MEU CORAÇÃO EM TUAS MÃOS [Fabrício Carpinejar]


MEU CORAÇÃO EM TUAS MÃOS

Arte de Fatturi

– Escute meu coração! – ela me pediu.

Achei bobagem. Concluí que era coisa de criança, que adultos não deviam perder tempo ouvindo o coração.

Lembrava uma infantilidade, uma doçura extravagante.

Apesar de minha recusa, ela colocou minha palma esquerda sobre seu peito.

Fingi interesse até que a sequência virou música.

Fazia muito que não ouvia o coração com as mãos.

A mão é o ouvido perfeito.

A mão é uma concha natural; o oceano nos dedos.

Naquela hora, eu capturei o animal acelerado, seu silêncio enervado, seu desejo correndo para todas as veias da boca.

Espantei-me com a banalidade, a redescoberta do óbvio, como se estivesse aprendendo a amarrar os cadarços depois de velho.

Eu entendia o que ela estava sentindo melhor do que se falasse. Eu via que ela era real, e que ela era possível.

As palavras foram se tornando palpáveis. As frases cresciam em sentido. É como um coro que desmancha a solidão do pensamento.

Eu me apavorei com o meu desconhecimento do gesto. Por que não cumprimento as pessoas escutando seu coração?

Por que abandonei o hábito de pequeno? Por que reservei a mecânica ao médico?

Por que não me permitia ser despudoradamente emocional?
Ouvir o coração é como acompanhar os passos num piso de madeira. A gente identifica o familiar avançando pela casa, somos capazes de adivinhar o cômodo em que se encontra.
Ouvir o coração é como ouvir um órgão numa igreja, não um piano.

Há uma diferença de fundo. Os tubos de metal e de madeira ressoam como um segundo sino, em caixas de cinco andares.

Ecoa um planger épico, inevitável. O corpo já treme ao andar.

O coração é mesmo um altar, mas quem ainda escuta?

Ouve-se o batimento da criança no ventre, os pais se emocionam com os primeiros sinais de vida de seus filhos, mas nos desacostumamos com o próprio ritmo. Ninguém nos inspira ou exige sua consulta.

Esquecemos de conferir o beijo, o abraço e o toque registrados lá, na linha cardíaca.

Com o coração dela em minhas mãos, compreendi qual o nosso medo. Quem escuta o coração não machuca o outro. Será responsável pela fraqueza. 

Sofrerá esperando o próximo suspiro do som. Estará consciente do intervalo de cada batida. Tem noção do que é ferir, e como dói ser sozinho.




Publicado no jornal Zero Hora 
Coluna semanal, Revista Donna, p. 6
Porto Alegre (RS), 1º/09/2013 Edição N° 17540


Fabrício Carpinejar-poeta, cronista, jornalista e professor, mestre em Literatura Brasileira pela Ufrgs. Vem sendo aclamado por escritores do porte de Carlos Heitor Cony, Millôr Fernandes, Ignácio de Loyola Brandão e Antonio Skármeta como um dos principais nomes da poesia contemporânea.

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