Conexão Marilyn Monroe: para assistir, rir e pensar [Carla Dias]

Conexão Marilyn Monroe: para assistir, rir e pensar

A MINHA CONEXÃO COM O ESPETÁCULO

Por Carla Dias

Acredito que a comédia é uma ferramenta poderosa para uma crítica social, política, comportamental, enfim, uma boa crítica. Quem consegue arrancar gargalhadas do outro sem tirar do enredo o significado e a importância do que é abordado, certamente merece que lhe tirem o chapéu. E digo isso como quem morre de inveja de quem consegue fazer isso. Meus personagens mais cômicos parecem nascidos do humor negro emburrado. 

Infelizmente, não são todos os que se apossam da comédia que sabem fazê-la funcionar decentemente. E infelizmente – parte II, muitos se acham mestres da comédia, alimentando mais o ego do que a própria arte. Para os espectadores, resta o bom senso de escolher uma obra que não lhes trate como idiotas. Porque apesar de nos fazer rir como doidos, quando sob a batuta de um bom criador, ela pode nos tornar mais sábios a respeito de temas que, em conversas cotidianas, jamais poderíamos abordar com a crueza que a comédia permite.

Antes de me atrever a escrever sobre o espetáculo, assisti o Conexão Marilyn Monroe duas vezes, finais de semana seguidos, o que foi a melhor coisa que poderia ter feito. Eu sempre escrevo sobre o que gosto, e adorei o espetáculo quando o assisti pela primeira vez, na semana da sua estreia. Porém, assim como não tenho mão para escrever comédias, fiquei com receio de não saber me expressar decentemente sobre o espetáculo, e não queria deixar por menos. E o mais bacana foi perceber como, de um sábado para o outro, o espetáculo evoluiu. Se na primeira vez que assisti o Conexão... gargalhei muito, e fiquei impressionada com o texto e com os atores, a segunda vez me levou a concluir que o espetáculo precisa ser assistido por muitos, principalmente nesse momento em que se encontra o Brasil – e os seus brasileiros. Nós.

O ESPETÁCULO



Foto © João Caldas Filho

Conexão Marilyn Monroe é uma comédia sobre corrupção, mal-entendidos e arquétipos. Estão lá os clichês do nosso diariamente, muito bem temperados com ironia, uma quase vedete do cenário político brasileiro. 

O Dr. Pacheco (Paulo Ivo) é um senador da república visto com bons olhos, mas é corrupto e trabalha com tráfico de drogas e contrabando. Homossexual nada assumido, seu discurso, a princípio, é honesto, suas ações, não. Ricardinho (Thiago Adorno) é o novo namorado de Pacheco, uma criatura fofa e histriônica, que insiste com seu parceiro que um dinheirinho por fora não machucaria ninguém. Paulo (Alexandre Barros) é o bonitão machista, nada gentil e parceiro de Pacheco nas suas contravenções. Dom Pepino (Riba Carlovich) é um criminoso com dor de cotovelo, porque está perdendo espaço para Pacheco. Sendo assim, decide se vingar do senador. Otávio (Romis Ferreira) é funcionário de Dom Pepino, bem atrapalhado, e que, por falta de pessoal, tem de trabalhar em campo. Silvia (Maximiliana Reis) é esposa de Paulo e amiga de Pacheco. Ela guarda um segredo que vem à tona e atrapalha a vida de todos.

Durante o espetáculo, os atores nos entregam situações com as quais estávamos acostumados, mas que já não contam mais com a nossa indiferença cidadã. A corrupção aparece em vários matizes, do grande político e seus golpes elaborados, ao funcionário que tem um emprego que não escolheu, mas do qual precisa. Aquele que justifica seu roubo por considerá-lo menor, porque o país está em uma situação difícil. Mas a grande questão em Conexão... é que todos os personagens são criminosos. Cada um deles tem uma justificativa que soa justa. E com essa máscara, sobrevivem às intempéries e à distração da lei, melhor, de quem deveria aplicá-la.

Pode-se pensar que este é assunto batido, que a corrupção é tema que não dá mais em samba. Aos adeptos de tal pensamento, só posso dizer que esse samba nunca esteve em ritmo tão acertado. Nada mais interessante que um olhar apurado e divertido – que é para não mergulharmos de vez na sensação de impotência predominante – para nos fazer olhar além e desarrumar o universo pessoal dos que sacaneiam o povo sem pestanejar, como se fossem dignos de eterna indulgência. E dignidade é o que falta nessa roda. 

Conexão Marilyn Monroe é um espetáculo divertido e inteligente, com atores de primeira encarando o desafio de mostrar ao público aqueles que os representam. Cada ator tem seu momento de nos entregar um tema para ruminar, e todos são merecedores dos aplausos que recebem, assim como das gargalhadas que arrancam do público, durante o espetáculo.

Eu poderia contar sobre o que me encantou em cada ator e com detalhes. Só que eu acho mesmo é que vocês têm de assistir ao espetáculo para conferir pessoalmente o timing, o talento, a capacidade de interpretação de cada um deles. Entre eles, conheço e sou fã de carteirinha - e pôster na mão - da Maximiliana Reis. Agora, meu repertório de conhecimento de talentosos atores está maior e melhor. Obrigada, Maxi, por isso! 

ALEXANDRE REINECKE



Muito difícil não botar reparo no ótimo texto de Alexandre Reinecke, também o diretor do espetáculo. Conexão Marilyn Monroe é deleitável graças ao seu dom de tratar o espectador como ser pensante, e não como consumidor de entretenimento descartável. A qualidade de seu texto, a forma como ele apresenta os personagens, e também como dirige os atores, essa combinação de boas escolhas é o que agrega valor ao espetáculo.

Eu sei que Alexandre Reinecke é uma pessoa que vem colaborando muito com o teatro brasileiro. Conexão Marilyn Monroe foi o primeiro espetáculo dele que assisti. Gostaria de ter assistido aos outros. Certamente, assistirei aos próximos.
MARILYN MONROE 

Definitivamente, vocês terão de assistir ao espetáculo para saber qual papel ela desempenha nessa história.  
Essa não é uma crítica, mas um convite feito por quem ainda está começando a se embrenhar nesse universo    tão interessante que é o teatro. Um convite para que vocês prestigiem o que merece ser prestigiado.


CONEXÃO MARILYN MONROE

Teatro Gazeta
Av. Paulista, 900 - SP

Sexta: 21h
Sábado: 22h
Domingo: 20h
Até 17/11


Informações: 11.3253 4102        
Ingressos: clique para conferir.
Texto e direção
Alexandre Reinecke

Com:
Alexandre Barros
Maximiliana Reis
Paulo Ivo 
Riba Carlovich
Romis Ferreira
Thiago Adorno

Ficha Técnica
Direção Geral: Alexandre Reinecke 
Assistente de Direção: Eduardo Leão
Direção de Produção: Marcella Guttmann
Figurinos: Fábio Namatame
Cenários: Fábio Namatame
Iluminação: Lucia Chedieck
Construção de Cenário e Cenotecnia: Ono Zone Studio
Trilha Sonora: Pedro Lobo
Produção Executiva: Adelino Costa
Assistência de Cenários e Figurinos: Julianos Lopes
Adereços: Antonio Ocelio de Sã Alencar
Fotos e Design Gráfico do Cenário: Ronaldo Aguiar
Contra Regra: Nilton Ruiz
Camareira: Beth Ferreira
Camareiro: Niltinho Cavalcante
Operação de Luz: Julio Greghi
Operação de Som: Mattheus Chaves
Fotografia: João Caldas
Identidade Visual: Fernando Lucas
Design Gráfico: Natalia Viviani
Assessoria de Imprensa: Morente & Forte
Assessoria Contábil: Contabs Assessoria
Coordenação Financeira: Juliana Fisco
Formatação e Administração do Projeto: Fixação Marketing Cultural

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