Uma pequena "conversa" com Paulo Levy [Isabela Lapa e Kellen Pavão]

Uma pequena "conversa" com Paulo Levy

Paulo Levy, escritor dos livros Réquiem para um assassino e Morte na Flip, grandes sucessos do mercado de livros policiais, exerceu diversas funções antes de publicar o seu primeiro livro: foi profissional de squash, redator publicitário, dono de agência, proprietário de bar etc. 

Em 2011 se lançou como escritor e os livros nos apresentaram o Delegado Joaquim Dornelas e histórias repletas de mistério, suspense e criatividade. Tamanho o sucesso das obras que ele foi convidado para participar do Salão de Genebra neste ano e já está trabalhando no seu próximo livro, com previsão de lançamento em 2014. 

Gostamos muito do trabalho do Paulo e, por tal razão, surgiu o interesse de conhecer um pouco mais sobre ele e saber o que ele pensa sobre livros, mercado nacional, e quais os seus projetos futuros. Como o encontro não foi possível, enviamos algumas perguntar ao seu e-mail e ele, sempre gentil e educado, nos enviou as suas opiniões.

Esperamos que gostem de conhecer um pouco mais esse escritor e que aproveitem para ler os seus livros. Quem quiser, pode ler acerca das suas obras clicando aqui



1) Você já exerceu inúmeras profissões antes de se tornar escritor. Como surgiu a vontade de escrever?

Vontade eu sempre tive, uma vez que fui redator publicitário por mais de 15 anos e sentia falta de liberdade do formato limitado que a publicidade impunha. No entanto, faltava o assunto e a experiência para se escrever um livro. Tudo aconteceu numa viagem de férias que fiz a Paraty em 2010. Diante da Igreja de Santa Rita, caminhando sobre a mureta, a beiramar, tive uma epifania: vi nitidamente a cena do crime de Réquiem para um assassino. Na minha cabeça a coisa passou como um filme. Dali a começa a escrever foram cerca de 2 meses, entre refletir sobre o empreendimento e a pesquisa inicial.

2) Algum autor o motivou a se tornar escritor? Qual?

Ernest Hemingway, pela prosa seca e direta, e Paul Theroux, pelos relatos de viagem.

3) "Morte na Flip" é um grande sucesso protagonizado por Joaquim Dornelas, um delegado que se assemelha ao famoso Sherlock Holmes. A que você atribui este sucesso?

A uma prosa direta, sem firulas, uma linguagem acessível – recurso que aprendi na propaganda -, uma trama intrincada com tempero brasileiro e bons personagens. Livro algum se sustenta sem bons personagens.

5) O Delegado Joaquim Dornelas tem uma personalidade muito peculiar, descrita em muitos detalhes. Ele é inspirado em alguém com quem convive?

Em ninguém em particular e em muita gente ao mesmo tempo. Mas enquanto estou escrevendo, visto a roupa do Dornelas e encarno o papel. Tem muito de mim mesmo na personalidade do Dornelas. É difícil para um escritor não se mostrar no personagem principal.

6) Seus livros falam do trabalho da polícia, da investigação dos crimes e da burocracia do sistema. Foi realizada alguma pesquisa antes de escrevê-los? Você contou com o apoio de alguém da área?

Sem o apoio inicial da Polícia Civil e do Corpo de Bombeiros de Paraty eu jamais teria encarado o desafio. Dado o pontapé, conversei com policiais civis, advogados, papiloscopistas e legistas. Embora seja uma ficção, os procedimentos policias são os mesmos usados no mundo real. Sem essa âncora, a história fica solta, inverossímil.

4) Você pretende escrever outros livros policiais? Podemos aguardar os lançamentos para quando?

Estou escrevendo o terceiro livro do Dornelas. Já escrevi 10 capítulos. Não sei se vou conseguir terminar para lançar ainda este ano. Tenho tido pouco tempo disponível. Mas de março de 2014 não passa.

5) Estamos sabendo que os seus livros serão adaptados para o cinema. Como foi receber o convite? Como está o projeto? Existe alguma previsão para estreia?

Não houve um convite formal. Eu é que fui atrás. Adoro cinema e procurei dar uma linguagem cinematográfica aos livros por causa disso. O projeto está andando, mas como cinema no Brasil toma tempo, estamos indo um passo de cada vez.

6) Neste ano você foi convidado para a Salão do Livro em Genebra. Qual a sensação de ver o trabalho reconhecido internacionalmente? O que a participação neste evento contribuiu para a sua carreira como escritor?

É uma grande alegria sentar do lado de lá do balcão depois de muitos anos com leitor e frequentador de eventos de livros. A alegria do contato com os leitores é enorme, a troca de ideias é muito estimulante. E ver como o Dornelas foi bem recebido pelo público é muito gratificante. A participação no evento não apenas ajudou a divulgar o meu nome no exterior como contribuiu para fortalecer meu nome por aqui. Só tenho a agradecer pelo convite. Que venham outros.

7) Na sua opinião, qual o grande escritor da atualidade? E qual o maior clássico da literatura?

Dizer qual é o grande escritor da atualidade é o mesmo que dizer de que filho você ama mais. A escolha é sempre muito pessoal. Paul Theroux para mim é um grande escritor, pois tem uma prosa direta e nos faz conhecer o mundo. Para mim um escritor tem que ser alguém que saia da cadeira e vá conhecer as coisas, perguntar, viver, pesquisar para escrever. É um fornecedor do mundo lá fora para aqueles de nós que estamos presos na rotina diária.


8) O que você recomenda aos jovens que pretendem escrever? 

Leia muito, especialmente os clássicos. Preste atenção nas construções das frases, no modo como o autor leva a história, constrói os personagens, dá forma às palavras, à história. Machado de Assis é uma escola em si.


9) Muitos leitores questionam os preços e o difícil acesso aos livros no Brasil. Qual a sua opinião a respeito?

Comparado com o resto do mundo, os livros no Brasil estão até mais baratos. Mas tendo comparação com mercados maiores e mais maduros, como o americano, onde são disponibilizados diversos formatos de uma mesma obra, capa dura, brochura, paperback e digital, os livros brasileiros ficam mais limitados de chegar a seu público. Mesmo assim, o maior obstáculo para um livro chegar ao leitor no Brasil ainda é o aspecto cultural, de não se valorizar adequadamente o prazer da leitura.

10) Os ebooks surgiram trazendo um novo conceito de leitura, e ao que tudo indica vieram pra ficar. Como você vê essa tendência? É adepto? Na sua opinião, essa tendência é bem vista pelo mercado editorial? 

Leio pouco em formato digital. Uso apenas para ler textos curtos ou livros que não existem em português e que posso comprar em inglês. A tendência é bem vista pois trata-se de mais um suporte para fazer o livro chegar ao leitor. No entanto, não acredito que a leitura digital no Brasil vá pegar com tanta velocidade como pegou nos Estados Unidos. As culturas são muito diferentes.

11) Apesar de termos uma riquíssima literatura nacional, observamos que os blogs e sites literários em geral, priorizam resenhas e matérias sobre livros e escritores estrangeiros. A que você atribui esta procura por tais escritores? O que você acha que falta na literatura nacional? Na sua opinião, qual seria a forma de melhorar a visão que as pessoas tem da nossa literatura?

É um pouco como o efeito da bolacha da Tostines: é mais gostosa por ser crocante ou é crocante por ser mais gostosa. Na minha visão e experiência, o maior obstáculo é o preconceito do leitor brasileiro em razão não apenas da avassaladora presença dos autores estrangeiros nas livrarias como a exiguidade de autores nacionais produzindo bons livros. No entanto, acho que o Brasil nunca valorizou tanto o que se faz aqui. Acho que isso deve aumentar. O mundo inteiro está de olho no que se faz aqui, em todos os campos. Por que razão nós não estamos? Seria o complexo de “vira-lata” que Nelson Rodrigues delineou da alma brasileira? Pode ser.


Isabela Lapa e Kellen Pavão – Administradoras do blog Universo dos Leitores, que fala de livros e de tudo que estiver relacionado a estes pequenos pedaços de papel que nos transferem do mundo real para o universo dos sonhos, das palavras e da felicidade!

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