Entrevista com Marcelo Araújo [Isabela Lapa e Kellen Pavão]

Entrevista com Marcelo Araújo

Marcelo Araújo nasceu no Rio de Janeiro em 1970 e vive em Brasília desde 1981. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), já trabalhou com jornais, revistas, rádio e assessoria de imprensa. 

Em 2009, lançou seu primeiro livro, "Não Abra – Contos de Terror", que reúne 11 contos relacionados a atmosferas fantasmagóricas e sobrenaturais. Este livro, inlcusive, foi premiado pelo Fundo da Arte e Cultura (FAC) do Distrito Federal. Em seguida, publicou dois livros: Pedaço Mal Passado e A Maldição do Fio Vilela. 

Conheçam um pouco sobre o escritor na entrevista exclusiva para o blog Universo dos Leitores 

Marcelo, seus livros trazem histórias de terror. O que te atrai no gênero?

O mistério, o clima sobrenatural, a sensação de que existe algo além do cotidiano, do normal, e a fantasia de sonhar com outros seres, de ser atraído pelo mundo da fantasia. Para mim, desde a adolescência sempre foi uma grande diversão ver filmes e ler histórias do gênero. Na verdade, remonta à infância, quando pessoas me contavam histórias de almas de outro mundo. 

Algum livro específico despertou o seu interesse? 

Muitos livros. Mas eu poderia citar Visões da Noite, de Ambrose Bierce, no qual personagens desaparecem misteriosamente. É um grande autor do gênero. 

Em sua opinião, qual livro do gênero deveria virar filme?

Tem um escritor argentino atual chamado Marcelo Birmajer. Comprei o livro dele El túnel de los pájaros muertos em Buenos Aires. É uma história muito interessante, que tenho certeza, daria um bom filme.

E qual a melhor adaptação para o cinema que você já assistiu?

Uma das melhores é o Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Coppola. A interpretação do Gary Oldman fugiu da imagem caricata do Drácula típico para um clima dramático, shakespeariano. 

Em que se inspira para escrever?

Muitas inspirações. Começam por pesadelos que tenho. Pelo menos uma vez por semana, tenho pesadelos com imagens cinematográficas. Acordo no meio da noite, corro para pegar um bloco de anotações e salvo ali, para depois desenvolver um enredo. Há também histórias que surgem na minha cabeça, inspirações em pessoas que conheço, um pouco das influências que trago do cinema e dos livros. 

O que te estimulou a usar o conto de João e Maria como referência na sua obra, “Pedaço Mal Passado”?

No começo, a ideia era escrever uma história completamente diferente, mas terminou enveredando para duas crianças canibais. Então, lembrei que alguns contos de fada, como João e Maria, com bruxas e outros seres, são verdadeiras histórias de terror. Pensei numa adaptação livre e desenvolvi o tema, atrelado ao conceito de criar um livro canibal. O primeiro conto, Pedaço Malpassado, veio antes. Então, entrelacei as duas narrativas.
E o livro “A Maldição do Fio Vilela”? Você vivenciou alguma situação de medo em alguma cidade pequena e se inspirou nela ou foi apenas fruto da imaginação?

Minha mãe mora no interior do Rio de Janeiro, numa cidade onde tudo é muito folclórico, inclusive as pessoas. Nesses lugares, há muitos relatos sobre assombrações. Tenho comigo essa referência desde a infância, em coisas que ouvi ou do folclore brasileiro, que é um dos mais ricos do mundo. Também me inspirei no cantor Noriel Vilela, um artista brasileiro dos anos 60 que fazia versões samba rock em cima de letras sobre macumba, e no Zé Pelintra, figura sobrenatural boêmia do candomblé. Quanto a ter vivido experiências estranhas, já presenciei fenômenos em casa como estranhos ruídos, luzes que acendem e apagam sozinhas. Mas, felizmente ou infelizmente (rs), ainda não vi um fantasma. 

Você prefere escrever livros com uma história só ou crônicas?

Não tenho uma preferência. As histórias simplesmente surgem e vou desenvolvendo. Meus dois primeiros livros, Não Abra – Contos de Terror e Pedaço Malpassado, tinham narrativas curtas. O terceiro virou um romance. Difícil prever em qual formato ficará até que eu chegue à última página. 

O que você considera essencial para o sucesso de um livro de terror?

O suspense. Acho fundamental prender as pessoas, despertar sua curiosidade. Muitos autores preferem apelar para soluções fáceis, como banhos de sangue. Eu gosto do mistério como ingrediente principal. 

Podemos esperar novas obras? Já está trabalhando em alguma?

Eu não paro de escrever. Faço isso quase todos os dias. No momento, trabalho em uma história de vampiros. Tenho alguns livros prontos, inclusive de terror. Porém, minha próxima obra será um livro infantil. Vai se chamar A Testinha de Gabá. Sempre quis escrever para crianças. A Testinha surgiu enquanto eu finalizava A Maldição de Fio Vilela, há mais de um ano. Fala sobre bullying, que é algo terrível. Tentei passar uma mensagem contra o preconceito. Embora não seja desenhista, acabei fazendo as ilustrações, de uma forma primitiva. Mostrei para um monte de gente, inclusive meu editor. Todos gostaram. Logo, decidi incorporar mais esse elemento ao meu estilo. Já estou desenhando outros projetos que podem virar algo futuramente, como o Seu Valter, a tirinha de um cabeludo que gosta de rock psicodélico e pesado. 

Como foi o processo de conseguir uma editora para a publicação dos seus livros?

Estou com a mesma editora desde o primeiro livro, a Thesaurus, daqui de Brasília. A diferença está no processo de financiamento das obras, que é totalmente independente. Publiquei Não Abra com recursos do Fundo da Arte e Cultura do Distrito Federal. Foi uma espécie de concurso, que bancou a edição da obra. O segundo, paguei do meu bolso. Já o terceiro, foi lançado em parceria com a editora, dividindo os custos. 


Além de escrever livros você tem um blog. Qual a página? Que tipo de postagens gosta de publicar?

Chama-se Tijolooblog. Está em funcionamento desde janeiro deste ano. O endereço é tijolooblog.wordpress.com. Antes dele tive o Tijoloblog no UOL. A página ainda está lá, mas encerrei porque dava muito trabalho para editar e tinha muitos problemas técnicos. Funcionou durante seis anos. Aí, descobri o Wordpress, com ferramentas mais fáceis de usar. Trabalhei nos anos 90 como crítico e repórter de cultura em um jornal em Brasília. Adorava minha profissão, mas acabei tomando outro rumo no jornalismo, o da assessoria de imprensa. Criei um blog pela possibilidade de escrever livremente sobre o assunto que quisesse, como contos e crônicas. Falo de música, cinema, livros, comento fatos do cotidiano e publico minhas histórias. Adoro. 

Edgard Alan Poe é uma referência para você? Por qual motivo?

Poe é o mestre do terror. Não foi o primeiro a publicar histórias do gênero, no entanto foi um dos maiores artistas a impor seu nome nesse tipo de conto, um dos primeiros que li, e me cativei justamente pelo clima de mistério que mencionei. Algumas narrativas dele enveredam pelo sobrenatural, porém outras trazem um horror real, factível. E também, vale destacar, foi um precursor dos romances policiais com Os Assassinatos na Rua Morgue, no qual criou um detetive ancestral do Sherlock Holmes, de Conan Doyle. 

Além de terror, algum outro gênero literário te atrai? Qual autor preferido nesse gênero?

Eu amo literatura em geral, de vários gêneros. Amo ler desde a infância. Gosto muito de literatura brasileira. Temos alguns dos maiores escritores do mundo, como Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato, Clarice Lispector, Murilo Rubião, Oswald de Andrade, Jorge Amado, Moacyr Scliar, Guimarães Rosa. Nossa literatura é um tesouro. Gosto dos clássicos da literatura universal, como Dostoiévski, Kafka, Goethe, John Keats e tantos outros. Nutro grande interesse pela literatura oriental, particularmente a japonesa. Um dos meus escritores favoritos é o Haruki Murakami, de caráter existencial, autor de obras como Norwegian Wood e Minha Adorável Sputnik. Gosto do Paul Auster, de Nova York, que também considero bárbaro. Atualmente estou lendo a biografia do Tony Iommi, guitarrista do Black Sabbath. É divertidíssimo e fala de como ele desenvolveu a técnica de guitarra que tanto influenciou o heavy metal. Como falei, sou um grande fã de música. A música influencia meu jeito de escrever. O meu primeiro livro é dedicado ao Black Sabbath. O último dediquei ao Sepultura. Curto jazz, blues, música erudita, música brasileira e, claro, muito rock’n’roll!

Na literatura nacional, algum escritor do gênero te inspira? 

Todos os que falei. Agora um autor decisivo na minha infância e pré-adolescência foi Monteiro Lobato. Depois de ler Reinações de Narizinho e outros clássicos decidi que queria ser escritor e criar histórias envolventes como aquelas de Lobato. 

Como surgiu a sua vontade de ser escritor?

É algo tão natural para mim e que me acompanha há tanto tempo que nem lembraria exatamente como surgiu. Escrevo desde a infância. Continuei produzindo na adolescência, muito influenciado por Monteiro Lobato e por ficção científica. Infelizmente, todo esse material se perdeu. Quem sabe, alguma dessas ideias poderiam hoje ser reaproveitadas. Comecei a me dedicar seriamente, de escrever e arquivar as histórias, por volta dos 18 anos, mas levaria cerca de 20 anos para transformar o sonho em realidade. Uma época, achava que nunca publicaria um livro, mas aqui estou, já com três títulos. É gratificante. 

Quantos livros você costuma ler por mês?

Leio uma média de quatro livros por mês. Varia conforme meu tempo livre, que não é muito grande. 

O que indica para aqueles que querem iniciar a carreira de escritor?

Ler é fundamental. Acho que é impossível uma pessoa se tornar um bom escritor se não ler muito. A leitura ajuda em tudo: a pensar melhor, a escrever bem, a desenvolver uma visão de mundo, a adquirir uma postura crítica, a assimilar cultura. Ler estimula a criatividade e abre as portas da imaginação. E há outros elementos. Para ser escritor é necessário dedicar-se muito, ter paciência para passar horas escrevendo e depois revisando exaustivamente o material. Exige grande esforço, porém o retorno é um prazer sem igual.



Seus dois últimos livros: "Pedaço Mal Passado" e "Maldição do Fio Vilela".

Confiram:


Em "Pedaço Mal Passado", Marcelo Araújo reúne dois contos. Ambos envolvem um local sombrio em que viajantes são surpreendidos por moradores aparentemente simpáticos e solícitos, mas que escondiam, por inúmeras décadas, um enorme segredo. Desconhecendo os riscos e partindo de uma rápida confiança pré estabelecida, os viajantes se envolvem em situações sombrias e terríveis.
O escritor teve como ponto de partida a famosa obra "João e Maria". Os contos envolvem canibalismo, suspense, terror e boas pitadas de ironia. A linguagem é simples, o que permite uma leitura rápida e agradável.


Neste livro conhecemos Maria, o seu marido Antônio José (ou Tonzão) e Felipe, filho do casal. Eles vivem um cidade pequena do interior do Rio de Janeiro e enquanto Maria trabalha noite dia para sustentar a casa e oferecer um futuro digno ao filho, Tonzão, passa as noites no bar e não contribui com nada. De forma misteriosa ele conhece Fio, um homem que se veste de forma peculiar, se apresenta como amigo e faz inúmeras promessas de um futuro melhor. 

Porém, o que Tonzão não sabe é que o homem esconde segredos obscuros e perigosos, que trarão consequências para toda a sua família, principalmente para Felipe, que será a sua maior vítima.  

Com uma narrativa repleta de suspense e que esconde a verdade do leitor enquanto pode, a trama se desenvolve de forma ágil e envolvente. Quando a história termina, continuamos em busca de respostas, até que percebemos que ela não podem ser dadas


Isabela Lapa e Kellen Pavão – Administradoras do blog Universo dos Leitores, que fala de livros e de tudo que estiver relacionado a estes pequenos pedaços de papel que nos transferem do mundo real para o universo dos sonhos, das palavras e da felicidade!

1 comentários:

Marcelo disse...

Oi, amigos. Muito obrigado pelo espaço! Além desta entrevista no Universo dos Leitores, tem uma também na revista de cultura online Verbo 21. wwww.verbo21.com.br. Abraços!