As múltiplas faces da escritora catarinense Edla van Steen [CLÁUDIO PORTELLA]

As múltiplas faces da escritora catarinense Edla van Steen 

POR CLÁUDIO PORTELLA

Edla van Steen, escritora catarinense, brasileira, que lançou recentemente o livro “Instantâneos”, de contos curtos, nos fala praticamente de tudo em entrevista exclusiva: Do começo da carreira, quando queria ser cantora lírica e escrevia à lápis, aos livros publicados nos EUA; do primeiro emprego de radiofonização de cartas em Curitiba à sua participação no filme na “Na Garganta do Diabo”; de teatro, das peças que escreveu e traduziu; da geração de novos escritores e de escritores mais experimentados; da amiga Lygia Fagundes Telles e das muitas coleções que dirigiu e que dirige; do novo livro, da amizade com Eva Wilma; de televisão, de cinema, dos filhos (que trabalham com cinema) e do marido (o crítico de teatro Sábato Magaldi). Ufa! A escritora parece não cansar nunca.

É a escritora brasileira com mais livros publicados nos Estados Unidos. Mas como tudo começou, nos conte como foi o início de sua carreira?

Será que ainda sou a mais publicada? Não sei. Talvez outras tenham publicado também. Fiz muitas experiências antes de me decidir pela literatura. Aprendi canto (eu queria ser cantora lírica), atriz, não era minha praia, aliás, no meu filme com o Khouri, outro escritor era ator: José Mauro Vasconcelos (“Meu pé de laranja lima” foi  sucesso). Ficamos um mês em Foz de Iguaçu, chovia muito, nós, os escritores, datilografávamos nossos livros. Sempre fui grafomaníaca e não consegui não escrever. Um detalhe, que a nova geração, nem imagina seja possível. Eu escrevia a lápis (meus filhos eram pequenos e eu trabalhava à noite), fazia várias versões, daí datilografava, uma, duas, cinco vezes. Como muitos outros autores, aliás. Tive a sorte de fazer um curso de inglês, na Alumni, nos anos 60, e meu professor - David George - ter gostado do que eu escrevia. Ele virou o tradutor dos meus quatro livros publicados nos Estados Unidos. Instantâneos é o quinto que ele traduz.

Você atuou no filme “Na Garganta do Diabo” (1960). Como foi participar do filme, atuou em outros filmes?

Fui a primeira atriz brasileira a ganhar um prêmio em festival internacional de cinema, na Itália. O júri, presidido por Roberto Rossellini, não deu o prêmio para melhor filme, instituindo, excepcionalmente, o de Melhor Atriz. Depois ganhei todos os brasileiros. Meu primeiro emprego foi o de radiofonização de cartas, que eu escrevia e apresentava, na Rádio Tinguy, de Curitiba. Além desse, fiz um programa que intercalava tangos com poemas que eu escolhia e lia. Logo comecei a trabalhar em jornal. Pensei que eu podia ganhar a vida escrevendo. Que ingenuidade.

E no teatro, você escreveu algumas peças e traduziu outras tantas, também atuou?

Fiz teatro amador em Curitiba. Gosto muito de traduzir peças. Se você olhar meu currículo vai ver meus autores prediletos: Ibsen, Tchecov, Strindberg, David Mamet, Kaiser, Molière. Aprende-se muito em tradução. Em geral, as traduções foram encomendadas pelos atores e/ou diretores dos espetáculos. Tive sorte também com a minha primeira peça: O Último Encontro. Com ela, ganhei o Prêmio Molière, que na época era o de maior prestígio, e o da  APCA, do qual muito me orgulho. Otto (que está em fase de captação) e Malas Trocadas acabam de sair pela Giostri Editora.

A escritora Lygia Fagundes Telles fez 90 anos (19/04/2013). Você acompanha a nova geração de escritoras brasileiras? Como encara a expressão “literatura feminina”?

Minha querida amiga Lygia está mais linda do que nunca, aos 90 anos. Claro que acompanho o movimento literário em geral, não só o feminino. As coleções Melhores Contos, Melhores Crônicas e Melhores Poemas demonstram isso. E o Roteiro da Poesia Brasileira, dirigido por mim, em 15 volumes, levantamento da nossa poesia de 1500 ao ano 2000, é outro atestado. Sou grafomaníaca: não consigo não ler e escrever e capitalizo o vício publicando livros meus e de outros autores. Sou um ser coletivo. E, sempre que me pedem, consigo editores para os meus muitos amigos.

Organizou as coletâneas de entrevistas “Viver & Escrever”, onde entrevista grandes escritores brasileiros. Como foi entrevistar tantos escritores talentosos? Quais as entrevistas que mais marcaram você?

Tive a sorte de conviver com uma gama enorme de autores, não só pela direção das coleções, mas porque sempre li a obra de todos, antes das entrevistas, feitas pessoalmente, com um gravador ou levando minha Lettera 22: enquanto eles respondiam as perguntas eu datilografava as respostas. Acho que Menotti Del Picchia, Dyonélio Machado e Nelson Rodrigues me deram suas últimas entrevistas. Poucos dos 39 entrevistados me responderam por escrito: Henriqueta Lisboa, que já estava bem idosa e não podia me receber, Lygia Fagundes Telles, porque ficara viúva e, em meio à dor da perda de Paulo Emílio, quis escrever, Otto Lara Rezende e Décio Pignatari. Osman Lins também foi uma exceção: ele ficou doente, em meio aos nossos encontros, eu ia ao hospital conversar com ele, e depois da sua morte, Julieta de Godoy Ladeira, sua dedicada companheira terminou-a para mim, procurando respostas já dadas em vários veículos da imprensa. Viver & Escrever foi meu trabalho mais difícil e complexo, o que mais me desafiou.   

Em entrevista no Estadão você fala da falta de garra das editoras em não publicarem quem não está atrelado à mídia e sentencia que há muita gente boa escrevendo. Pode citar alguns?

Ah, meu caro, são tantos. A jornalista Malu Furia, por exemplo, enviou textos infanto-juvenis para editoras que nunca nem responderam. Seu delicioso livro O travesseiro que contava histórias vai ser publicado agora pela Giostri Editora. Outro romancista sério como Esdras Nascimento também luta para publicar um novo romance, de 900 páginas, o gaúcho Rubem Mauro Machado tem vários volumes prontos, Marcos Santarrita deixou três ou quatro livros inéditos. No mundo todo há movimentos de autopublicação. Os autores prescindem das editoras e lançam seus livros em impressões digitais, que nada ficam a dever às profissionais, e fazem circular suas obras. Eu aprovo e aplaudo.

Percebo em seu novo livro “Instantâneos” (2013) que você procura mesmo registrar o instante, como se tirasse uma fotografia, lapidando o conto até não mais puder. Como ver essa tendência do micro conto, que parece ter ganho força com o Twitter, acredita mesmo em contos curtíssimos? Ou o que chamamos de micro contos são flashes de crônica etc?

Tenho horror a Twitter, facebook, linkedin etc. Meus contos são curtos porque eu não tinha tempo, envolvida que eu estava no Roteiro da Poesia Brasileira, além das outras coleções. Foram 50 momentos íntimos. Registros que a minha imaginação construiu para as imagens que eu guardei. Também não acho que sejam “flashes de crônica”. Acho que alguns são mais parentes da poesia. São mesmo contos bem curtos. Tentativa de contar histórias com o mínimo de palavras, deixando que o leitor construa o resto.

Seu livro “Instantâneos” me lembrou muito os últimos livros do escritor Caio Porfírio Carneiro. Por falar nele, você não acha que uma geração da antiga guarda, digamos assim, de bons escritores que ainda estão em atividade, são tão ignorados pelos editores quanto os novos que não estão na mídia?

Não conheço esses contos curtos do Caio Porfírio Carneiro. Tentei, inclusive, publicar um volume com seus melhores contos, mas, infelizmente, ele publicou demais e o site Estante Virtual está cheio de seus livros. Estou esperando um pouco para voltar a insistir com a Global... Quando comecei a coleção, imagine, um dos dez autores da minha lista era Moreira Campos. Que até hoje não saiu. Não me pergunte um motivo: foram muitos. Agora voltei à carga, através do Nilto Maciel, que me deu o endereço eletrônico de uma neta e estou prestes a conseguir autorização. Não é impressionante?

Fale de sua amizade com Eva Wilma, você escreveu a biografia dela, não foi?

A Eva e eu somos amigas há mais de 40 anos. Ela ainda era casada com o John Herbert. Mas estreitamos nossa amizade, depois que eu casei com o Sábato Magaldi e ela com o Carlos Zara. Fizemos várias viagens juntas. Fiquei muito feliz quando ela me escolheu para escrever a biografia, que levou três anos para ficar pronta. Um trabalho bom, o de provocar que ela fizesse funcionar a memória, reconstruísse o trajeto teatral. Ela estava muito triste com a morte do companheiro. Escrevi, inclusive, um roteiro teatral para que ela se despedisse dele, todas as noites: Primeira Pessoa. O espetáculo ficou um ano em cartaz e recebeu o prêmio Faz Diferença, de O Globo.

O que mudou na teledramaturgia brasileira nos últimos anos?

Todos meus amigos sabem que sou vidrada em televisão (assinei, inclusive, critica do gênero na revista Isto É Gente). As novelas vinham se repetindo demais, os grandes sucessos começaram a ser reescritos... Mas as emissoras eram as culpadas, por não acreditarem ou apostarem em novos autores. Até que surgiu o João Emanuel Carneiro, um talento impressionante. Filho de uma grande poeta, Lélia Coelho Frota, João Emanuel renovou completamente o gênero. Gosto muito, igualmente, de Maria Adelaide Amaral. A minissérie sobre a Dercy Gonçalves foi primorosa. Só lamento que as emissoras de telenovelas não contratem especialistas para cuidarem do acabamento final, cortando os erros de português que doem no ouvido do telespectador, tipo “para mim fazer” ou “entre eu e você” ou “entre eu e ele”. Não há ninguém que possa corrigir que é entre mim e você? E outros problemas mais. Porém, na técnica, o Brasil é imbatível.  

Foi eleita uma mulher (Rosiska Darcy de Oliveira) para a cadeira vaga do poeta Lêdo Ivo na Academia Brasileira de Letras. Você tem muitos amigos lá. Já pensou em se candidatar a uma vaga, por que não o faz?

Já convivo com todos, Cláudio. E não tenho espírito para a coisa. As pompas me constrangem. Gosto de estar com os acadêmicos que, em geral, são pessoas de ótimo convívio. Mas sou low profile... Gosto de escrever e de jogar conversa fora. Vou sentir saudades de Lêdo Ivo, que era um maravilhoso contador de histórias literárias. Fomos muito próximos. Aliás, estamos no Rio, Sábato quis vir para a homenagem ao seu companheiro. Ontem foram depositadas as cinzas no mausoléu, e houve uma excelente mesa redonda na ABL.

Qual o gênero literário que lhe dar mais prazer em escrever, por quê?

Transito entre o conto, o romance e as peças de teatro, mas não sei escrever poemas nem crônicas, apesar de ser leitora assídua dos gêneros. Daí a direção das coleções da Global. Às vezes, o que eu quero contar já nasce em diálogo. E a peça então vai tomando forma. Já aconteceu de eu reescrever uma peça em forma de conto longo, ou novela. São experiências literárias distintas, mas que se prestam para o desenvolvimento de uma  história, ou situação.

O que mudou no teatro brasileiro nos últimos anos? Existe mesmo uma carência de textos, especificamente, para o teatro?

O que acaba com o teatro brasileiro é o sistema de patrocínio. Se uma comissão lesse e escolhesse as melhores peças de hoje, e produzisse as montagens, como nos países europeus, veríamos como é rica a dramaturgia brasileira. A Giostri Editora é especializada em publicar peças de teatro, tem perto de 300 no catálogo. E não se queixa. Ele vende muito bem suas publicações em 7 livrarias que montou em teatros paulistas. Mas tem dificuldades para distribuição nas livrarias de outros estados.

Você é vidrada em TV, e o cinema, também vê bastante? No caso do cinema brasileiro, você não acha que ele perdeu sua identidade tentando imitar o americano? O que acha do cinema brasileiro atual?

Vejo, pelo menos, um filme por dia. E acho que o cinema do Brasil tem evoluído muito. Meus três filhos são a ele ligados: Ricardo fez Noel, Poeta da Vila. Minha filha Anna é profissional competente em maquiagem especial para televisão (Dercy Gonçalves e Dalva & Herivelto) e para o cinema:  Xingu, por exemplo, e várias produções internacionais. E Lea é autora de vídeoart. Alguns de seus trabalhos já foram expostos  em museus como o Beaubourg, em Paris, Reyna Sofia de Madri, Arte Moderna, do Líbano. O nosso cinema tem personalidade e está numa excelente fase, com pelo menos uns quinze diretores de inegável qualidade artística. Você não concorda? O que está faltando mesmo no cinema é um agente que escolha livros, argumentos e/ou roteiros (tenho 4 escritos, baseados nos meus romances e/ou contos e peças). A literatura brasileira está cheia de livros que dariam filmes maravilhosos.

Seu marido, o crítico de teatro Sábato Magaldi, passou por problemas de saúde, como está ele agora?

Meu marido está muito bem. É evidente que tem problemas como qualquer pessoa  com a  idade dele (86 anos). As dificuldades são as normais. Não foi receber o prêmio da APCA este ano, porque a data de entrega coincidiu com o lançamento do meu Instantâneos, no Rio, no mesmo dia e horário. No momento, estou reunindo as críticas do Sábato, de 1966 a 1988, com o auxílio do Prof. José Eduardo Vendramini, que era seu colega na ECA. Um trabalho e tanto para ele e para nós.



ENTREVISTA ORIGINALMENTE PUBLICADA NO SUPLEMENTO CULTURAL DE SANTA CATARINA [ô catarina] 78


CLÁUDIO PORTELLA (Fortaleza, 1972) é escritor, poeta, crítico literário e jornalista cultural. Autor dos livros Bingo! (2003), Melhores Poemas Patativa do Assaré (2006; 1ª reimpressão, 2011; Edição em eBook, 2013), Crack (2009), fodaleza.com (2009), As Vísceras (2010), Cego Aderaldo (2010), o livro dos epigramas & outros poemas (2011) e Net (2011). Colabora nas mais importantes publicações do Brasil e do exterior. Ganhou o concurso de conto da UBENY - União Brasileira de Escritores em Nova York.


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