Pílulas de Literatura – Descompasso, um conto quase inédito [Maurem Kayna]

Pílulas de Literatura – Descompasso, um conto quase inédito

Engana-se quem pensa que a literatura exige ineditismo. Não a essa altura das publicações acumuladas. Mas há formas e formas de se contar uma história, e desfechos distintos podem conferir maior força a um texto. Pensando nisso continuamente, faço exercícios de refazer e desfazer histórias que por alguma razão qualquer me convencem de seu potencial. O conto a seguir já teve outros títulos, outros finais e mesmo outras etapas narrativas, mas o cerne continua sendo um só – o desencontro ou o descompasso de um quase encontro entre pessoas que não construíram um vínculo dado como inevitável.

Descompasso

Vai pela calçada engolindo o sol com a pele, absorto com as marcas de chiclete e tocos de cigarro que turvam o chão, mas nota o carro passando. Percebe ou acredita perceber o veículo reduzindo a velocidade sem se deter, o olho no retrovisor querendo voltar. Por algum tempo, bem curto, reina a certeza de ter sido reconhecido. Fernando mantém o ritmo e finge desatenção com o tráfego quando vira chega na esquina e escolhe ir no sentido oposto ao deslocamento do carro. Não quer saber a decisão da condutora quanto a seguir adiante ou investigar, congela a imagem do seu olhar no espelho e repete-a para si mesmo em cada passo que segue imprimindo sobre o pavimento. Ao passar a mão pela barba, sente o vento tocar a claridade dos próprios olhos, o ar é frio e o remete à água que tantas vezes colhera do poço, debruçado na mureta de tijolos úmidos onde as vezes cresciam avencas, indeciso entre o medo de não atender sua mãe a tempo e a curiosidade pelo túnel vertical, interrompido pelo espelho denso que ele rompia com a queda do balde. A lâmina dágua onde via sua silhueta recortando o céu era desassossegada pelos respingos que se desprendiam do balde sendo içado - as  gotas estemeciam a superfície líquida durante todo o percurso da corda na roldana -  diferente do reflexo daqueles olhos no espelho retrovisor, uma imagem quase estática, sem perturbações. Teriam mesmo sido capazes de saber quem ele era?


Irma gosta de dirigir por ruas planas, de trânsito sempre calmo. Aproveita o dia de céu despido e, como um deboche ao frio, foge antes do final do expediente para percorrer o bairro onde cresceu, mesmo sabendo que não reencontrará a antiga casa porque em seu lugar existe agora um centro comercial. Repete essa rota com frequência e, quando o faz, acredita estar sendo movida pela melancolia, mas executa o percurso de modo mecânico, submersa na música alta que inunda o interior do importado; mal percebe as fachadas antigas entremeadas de novos edifícios e ofuscadas pelos galhos despidos de folhas. Agora há pouco, porém, a proteção sonora parece não ter impedido que notasse o sujeito caminhando a esmo, sua íris aguada em tons de mel e folha. Foi rápido como um susto, mas sua inquietação, nem curiosidade, foi quase nada.

Fernando aferrou-se ao caminho, mas continuou se perguntando sobre a consequência do encontro. A informação da morte do pai foi dada em um dezembro de quando a menina ainda desconhecia o significado do nunca mais e de muitas outras incertezas. Ele entrou para a memória da pequena através da imagem em preto e branco, talvez hoje amarelada, que sua mãe tivera a consideração de não destruir. Um homem alto, de bigodes volumosos mas bem desenhados, os cabelos muito escuros e fortes, herdados da família de origem árabe, destacava os olhos cuja cor incomum ela não decifraria pelo retrato.

Não era lógico pensar que ela o tivesse reconhecido. Somente alucinação poderia fazê-la associar o pedestre de barba cerrada, levemente grisalha, ao homem da fotografia que talvez já nem conservasse consigo. Não havia motivos para suspeitar que delirasse assim. O carro seguiu seu caminho, não contornou a quadra para conferir sua fisionomia.

Irma não é uma moça suscetível a insanidades, mesmo essas passageiras, fomentadas pela correria da vida moderna. Foi inédito aquele assombro com o olhar de um anônimo, mas foi um desconforto isolado, ficou solto na tarde e não plantou dúvida em seus passos seguintes. Não reconheceu nada de íntimo naquele olhar,  apenas sentiu umas saudades indefinidas e acabou concluindo pela inutilidade de continuar passando por aqueles caminhos de infância em que já não reconhecia nada dos tempos antigos

Fernando aceitou a existência sem ruídos durante muitos anos e, fosse por culpa ou orgulho, julgava necessário manter a promessa de conservar-se ausente. Cometera, acreditava, uma primeira imprudência. Seria um sinal de que se cansava do anonimato ou de que já o considerava dispensável? Ciente dos hábitos da jovem,  poderia ter evitado aquela rua para chegar ao seu conjugado, onde passou o resto da tarde lembrando do desencontro. O olhar dela tem faíscas e desescurece quando ela se agita, pensou Fernando, emocionando-se.

À noite, quando preparava a refeição para consumir sozinho, como de costume, Fernando ainda fazia esforço para se justificar consigo mesmo pela covardia de não ter voltado mesmo quando a ex-mulher se casou novamente. Questionava a conivência com a mentira que convertera a menina em órfã, desnecessariamente. Justo quando acreditava que venceria aquela hesitação que o levava a abandonar os segredos do poço para atender a pressa da mãe nos tempos de menino, na verdade ele apenas carregava o balde para satisfazer o rancor da esposa traída.

Não se arrependera do romance com Antônia, que o fizera despertar para as cores do riso, mas não se perdoava, especialmente após a morte da amante que nunca lhe dera a alegria de ser pai novamente, por ter se deixado riscar da história de Irma.

Perguntava-se, olhando para os restos de comida no prato, se ela estaria agora tão inquieta como ele; se estaria, como nas noites de vento de sua primeira infância, sem querer desgrudar-se da vidraça, olhando os galhos das árvores agitarem-se como se dançassem em festa, uma comemoração para a qual não fora convidada mas que se alegrava em assistir. Era no colo dele que a menina se divertia vendo os efeitos do vento, mas ele prestava pouca atenção aos corcoveios da criança porque permanecia na janela para esperar a passagem e os olhares de Antônia.

Se tivesse a resposta para suas questões, Fernando talvez se decepcionasse, pois não restou em Irma nenhuma impressão do incidente da tarde e menos ainda daquele encanto que a brisa agitando as plantas lhe provocava quando muito pequena. Aliás, não se recordava mesmo de nenhuma ocasião em que tivesse sido acalentada pelo pai, embora sua mãe houvesse comentado em diversas ocasiões sobre o orgulho que ele teria de sua beleza e de seus talentos se estivesse vivo.

Quando Fernando recolheu a louça para lavar, Irma acabava de cerrar as cortinas da grande janela do seu quarto. Não gostava de noites ventosas e para evitá-las refugiava-se na música com seus grandes fones de ouvido.


Maurem Kayna é engenheira florestal, baila flamenco e se interessa por literatura desde criança. Depois de publicações em coletâneas, revistas e portais de literatura na web resolveu apostar na publicação em e-book e começou a se interessar por tudo que orbita o tema, por acreditar que essa forma de publicação pode ser uma das chances de aumentar o número de leitores no Brasil. Autora da coletânea de contos Pedaços de Possibilidade, viabilizado pela iniciativa da Simplíssimo. Páginas na internet: mauremkayna@uol.com.br - mauremkayna.com/ - twitter.com/mauremk

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