Entrevista com Fábio Barreto [Isabela Lapa e Kellen Pavão]

Entrevista com Fábio Barreto 

1) Fábio, o seu livro apresenta um universo apocalíptico. O que te motivou a abordar esse assunto? 

Quando decidi encarar a estrada da vida literária, analisei os grandes temas da Ficção Científica e pensei muito no que renderia uma história com forte apelo popular e que também pudesse lidar com minhas impressões e trajetória de vida. Por alguma razão, o fim do mundo pareceu interessante, assim como foram outros dois temas, então fiz um pequeno exercício: busquei razões para contar cada uma daquelas histórias. O que me faria querer ler cada uma delas? Quando a razão de “Filhos do Fim do Mundo” apareceu, o arrepio foi tão grande que desisti de prosseguir com as outras ideias. Naquela hora da minha vida, decidi explorar os efeitos morais, sociais e globais do fim da infância. O motivo surgiu quando pensei num mundo sem a minha filha, Ariel (ela tinha 5 anos quando pensei nisso; logo mais ela completa 7 anos). Como eu reagiria? A ideia foi poderosa demais. Comecei a escrever imediatamente. O motivo secundário, mas igualmente importante, foi a possibilidade de explorar a FC e apresenta-la a um público ainda pouco acostumado com esse gênero fundamental da literatura mundial sem o peso dos clássicos e com uma linguagem moderna, dinâmica e brasileira! 


2) Um diferencial do livro é que os personagens não têm nomes. O que te levou a optar por essa técnica? E a região?

Foi a solução de um problema, sendo bem sincero! Queria trabalhar com uma história de âmbito global, algo inerente a qualquer ser humano. Se escolhesse um nome, ou uma cidade em particular, muito dos personagens seria definido pelo lugar de onde vivem. O lugar de onde viemos pode dizer coisas a nosso respeito, mas não nos define. Nossas ações nos definem. Nossas escolhas. Nossas atitudes. Logo, colocar nomes quebraria a proposta inicial do livro. Comecei a escrever já sem nomes para ter uma ideia do estilo e, quando percebi, não conseguia mais nomear nenhum personagem. O Repórter já havia nascido e estava fazendo coisas. Um homem sem pátria. Mas, mesmo assim, um homem de família, um ser humano com falhas, obstinações, medos e virtudes. Uma pessoa comum e extremamente próxima de cada um de nós.

3) Quando pensa no fim do mundo, o que vem na sua mente?

Chuck Palahniuk disse “o importante da vida não é viver para sempre, mas criar algo que seja eterno”. Qual a única coisa que qualquer humano pode, de fato, fazer para ganhar a eternidade? Manter a espécie viva, nesse ciclo contínuo de renovação global. Fiquei muito assustado, e transformado, quando li A Estrada, de Cormac McCarthy, por conta da perspectiva do fim da vida, sem Bruce Willis ou Goku para nos salvar. Pensar sobre isso testa o caráter de cada um, especialmente se, mesmo para efeitos de exercício mental, qualquer convicção religiosa ficar de fora. Fim do mundo para mim é não ter função, não poder fazer nada para ajudar ninguém ou não ter propósito. Como pai, meu propósito é permitir que minha filha tenha uma boa vida e faça o mesmo pelos filhos dela. Logo, ela é tudo. Sem ela, não há nada. Em tempo, tudo isso é culpa do Denzel Washington. Estávamos conversando durante o lançamento de “O Livro de Eli”, e fiz essa mesma pergunta a ele. Em vez de responder, ele devolveu: o que seria o fim do mundo para você? Engoli em seco! Eu não tinha uma resposta, naquele momento! Afinal, jornalista não está acostumado a ser perguntado. O Denzel quebrou minhas pernas! Quando fui buscar a razão, durante a criação de “Filhos”, ela veio na hora! 

4) Se a situação do livro fosse real, o que você faria em relação à sua família? Qual seria o seu maior temor?

Essa é a pergunta mais difícil e, possivelmente, nenhuma resposta chega perto da realidade. Muito do que projetamos vem dos nossos ideais, daquilo que acreditamos ser o melhor, mas como saber qual a reação quando ideais caem e tudo que existe é uma realidade inicialmente inacreditável? Tentando pensar de forma pragmática, provavelmente tiraria minha família da cidade grande e tentaria viver o resto dos dias da melhor forma possível. Qualquer coisa além disso está mais para personagem de RPG do que para uma pessoa normal. Não sou mais jornalista de um grande jornal, o Repórter é. Ele que corra atrás da solução!

5) Sua obra, em alguns pontos, se assemelha à de José Saramago. Qual o seu livro preferido dele? O que você considera como um diferencial no escritor?

A ausência de nomes não define a obra de Saramago; assim como não define a minha. Já declarei publicamente que, além de resolver o problema, não citar nomes foi uma forma de homenagem, não de tentativa de aproximação. Ele é insuperável. Vários autores de renome utilizam essa técnica com sucesso, talvez confrontados pelo mesmo problema que eu; talvez movidos pela necessidade estilística. Se há alguma semelhança, é a crítica social. Ele olhava para as pessoas e imaginava suas reações, suas emoções. Faço muito isso por conta da prática com roteiros de cinema, uma técnica de redação que vive, fundamentalmente, de emoções explícitas e ações relevantes. Isso ajuda na hora de olhar para nossa sociedade sem utilizar um mundo fantástico como metáfora. A alegoria social é mais descarada. Saramago fazia isso bem. Espero poder fazer o mesmo, mas ao meu modo. Adoro o mestre e o meu favorito é “Ensaio Sobre a Cegueira”.



6) No livro “As Intermitências da Morte”, Saramago contou sobre um período em que a morte tirou férias. No seu livro, a morte resolveu levar todos os que nasceram no ano anterior ao que a história acontece. Essa relação foi proposital?

O que considera pior: deixar de matar os que estão no fim da vida ou matar grande parte da sociedade? Os problemas gerados pela imortalidade são grandes e complexos, entretanto eles se somam aos problemas já existentes, criando uma sociedade inchada e dando perspectivas de uma derrocada absurda da espécie, afinal, com mais gente – e em constante crescimento – o planeta teria sérios problemas para se sustentar em menos tempo. Porém, tal situação é gerenciável, pois ela ainda leva o “lado positivo” de que ninguém vai perder entes queridos. Quando todas as crianças morreu, bem, a coisa é instantânea. Cada um é testado. Cada um precisa agir. O ritmo social aceleraria demais e qualquer ação grandiosa geraria consequências irreversíveis. As duas são ruins. A diferença é o tempo de decadência da sociedade e os mecanismos criados para aceitar a nova realidade, por mais terrível que ela seja. 

7) Este é o seu primeiro livro, como está sendo a receptividade?

Filhos do Fim do Mundo é o livro de estreia que eu precisava! Ele me mostrou que existe mercado para a Ficção Científica comercial no Brasil, que há editoras dispostas a apoiar o gênero, e que, mesmo tendo muito pela frente, estou no caminho certo! A receptividade tem sido fantástica com eventos lotados em São Paulo, Fortaleza, Campinas, Rio de Janeiro e Santo André, com direito a saideira/repeteco em São Paulo, ótimas vendas, muita gente elogiando, críticas construtivas e bem escritas, boa aceitação pelos livreiros. Tudo de bom! Foi um primeiro passo marcante e importantíssimo. Esses primeiros seis meses me energizaram e estão sendo fundamentais na redação do próximo romance, que deve sair em 2014. 

8) Como foi o processo de conseguir uma Editora para publicar o livro?  

Tive a felicidade de ser convidado por Raphael Draccon para integrar o primeiro time de autores nacionais na Fantasy – Casa da Palavra, então tudo isso foi muito especial. Draccon ficou sabendo que eu estava escrevendo um romance de FC e leu um trechinho. Ele ficou interessado e pediu o resto. Certo dia, o Skype toca e ele me diz que tinha um contrato me esperando. Foi lindo demais! Nunca vou me esquecer daquele momento. Trabalhar com a Fantasy foi bem bacana, pois a equipe respeitou a obra, não impôs nada, aceitou palpites e permitiu a realização de um trabalho em conjunto que foi muito produtivo. Por ter sido editor durante tantos anos, e saber das dificuldades que muitos autores passam, vivi no paraíso durante o processo! Ufa!

09) O que te motivou a seguir a carreira de escritor?

Sou jornalista há 16 anos, então escrever sempre fez parte da minha vida. Quando comecei a escrever roteiros de cinema aqui em Hollywood, notei que tinha muita história para contar e, sempre, deixava de lado por ser muito crítico. Se alguma história se assemelha minimamente com algum filme ou livro que eu conheça, já descarto. Aprendi muito com os roteiros, especialmente a aceitar que um ou outro elemento vão esbarrar em algo que já foi feito, então, deixando a busca pela originalidade máxima – coisa que ninguém consegue – e seguindo os conselhos de Nicholas Sparks, sentei e escrevi. Estava entrevistando o Sparks pelo livro Charlie St. Cloud e falamos sobre inícios de carreira. Ele me contou sobre o primeiro romance dele, que ele escreveu para provar que podia, não gostou do resultado, jogou fora e escreveu outro. Mesmo assim, ele tinha conseguido escrever um romance do começo ao fim! Acredite, é difícil ir até o fim! Como eu já sabia escrever, por conta da profissão, sabia que conseguiria fazer algo bacana caso me dedicasse. O incentivo do Sparks foi fundamental. Sentei, organizei e escrevi. Menos de um ano mais tarde, “Filhos do Fim do Mundo” estava pronto para a revisão. O resto é história. 

10) Qual a maior dificuldade que você encontrou no processo de construção da história?

Escrever quase 300 páginas sem dar dica nenhuma dos lugares reais onde a história se passa. Tem de tudo ali. São Paulo, Rio de Janeiro, Londres, Los Angeles, Nova Iorque, Montana, Nazaré Paulista e vários lugares que visitei durante minha vida. Precisei tomar um cuidado absurdo para não trair a proposta! 

11) Podemos esperar novos livros ou projetos?

Claro, no momento, estou escrevendo “Snowglobe” (nome temporário), um novo romance de Ficção Científica, para 2014. Também comecei a trabalhar num livro infantil de fantasia chamado “Coisas Perdidas” (também nome de trabalho), que deve ser publicado em português e em inglês, no segundo semestre de 2014. Fora do ramo da ficção e fantasia, rascunhei as primeiras linhas de um romance adulto chamado “Tríade” (nome de trabalho), com previsão para publicação em 2015. No cinema, estou adaptando um romance brasileiro, que ainda é sigiloso, para ser filmado aqui em Hollywood e estou escrevendo o roteiro próprio “The Flower Shop”, para ser um longa-metragem filmado no Brasil e nos Estados Unidos no início de 2015. 

12) Indique um escritor nacional clássico que considera de leitura obrigatória. E atual?

Monteiro Lobato, sem pensar duas vezes! Ele moldou minha infância (ao lado do Marcos Reis) e ainda tem muito a dizer sobre a fantasia nacional! Um autor atual de quem gosto muito é o carioca Gerson Lodi-Ribeiro, ele é um dos mestres da Ficção Científica brasileira e meu guru literário. Tive a honra de publicá-lo e li praticamente todos os trabalhos dele. Carreira fantástica! Destaco o arco de histórias do personagem “Dentes Compridos”, um dos vampiros mais originais e inesquecíveis da literatura brasileira!


Isabela Lapa e Kellen Pavão – Administradoras do blog Universo dos Leitores, que fala de livros e de tudo que estiver relacionado a estes pequenos pedaços de papel que nos transferem do mundo real para o universo dos sonhos, das palavras e da felicidade!

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