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A luz do cárcere [Eritânia Brunoro]


A luz do cárcere 

Por Eritânia Brunoro 

Não tinha conta dos dias que haviam se passado, nem mesmo podia dizer se era dia ou noite. O sol nunca fazia visitas e deixava as sombras escuras reinarem. A pouca luz vinha da vela que ardia e que também fazia arder seus olhos. O lugar era fétido, mas já tinha se acostumado. Seus objetos de luxo eram um colchão velho e sujo, que ficava de um lado do cubículo e uma mesa com uma cadeira de pernas bambas, do outro. Havia também uma privada ao fundo, tão deprimente quanto o resto.

Judite era seu bem mais precioso: uma boneca que carregava consigo desde que fora trazida até ali. Era de pano, longas tranças de lã amarela amarradas com fitas vermelhas e um vestidinho que não se sabia mais a cor de tão encardido que estava. Seus olhos azuis há muito andavam inexpressivos para a menina.

- Judite, é hora da comida. - a menina sussurrava para a boneca em suas mãos ao mesmo tempo que corria para o fundo do quarto, numa tentativa de se esconder. Ouvia os passos descendo a escada e uma sombra aproximando-se da mesa. Ali, a sombra depositava um pão, um copo com água e uma vela, para depois dar meia volta e sumir na escuridão. Depois que a porta se fechava e ela ouvia um barulho que não sabia distinguir, tinha a certeza de que podia sair em segurança e ir até a mesa para comer.

- Judite, você precisa comer, está muito magrela. - a menina colocou a boneca sobre a mesa e degustou aquilo que seria o seu jantar: um pão endurecido e um copo com água salobra.

Antes de dormir, a menina se ajoelhava ao lado do colchão e fazia uma prece. Nas suas orações, sempre pedia que sua mãe viesse lhe buscar, pois tinha saudades dela e também da luz que não via. Havia se passado três anos, mas ela não se dava conta do tempo. Media pelo tamanho da saudade que sentia.

A menina costumava demorar muito a dormir. Às vezes, ficava perto da vela rabiscando desenhos com o pedaço do lápis que restara nas folhas amareladas do caderno. Desenhava a si de mãos dadas com sua mãe e Judite, a boneca. Depois mostrava-lhe o desenho e perguntava o que achava. Judite mantinha o seu olhar duro, fixo em algum lugar e nunca respondia. Mas a menina não se importava, bastava-lhe o fato de não estar sozinha.

Às vezes, ficava deitada pensando, tentando lembrar de alguma coisa do passado, tentando lembrar do rosto da mãe. Via em seu pensamento algumas imagens desfiguradas,  nada muito concreto. Mas sonhava. Sonhava que estava num lindo jardim correndo com um cachorrinho bem peludo e ouvia sua mãe rir alto e chamá-la, mas ela não entendia o nome que a mãe dizia. Embora parecesse ser muito bonita, seu rosto era distorcido, difícil de identificar qualquer traço que fosse. Ela corria para perto da mãe, mas ela sumia. E então, acordava chorando. Estes sonhos eram frequentes e a deixavam ainda mais triste.

Um dia, a menina viu uma luz, ou melhor, um ponto de luz na parede do cubículo. Ficou observando e foi até lá pegá-lo. O ponto se moveu. Olhou curiosa para aquilo - Como pode se mover? - E correu até sua nova posição, mais uma vez o ponto luminoso moveu-se e, agora, para o outro lado.

- Judite, você sabe o que é isso? - perguntou a menina para a boneca. O ponto se movia e se movia e depois sumia. Aquilo se repetiu por vários dias seguidos. E a caça a luz misteriosa nunca resultava em êxito para a menina. A luz aparecia e depois sumia novamente,  como num passe de mágica. Ficava se perguntando se de repente era a vela que fazia aquilo. Olhou a vela com curiosidade e lhe inquiriu – É você vela que faz isso? Pois se é, então pare, estou ficando com medo das suas brincadeiras.

Tão inocente era a menina, que conversava com a boneca e com a vela e com a mesa e a cadeira, pois era o que tinha, se não falasse, ia esquecer até disso. Já havia esquecido de como era, da cor dos seus olhos e dos seus cabelos, por não haver um espelho no lugar. Não lembrava nem mesmo do seu nome e não se recordava direito da mãe e se tinha realmente havido uma. Às vezes, achava que não.

- A luz voltou, Judite – disse a menina. E o balé da luz pela parede se repetia como nos outros dias. A menina, então, resolveu olhar na direção oposta a da luz no momento em que ouviu um barulho - O que será Judite? - falou com um certo medo.

O barulho na verdade, eram vozes. Percorreu suas pequenas mãos pela parede, apalpando-a. Não achou nada, mas o som continuava e a luz também. Teve uma ideia: arrastou a cadeira com cuidado para que não se desmanchasse até a parede de onde o som vinha mais forte – a parede do lado oposto ao da luz – voltou até a mesa e pegou a vela para iluminar. Subiu na cadeira com certa dificuldade, já que a mesma estava balançando e ainda carrega a vela em uma das mãos. Alisou a parede novamente, suspendeu a vela o máximo que pode e, então, se surpreendeu com o que viu e ouviu.

- Tem alguém aí embaixo? - a voz dizia. A menina se assustou. Ponderou se devia responder ou não. Tinha medo do desconhecido, medo da voz e da luz.

Olhou Judite, agora lá, adiante, deitada em cima do colchão, inerte, como se estivesse sem vida. - Judite, preciso de ajuda aqui. A menina sussurrava como se não desejasse ser ouvida, mas a boneca não respondia. Criou coragem e resolveu arriscar, lembrando-se de que a sombra podia descer as escadas a qualquer momento e, talvez, não gostasse de vê-la conversando com uma luz.

- Sim.

- foi só o que ela conseguiu dizer com a voz quase rouca de tanto medo. Nesse momento, a luz se mexeu e apagou, reaparecendo um pouco mais perto. A menina, que agora via o buraco no alto da parede, tremeu mais uma vez, quando a luz alcançou seu rosto cegando sua visão. Ela tentou proteger os pequenos olhos da claridade e disse:

- Quem ou o quê está aí? - ouviu um som abafado seguido de passos. Depois, um som alto de doer os ouvidos e alguém dizendo:

- Fique calma, vamos tirar você daí. - a menina se surpreendeu com o que ouviu, a cadeira amoleceu e desmoronou, levando-a direto ao chão, que com algum esforço, ainda conseguiu manter a vela acesa e intacta durante a queda. Correu até Judite – Anda, levanta, a luz disse que vai levar a gente embora daqui. - Levantou a boneca e começou a rodopiar, sentia algo indecifrável, algo que nunca havia sentido antes. A menina só conhecia a fome, o frio, a escuridão e, agora, tinha a luz e a voz.

Depois disso, seguiram-se vários barulhos distintos, que ela nem podia imaginar o que seriam. Só sabia que pareciam estar acima da sua cabeça. Ouvia, também, mais vozes, além daquela da luz. A luz agora era mágica, tinha poderes. A menina sentou-se no colchão e começou a conversar com a boneca:

- Vamos Judite, deixe eu arrumar seus cabelos e seu vestido, a luz precisa ver você bem bonita. - falava enquanto passava as mãos delicadamente pela boneca.

Algum tempo depois, ouviu aquele conhecido som da escada. Sentiu seu corpo estremecer de medo. Correu para o fundo do cubículo com Judite, sentou-se e a manteve bem junto de si. Vários passos foram ouvidos, várias sombras apareceram perto da mesa. - onde ela está? - a menina ouviu a luz mágica perguntar e a viu percorrendo o lugar, dançando sua dança nas paredes. Afundou mais um pouco no canto onde estava, no intuito de se esconder. Enfim, uma grande claridade se fez, deixou a menina com os olhos embaçados, cegando-a momentaneamente.

- Ali, ela está ali. - a luz disse. Na verdade, agora não era mais a luz, eram pessoas. Três pessoas grandes, bem maiores do que ela. Havia dois homens que vestiam roupas iguais e uma mulher muito bonita, parecida com a de seu sonho.

A mulher tinha longos cabelos loiros presos no alto da cabeça, um vestido bonito, um rosto de um branco pálido, mas de traços delicados. Seus olhos eram azuis e grandes, mas avermelhados ao mesmo tempo. Ela chorava e a menina não entendia o porquê. A mulher correu até ela, que encolheu-se mais um pouco. - Como está maltratada a minha filha – a mulher dizia e continuava chorando. - Judite, você está em segurança agora, vou levar você para casa, a sua verdadeira casa – a mulher acariciava o rosto da menina. A menina não entendia nada, mas sentia uma estranha felicidade e acabou cedendo ao abraço que lhe foi oferecido. 

***
Seu pai, possessivo como era em relação a sua mãe, a prendia em casa, pois era moça bonita e prendada, mas desejava mais da vida. Queria estudar, trabalhar, ser secretária de algum escritório ou consultório médico, pois achava que eram importantes as moças que tinham tal profissão.  Mas ele, o Zé Carlos, não pensava assim. Tinha ciúmes de ver a esposa  com os colegas de aula ou com as amigas vizinhas e, por isso, decidiu que tinha que trancá-la. Tantas foram as discussões - a menina assistia a tudo sem compreender, pois era muito miúda ainda – que a coisa se agravou. Zé Carlos tornou-se violento, vez por outra chegava bêbado em casa e descontava suas frustrações em Teresa.

Um dia, a esposa resolveu por um fim naquilo tudo. Tentou sair de casa com a filha, mas ele chegou mais cedo e a flagrou arrumando as malas. A discussão foi retomada, ele lhe tomou as roupas das mãos e as queimou bem na sua frente, fazendo a seguinte ameaça – Tu sai, mais não leva a menina. Não fiz de ti uma mulher obediente, mas farei dela uma boa filha - E foi o que aconteceu. Com o peso da dor no coração, Teresa teve que abandonar a filha, mas prometeu que um dia voltaria e, eis que ali estava, cumprindo o que havia dito.

Com ajuda de parentes, que moravam em outra cidade e que não tinham ciência do que vinha acontecendo, pois ele havia lhe proibido manter contato após o nascimento da menina, ela conseguiu refazer sua vida. Completou os estudos, arrumou um emprego – que não era de secretária, mas ainda havia o sonho - e casou-se novamente com um rapaz trabalhador e educado de quem sua família tinha muito apreço. Ele sabia de toda a estória e prometeu que iria ajudar Teresa a recuperar a filha e, o único caminho para isso, seria dar queixa na polícia.

Ali eles estavam, ela com a filha assustada e agarrada as suas pernas, o novo marido, alguns vizinhos curiosos e, saindo daquela casa, os dois policiais carregando Zé Carlos, algemado e vociferando blasfêmias que nem se convém repetir. Zé Carlos foi indiciado por cárcere privado, entre outras coisas. Não restavam dúvidas de seus crimes, mas sim de se a menina conseguiria perdoar o pai um dia.

A menina foi tirada dali, do cubículo fétido onde permaneceu por três anos. Tinha três quando foi parar lá. Seu nome era Judite e ela havia dado esse nome a boneca, porque só este que vinha em seus pensamentos quando pensou em batizá-la. Na verdade, era uma lembrança que ela não sabia que tinha de seu próprio nome e que os maus-tratos lhe haviam usurpado.

***
A mulher, que antes era sonho, virou luz, depois voz e, agora, era sua mãe. O sonho deixou de ser sonho e virou realidade. Quanto à Judite – a boneca – bom, essa teve que ser rebatizada, já que este nome já tinha dona, passou-se então a chamar-se Rebeca num ritual improvisado de batismo feito por Judite e sua mãe Teresa, numa tarde ensolarada de domingo, no quintal de sua nova casa.

Eritânia Brunoro -  nasceu em 01/05/78 em Rio Branco - Acre. Bacharel em Sistemas de Informação, pós-graduada em Educação Ambiental e Banco de Dados. Fiscal de Cadastro e Tributação Rural no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA.
Delegada Cultural da CONBLA (Confederação Brasileira de Letras e Artes) pelo Estado do Acre.
Membro correspondente da Academia de Artes de Cabo Frio/RJ - ARTPOP.
Membro correspondente da Academia Niteroiense de Belas Artes - ANBA.
Associada a Associação Internacional de Escritores e Artistas - LITERARTE.
Membro da Associação Internacional Poetas Del Mundo.

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