguma forma de existir. Havia algo de cálido, de tocante, de feminino naquela água a escorrer sem razão. Por quê?

Porque nós, mulheres, somos como um bueiro rebelde a borbulhar água cristalina vida afora. Porque espargimos água pura, água boa, água própria para lavar os olhos, para matar a sede, para banhar bebês, para refrescar do calor, para brincar com o esguicho no quintal, para regar as plantas, para cuspir para cima, para molhar os cabelos, para escorrer pelo corpo, para tornar o céu furta-cor.

Então, em algum momento, por algum motivo, chega um caminhão da prefeitura com instrumentos de ferro e nos conserta. Não, você não pode verter. Não, não é inteligente se dar como água de rio. Não, não mostre sua pureza, pois alguém pode te canalizar, esconder sua graça, te enfiar num tubo escuro, te meter numa vala, te misturar com a lama. Não borbulhe à toa, caso contrário será devidamente retida por nossos técnicos.

Assustada, essa água pura que vertia sem medo seca. Ou apenas se acumula em silêncio a espera de dias menos rudes. Eles certamente virão.


Stella Florence nasceu em 1967, é escritora formada em Letras e vive em São Paulo. Tem uma filha, 30 tatuagens e oito livros. É exatamente desse modo, objetivo e charmoso, que a autora de "Hoje Acordei Gorda" e "Ser Menina é Tudo de Bom", entre outros títulos, costuma se apresentar.

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