Resenha: Todos os Nomes (José Saramago) [Luiz Marcatto]

Resenha: Todos os Nomes [José Saramago]


Há exatos 3 anos, morria meu escritor favorito. Em 18 de junho de 2010 eu estava em uma aula na faculdade quando uma colega me questionou se eu estava triste. Perguntei o porquê daquilo, e ela me contou que Saramago havia morrido naquela manhã. Na minha cabeça, José Saramago sempre foi como meu amigo silencioso. Com os livros dele aprendi mais que durante todo meu ensino médio, e confesso que morria de vontade de conhecê-lo e trocar algumas palavras. 

Todos os Nomes foi um dos primeiros livros dele com que tive contato. Tinha lido As Intermitências da Morte (que na época era seu último lançamento) e fiquei tão enlouquecidamente encantado com aqueles parágrafos extensos sem pontos de exclamação que comprei Todos os Nomes como presente de Natal para um amigo. Como bom colega, ele me emprestou o livro para ler logo em seguida.
Isso foi em 2006 – ou seja, há sete anos. Depois de todo esse tempo, o que ficara na minha cabeça era como uma sinopse breve. Em 2013 reli Todos os Nomes, e foi como se estivesse lendo um outro livro completamente diferente. Saramago concordaria comigo quando digo que a nossa leitura das coisas muda quando a gente muda. Em 2006 eu tinha 17 anos e cursava o terceiro ano do colegial. Hoje tenho 24, um diploma de ensino superior e caminho para o segundo. Mais do que isso, eu passei por diversas mudanças (como é natural de toda e qualquer pessoa) – e sei que, quando eu ler esse mesmo livro aos 30, 40 ou 50 anos, o que vou enxergar também será diferente.






Todos os Nomes é a fantástica aventura particular de um homem entediado. José é um homem mais velho (apesar da idade não ser citada, suas atitudes dão a entender que ele tem por volta de 40-50 anos) que dedicou toda sua vida ao trabalho na Conservatória Geral do Registro Civil. O prédio da Conservatória tem uma estrutura particular: a construção principal fica ao centro e, ao seu redor, existem as casas onde há tempos moravam os trabalhadores. Cada casa possuía uma porta que se abria diretamente para o pátio da Conservatória, para que os trabalhadores pudessem se levantar e ir diretamente para o serviço. Com os anos, as casas foram desmanchadas, e somente o Sr. José permaneceu ali. Sem família e sem quem mais lhe acolhesse, foi permitido a ele que habitasse a residência da Conservatória, desde que não usasse mais a chave que dava acesso direto ao interior do prédio.


Como forma de preencher seu tempo ocioso, José cria uma coleção de recortes sobre personalidades famosas: artistas de cinema, esportistas, cantores. Determinado dia, José decide completar os dados de sua coleção com as informações das fichas da Conservatória. Quebrando as regras que jurara seguir, entra no prédio no meio da noite e busca os papéis para copiar seus dados. É em uma dessas aventuras noturnas que vemos o grande acontecimento de Todos os Nomes. A ficha de uma mulher desconhecida vem grudada à de um dos famosos. José teria todos os motivos para ignorá-la – afinal, ela não é nenhuma celebridade -, mas ele não consegue tirar da cabeça a ideia que precisa encontrá-la. Assim, José parte em sua própria jornada hercúlea na tentativa de descobrir quem é aquela mulher por quem se apaixonara sem mesmo conhecer.


O que mais me deixa boquiaberto com os livros do Saramago é sua capacidade de transformar pequenos questionamentos e situações cotidianas em narrativas intensas. Saramago enxerga o extraordinário dentro do simples. Nas palavras que escreve, o casual se torna fagulha de uma grande explosão emocional. É impossível ler as páginas de Todos os Nomes sem enxergar ali um caminho de descoberta e aventuras digno das histórias mais fantásticas da literatura. Os dragões que José enfrenta são seus medos do dia-a-dia, como as situações em que mente ao chefe para poder sair à procura de sua mulher desconhecida e fingir ser outra pessoa para encontrar respostas.


É engraçado notar como os personagens de Saramago raramente têm nome, e quando têm são nomes tão simples como o Sr. José. Um nome genérico para aventuras genéricas. Um José sem sobrenomes, que pode ser alguém por quem você passa na rua ao caminho do trabalho ou o próprio José Saramago. O Sr. José pode ser aquele que indaga “E agora, José?” com a mesma naturalidade de Carlos Drummond, que busca respostas para as pedras no caminho mesmo sabendo que elas não existirão como ele deseja. Os nomes têm significado especial nesse romance: a maior parte da história se passa na Conservatória, onde encontram-se todos os nomes daqueles que nasceram e dos que já morreram. São os nomes – e a busca deles – que guiam toda a narrativa.


Alem dos nomes dos personagens (José é o único da trama nomeado), outros elementos tradicionais do escritor estão presentes: o cachorro, a mulher forte, o personagem que se perde (metaforicamente ou não) e o cotidiano. Há também, é claro, o fluxo de consciência que se tornou marca registrada de Saramago. O Sr. José mantêm conversas com o teto de sua casa com a mesma naturalidade que teria com amigos em uma mesa de bar (se os tivesse).





A parte que mais gosto de Todos os Nomes é, sem dúvidas, a epígrafe: Conheces o nome que te deram, não o nome que tens. E José coloca a frase a prova ao longo do livro. Vemos um homem de nome comum conformado às suas ações cotidianas se transformar em algo completamente excepcional, em alguém que embarca numa aventura sem certeza de sucesso e se torna alguma pessoa diferente – alguém que ele sempre foi, mas nunca conseguiu externalizar. Alguém além de um simples “José”, alguém que faz a diferença.


Tendo lido vários títulos do Saramago, digo sem dúvidas que esse é um dos livros onde sua escrita é mais consciente. Todos os Nomes é tão bom quanto Ensaio Sobre a Cegueira e A Caverna. Para quem nunca leu nada do gajo, esse pode ser um bom lugar por onde começar. A escrita contínua sem pontos de exclamação ou hífens nas falas pode te assustar no começo, mas não desista. Com poucas páginas, o fluxo fica dinâmico, e você passa a achar tão fácil quanto qualquer outro texto.



   TODOS OS NOMES


Autor: José Saramago

1998, 280 páginas, Cia das Letras

Onde comprar?
- Saraiva
- Siciliano
- Livraria Cultura
- Livraria da Folha
- Estante Virtual (novos e usados)

   

   





Saiba mais



- Em tempos de Revolta do Vinagre, Saramago é uma ótima sugestão de leitura. O livro que lhe garantiu o Nobel de Literatura, Ensaio Sobre a Cegueira, é uma análise sobre a cegueira que acomete o mundo atualmente: cegueira de princípios, de liberdade, de valores. O livro conta sobre uma praga que acomete toda a população: uma cegueira branca e generalizada. No meio desse caos, apenas uma pessoa continua enxergando.



- Juntos, Todos os Nomes, Ensaio Sobre a Cegueira e A Caverna, formam o que foi nomeado pela mídia como a Trilogia Involuntária de Saramago. Os livros não têm personagens em comum como nas trilogias tradicionais. O que os liga e faz com que sejam vistos em conjunto é a temática. Todos falam sobre a fragilidade do ser humano, as manipulações a que estamos submetidos e a necessidade de sair da situação em que nos encontramos.

Fonte:




1 comentários:

Numa de Letra disse...

Muito bom.

http://numadeletra.com/todos-os-nomes-de-jose-saramago-52624