Quando a Música é Ruído [Pedro Abrunhosa]

Quando a Música é Ruído

Entrei no avião e ali fiquei na ânsia da descolagem. Dos altifalantes embutidos regurgitava a ‘Garota de Ipanema’ em flauta de pã. Uma sonoridade entre o clássico e o rádio de trolha que fazia tresandar todo o aparelho de uma melosidade viscosa que se colava à pele, aos ouvidos, ao jornal, ao fulano da frente. Aquele fiu-fiu lá no fundo, baixinho mas teimoso, afogava o ruído turbulento dos motores a aquecer. Era impossível não ir buscar nos recônditos escondidos do inconsciente a irritante melodia transformada em pau-para-toda-a-colher. Tentava concentrar-me nos motores, pensar nas engenharias necessárias para os construir, beber aquele som grave e tranquilizante do engenho a rolar na pista, e tudo se tornava impossível: ‘Olha que coisa mais linda/ mais cheia de graça’, mas agora em forma de assobios maneiristas e volteios de pássaro enjoado, atormentando o apetitoso ruído do avião que agora acelerava. E enquanto a hospedeira, surda provavelmente, distribuía sorrisos, rebuçados e cobertores, o flautista a transbordar melismas e trejeitos, arrastava pelas ruas da amargura acordes já sem alma nem graça de tão gastos em barbeiros, cafés e consultórios dentários. ‘Oh, Porque tudo é tão triste’, pensava eu, e já contaminado pelas palavras de Jobim imaginava-o a rebolar retumbante, lá no sítio onde esteja, em jeito de protesto por lhe assassinarem o trabalho.

Agora, já no destino, entro no táxi e, antes de poder dizer para onde quero ir, sou atacado por um Kenny G. qualquer que zumbe um pot-pourri de melodias de sempre berrantes e furiosas. Com os ouvidos ainda polutos pela generosa música que jorrava no aeroporto, invento uma desculpa e tento outro carro. Resultado idêntico: é a vez do Rock Sinfónico intervir no meu diálogo com o motorista.

Ninguém ouve a ninguém. Ou pelo menos eu não o ouço a ele porque não me consigo desviar dos Pink Floyd cristalizados nas camurças da viatura, como se fossem um pinheirinho musical que se pendura no retrovisor a empestar o ar com o seu aroma de melodia em estertor. ‘We don’t need no education/ We don’t need no thought control’, lá vão eles cantando por entre as ruas de Madrid enquanto lhes dou toda a razão mas preferia que me não perturbassem o sossego da neve que cai majestosa lá fora.

Lobby do hotel. Cansado, não da viagem mas da banda sonora, dirijo-me ao balcão. Algures um pianista vitupera as teclas com o ‘As Time Goes By’. Nenhum lugar-comum lhe poderia tirar o lugar. Enquanto aguardo que a senhora termine o relambório de boas-vindas, já o outro se perde em Gershwin e Cole Porter mas à maneira de hotel: muitas cascatas e rendilhados, que é como quem diz, mal tocado, a gosto daquelas senhoras lustrosas que tomam chá no imponente salão. Por instantes o matraquear de Jack Nicholson na máquina de escrever em Shining vem-me à cabeça, aqui mais sinistro ainda porque todas as paredes reverberam com os dedos do senhor que floreia o teclado em plim-plims xaroposos, agora galopantes pela caixa do elevador, e nem debaixo da almofada, já no aconchego do meu quarto, lhes consigo escapar. Sei que lá em baixo, num fraque que tirará para vestir uma fatiota e regressar ao triste, suponho, lar, o pianista matraqueia os nossos melhores compositores dando-lhes um toque pessoal que os mesmos, certamente educados, agradeceriam com um ‘Não, Obrigado’.

Tenho trabalho, reuniões, compromissos a cumprir. Já estou a descer no ascensor. Agora, mais relaxado, consigo ouvir que também aqui há violinos a tocar, vozes maviosas que, suponho, devam servir para tranquilizar os ocupantes caso a geringonça fique presa entre pisos. A mim, pelo contrário, aquela lenga-lenga dá-me um nervoso miudinho que me faz pensar que há um serial-killer dentro de cada um de nós. Era capaz de passar por cima de velhinhas e crianças deficientes, ou deixar-me cair no poço, só para fugir à melopeia que zurze da colunita tenebrosamente disfarçada no tecto. Esperam-me cá em baixo. Peço que desliguem o rádio do carro, por favor, embora insistam em me mostrar algumas das novas revelações musicais que deveria conhecer. Preciso de me ouvir, de pensar, de parar, e à hora do almoço já estou exausto de tanta informação canora. O restaurante é uma colmeia que não pára de tinir à nossa volta. Por mim estaria bem apenas isso: uma refeição e uma bela conversa são excelente oportunidade de recuperar o tempo, a alma até. Só que não vai ser bem assim. É um local onde fica evidente que há gente que precisa de ‘música’ para não falar. Gente sem espaço interior, para quem o silêncio é a pior das mágoas. E, tronitroantes, desfilam paellas, churros e gazpachos por entre zarzuelas alternativas e rock duvidoso. No fim pouco se disse e a reunião continuará estéril num escritório mais barulhento ainda.

Não é só a mim, Músico, que esta realidade de ruído de fundo afecta. Em supermercados, lojas de pronto-a-vestir, ginásios, cabeleireiros, hospitais, esta lógica estúpida de que as pessoas necessitam de ‘música’ 24 horas por dia para serem felizes, começa a ser fatal. Expostos que somos, involuntariamente, ao som, musical ou não, o nosso cérebro processa-o de forma permanente e constante como se fosse apenas ruído. O que, na realidade, é mesmo. Como o fumador passivo, também nós sofremos os danos da vontade alheia. E perdemos a oportunidade de escolher quando e que tipo de Música queremos escutar. Está na altura de criar espaços que sejam Locais Livres de Música, onde possamos ler, conversar, zerar o dia. Eu estaria lá a bebericar o meu café. Sobretudo se souber que não vai surgir de repente um altifalante roufenho que transforme a minha própria música em mais barulho ainda.

Pedro Abrunhosa

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