O desaparecido político mais jovem da Ditadura [Renato Dias]

O desaparecido político mais jovem da Ditadura

A absurda e comovente história de Marcos Antônio Dias Batista, preso pelo regime militar em 1970, aos 15 anos, e a luta de três décadas da mãe, Dona Santa, que morreu em 2006 num acidente automobilístico logo após receber do então ministro da Defesa, José Alencar, a garantia de que iria poder enterrar o corpo do filho; evento em Goiânia pede que Comissão Nacional da Verdade elucide as circunstâncias da prisão ilegal, tortura, morte e desaparecimento do corpo do ex-militante da VAR-Palmares

Por Renato Dias

Um show do cantor e compositor Itamar Correia, terça-feira (11/06), na Escola Municipal Marco Antônio Dias Batista, em Goiânia, lançou a campanha nacional "Onde está Marcos Antônio Dias Batista?" pelo Comitê Estadual pela Memória, Verdade e Justiça.


A ideia é que a Comissão Nacional da Verdade, coordenada pela advogada Rosa Cardoso, elucide as circunstâncias da prisão ilegal, tortura, morte e desaparecimento do corpo do ex-militante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), informa Itamar Correia.

O repertório do espetáculo teve 12 músicas, com entrada franca, em projeto coordenado pelo professor de História da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Marcelo Benfica. Ele também produz atualmente o documentário "Marco", de 50 minutos de duração.

O filme contará a história do líder secundarista que aproximou-se da Ação Popular (AP), participou das manifestações estudantis do ano de 1968, em Goiânia, após a morte de Edson Luís de Lima Souto, dia 28 de março do mesmo ano, e entrou para a luta armada.

Nascido em Sorocaba, interior do Estado de São Paulo, ele veio para Goiânia, no ano de 1960, com a família, em busca de dias melhores, conta a sua irmã Honorina Dias. O seu pai era o caminhoneiro Waldomiro Dias Baptista. A sua mãe, Maria de Campos Baptista, que anos depois se graduaria em Serviço Social (PUC).

Marcos Antônio Dias Batista estudou no Atheneu Dom Bosco e depois no Lyceu de Goiânia, registra a médica Antônia Elizabeth Dias, sua irmã. No tradicional colégio da Capital, entrou em contato com as ideias marxistas. Logo, logo virou Marcos Chinês, por andar com o livro vermelho de Mao-Tsé-Tung.

O dirigente estudantil integrou a delegação de Goiás que compareceu ao Congresso Nacional da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, a UBES, em dezembro de 1968, destaca Itamar Correia, ex—líder estudantil. Lá ficou sabendo da decretação do Ato Institucional Nº 5, de 13 de dezembro.

O militante ingressou meses depois na VAR-Palmares, revela o músico. A mesma organização de seus companheiros Alan Kardeck Pimentel, Olga Darck Pimentel, João Arnolfo, Jackson Pires e de seu irmão Waldomiro Batista, o Mirinho, mais velho.

Não custa lembrar: a VAR-Palmares protagonizou a ação mais espetacular da guerrilha urbana antes da captura de Charles Burke Elbrick: o assalto ao cofre do ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, já morto, em 1969, que estava em uma mansão no Rio de Janeiro, sob a guarda de sua amante Ana Capriglione.

A organização fazia uma crítica do socialismo real (URSS, Leste europeu e sudeste asiático), adotava a estratégia de luta armada contra a ditadura civil e militar (1964-1985) e era formada por nomes com Carlos Lamarca, Juarez Guimarães de Brito, Dilma Rousseff, além de Carlos Franklin da Paixão Araújo.

Marcos Chinês fez ações ousadas, como a explosão do carro do homem forte da repressão em Goiás, Marcus Fleury, chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), diretor regional da Polícia Federal, superintendente do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Ano: 1969. Com o então estudante Erotides Borges.

Marcos Antônio Dias teria sido preso pela equipe do capitão Marcus Fleury, em maio de 1970, segundo informou, em 1980, o médico Laerte Chediack, irmão do delegado de Polícia Ibrahim Chediack, à Maria de Campos Baptista. Nunca mais foi visto. Ele foi procurado por dez anos em presídios e até no exterior.

Itamar Correia lançou, em 1980, o livro Araguaia Meu Brasil para homenageá-lo. Mais: dedicou ao estudante o compact disc chamado Desaparecido. Ele lançou ainda um LP – à época do vinil – às vítimas da ditadura civil e militar (1964-1985) no País. Depois, percorreu, com o Pixinguinha, o Brasil com o seu show.

Em nome do Filho

Durante 36 anos, a assistente social aposentada Maria de Campos Baptista procurou o seu filho Marcos Antônio Dias Batista, que havia desaparecido em maio de 1970, em plena ditadura civil e militar. Na ânsia de encontrar os seus restos mortais, marcou audiência, em Brasília, com o vice-presidente da República e ministro da Defesa, José Alencar. A União prometeu empenho para elucidar o caso. Na volta a Goiânia, em 15 de fevereiro de 2006, morreu em acidente de carro.

O carro em que Dona Santa – como era chamada – estava, um Palio, placa NFV 8689, conduzido por Silvino Dias Batista, seu filho, bateu em um Vectra, placa BTB 9900, dirigido por Ivo Beltrão, que havia invadido a pista. Na batida, Silvino Dias Batista cortou o rosto e feriu a perna. A odontóloga Honorina Dias Batista sofreu graves ferimentos e quebrou o pé esquerdo. Yanko Batista, neto, teve escoriações leves.

O acidente ocorreu em 15 de fevereiro, 17h. O corpo acabou sendo liberado pelo IML (DF) às 12h do dia 16 e chegou no Cemitério Jardim das Palmeiras, em Goiânia, para o velório, às 17h15. O enterro foi realizado às 22h do mesmo dia. O vice-presidente da República, José Alencar, veio à Capital do Estado dar o último adeus a Dona Santa. Marconi Perillo comparou a sua luta à de Zuzu Angel, morta em 1976, em acidente de carro, no Rio de Janeiro.

"Goiânia chora a morte de um símbolo da luta pela democracia e em defesa dos direitos humanos", afirmou, emocionado, o então prefeito de Goiânia, Iris Rezende. O vice-governador do Estado, Alcides Rodrigues, também compareceu ao velório. O senador Maguito Vilela lembrou de crimes cometidos pelo regime militar (1964-1985) que não foram passados a limpo. Presidente da Câmara Municipal à época, Cláudio Meirelles prestou suas últimas homenagens a Dona Santa.

"É preciso esclarecer as circunstâncias da morte de Marcos Antônio Batista", disse o deputado federal e então presidente do PT, Rubens Otoni. Em carta enviada à família, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, prometeu esclarecer o desaparecimento de Marcos Antônio Dias Batista. Em 2006, o ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, lamentou a morte e informou que o governo federal irá apurar o desaparecimento.

Histórias de tragédias

Nascida no dia de Natal de 1927 (25 de dezembro), Maria de Campos Baptista, filha de Antônio Benedito de Campos e de Antônia Botelho de Campos, ganhou o apelido de Santa. Uma premonição, diz o odontólogo Carlos Eduardo de Campos, seu irmão Na infância, brincou pouco. Logo começou a lecionar. Quem revelou foi Noêmia Previtalli, irmã. Santa mudou-se para São Paulo e casou-se com Waldomiro Dias Baptista. Em 1952, a primeira tragédia: a sua mãe morreu de câncer. O enterro ocorreu no dia 16 de fevereiro, recorda-se Lizete de Campos.
Os filhos vieram. Primeiro, Waldomiro Batista, mais conhecido como Mirinho, atual presidente do Tortura Nunca Mais, secção de Goiás. Depois, Silvino Dias Batista, engenheiro, que conduzia o Palio, placa NFV 8689, na hora do acidente nas Sete Curvas, em Brasília. O terceiro, Marcos Antônio Dias Batista, que aos 13 anos já sonhava com a revolução socialista. Estudante do Atheneu Dom Bosco, Lyceu de Goiânia e Professor Ferreira, integrou a Frente Revolucionária Estudantil e a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR – Palmares) e sumiu em 1970.

Anos de chumbo da ditadura civil e militar. Aí começou a luta de Dona Maria. Para entender a luta do filho, fez supletivo para concluir o segundo grau, ingressou na Universidade, obteve o diploma na Universidade Católica de Goiás em Serviço Social, depois dos 50 anos de idade, e ainda concluiu Saúde Pública. Waldomiro Baptista, seu marido, morreu atropelado na T-63, em 15 de outubro de 1992. Um acidente interrompeu a sua guerra para recuperar os restos mortais do filho. "Morreu para reencontrá-lo", disse o ex-deputado estadual Lafaiete de Campos, irmão. Honorina Dias Batista, odontóloga; Antônia Elizabeth Dias, médica; Martha Batista, psicóloga; Ricardo Dias, ex-procurador-geral do Município; também são filhos de Maria de Campos Baptista.

O que foi a ditadura civil e militar

Em 31 de março de 1964: fardados e civis derrubam o presidente João Goulart e implantaram uma ditadura. À sombra da guerra fria, a estratégia era desagregar o bloco-histórico populista e levar os interesses multinacionais e associados à direção do Estado.

As tropas de Mourão Filho desceram a serra sem um só tiro ou protesto. Jango teria voado com o general Assis Brasil para a Fazenda Rancho Grande, em São Borja. Depois, com Maria Thereza e seus filhos, tomou um C-47 e aterrissou para o exílio: Uruguai.

O primeiro general-presidente a entrar em cena foi Castello Branco. Ele queria um ato institucional que durasse apenas três meses. "Assinou três". Queria que as cassações se limitassem a uma ou duas dezenas: cassou quinhentas pessoas e demitiu 2 mil.

O seu governo durou 32 meses,23 dos quais sob a vigência de 37 atos complementares. O general Castello Branco foi o cérebro do golpe de 1964. Ele era o líder da Sorbonne militar, composta, por exemplo, de Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva.

Para o brasilianista Thomas Skidmore, o movimento civil e militar de 1964 ocorreu com dez anos de atraso e nunca atingiu o seu objetivo: desmantelar a estrutura estatal e sindical corporativista montada por Getúlio Vargas.

"O golpe ia ser dado em 1954, mas falhou por causa do suicídio de Vargas". Não foi uma quartelada, mas uma ação de classe traçada tática e estrategicamente pelas elites orgânicas do capital transnacional, analisa René Armand Dreiffus.

Em A Conquista do Estado (1982), Editora Vozes, o cientista político uruguaio René Armand Dreiffus afirma que Ipes, Ibad e ESG consideravam o Estado como instrumento de um novo arranjo político e de um "novo modelo de acumulação".

História: as articulações contra João Goulart começaram antes de sua posse. Mais: se intensificaram a partir do plebiscito que decretou a volta do presidencialismo, em janeiro de 1963, e tomaram as ruas após o anúncio das reformas de base.

Sucessor de Castello Branco, Costa e Silva decreta o Ato Institucional nº5 em 13 de dezembro de 68.Vice, Pedro Aleixo foi impedido de assumir o Palácio do Planalto. Depois de um breve exercício da Junta Militar, Garrastazu Médici chegou ao poder.

Em 1977, Ernesto Geisel, que havia executado a partir de 1974 a distensão lenta, gradual e segura, baixa o Pacote de Abril. João Figueiredo é abençoado pela caserna no ano de 1978 e o Congresso Nacional aprova a Lei da Anistia, em 1979.

Os exilados retornaram ao Brasil e os presos políticos deixam os cárceres. A ditadura acabou em 15 de março de 1985. Já Daniel Aarão Reis diz que a ditadura acaba, de fato, em 1979. Para ele, de 1979 a 1988 há, no Brasil, um período de transição.

A democracia no Brasil, depois de 21 anos de ditadura civil e militar (1964-1985), só se consolida com a remoção do legado constitucional autoritário e a promulgação da Constituição de 5 de outubro de 1988, sob a Nova República.

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