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A tirania dos livreiros [Romulo Nétto]

A tirania dos livreiros

Há muita porcaria comercial enfiada goela abaixo dos leitores

Como o dito popular “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura” continuo insistindo no tema sobre a prepotência das editoras do Sul Maravilha que não acreditam na remota possibilidade de Estados como Mato Grosso, Piauí, Acre, Rondônia, Maranhão, Tocantins e tantos outros denominados periféricos tenham bons autores.

Exemplo do vergonhoso preconceito foi o caso da Feira Literária de Paraty, ocasião em que um ou dois “gatos pingados” que não estão inseridos no famoso eixo foram convidados a participar de tão importante evento.

Infelizmente sou obrigado a aceitar o fato de que autores importantes de nossa literatura só conseguiram vencer após mudarem para o Rio ou São Paulo. Citemos apenas para exemplo alguns deles: Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Ariano Suassuna, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Milton Hatoum, João Ubaldo Ribeiro.

Se não conviver com a “elite literária” desses dois grandes centros ninguém jamais conseguirá furar o bloqueio que as editoras impõem aos escritores dos Estados mais distantes. 

Ouso dizer que carregamos junto com nossas obras a doença mais contagiosa que o mundo jamais conheceu e ela se espalha, pegajosa, fedorenta, contaminando com nossa “mediocridade literária” os gênios do Sul Maravilha. 

Quanta porcaria comercial as grandes editoras andam enfiando goela abaixo de leitores que não sabem distinguir o que seja uma boa obra. Best-seller não é e nunca foi sinônimo de literatura de qualidade. 

Mesmo que não venda milhões de exemplares, Vidas Secas é um best-seller que agora em 2013 chega a sua 120ª edição, pela Record. Cada dia mais atual e mais lindo, não o lixo que o cartel editorial importa e alardeia como o grande título do ano. Convenhamos que é preciso dar um basta na asquerosa política das grandes editoras do malfadado Sul Maravilha.

Continuarei fiel à editora que me publica há anos. As edições são primorosas, nada devem ao que vejo publicado pelas similares do grande eixo do mal.

Meus editores são generosos comigo e com todos os que estão em seu catálogo. Somos tratados como gente, não como mero número. Lá sou escutado e escuto. Leio textos ainda inéditos, critico, pondero, aponto e aceito sugestões.

Não sinto a menor necessidade de ser publicado por uma grande editora. Lá serei apenas um a mais. Lá as portas só se abrirão se tiver um Q.I. Não sairei mendigando a qualquer autor para que me indique para a editora a, b ou c. Eu me lixo para a fome degenerada de vender e vender, sem atentar à qualidade de quem é publicado. Recuso a ser misturado ao lixo literário.

Não me prostitui ao ponto de me vender para essas editoras apenas para ser citado por revistas e críticos literários. Para ser entrevistado por analfabetos repórteres que são, em sua grande maioria, incapazes de interpretar o que o autor quis dizer em sua obra.

Lamento essa miopia. Lamento mais ainda a miopia dos livreiros que se recusam a colocar em suas estantes autores de editoras dos estados periféricos. E tenho razão para afirmar isso. 

Há uma semana minha mulher e minha filha procuraram em uma Livraria Nobel, em São Paulo, um dos meus livros, apenas por curiosidade. A resposta que ouviram demonstrou claramente a falta de sensibilidade e conhecimento do que é literatura por parte desses gananciosos livreiros; a política da empresa é não trabalhar com editoras pequenas.

Fiquem com o lixo cultural que estão acostumados a vender!

Romulo Nétto, mineiro radicado em Cuiabá há 35 anos. Graduado em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade de Brasília,  veio para o Estado em 1971 para trabalhar como jornalista na Universidade Federal de Mato Grosso. Desde então nunca mais saiu, só quando se aposentou, aos 47 anos, e passou um período no Nordeste. Escritor, muito mais que jornalista, ele é daqueles sujeitos que não esquecem de onde vieram.http://romulo-netto.blogspot.com

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