NÃO FOSSE LEMINSKI, EU ESTARIA POR FORA [Geraldo Trombin]

NÃO FOSSE LEMINSKI, EU ESTARIA POR FORA 

“Quem está por fora / não segura / um olhar que demora”. Não fossem os versos de Leminski, eu ainda estaria totalmente por fora; não teria entrado tão profundamente nos olhos dela e enxergado a sua alma.

Estar por fora é avistar apenas impossibilidades; descobrir só caminhos de pedregulhos, mata-burros e atoleiros. É algemar as mãos e acorrentar os pés da perspectiva. É perder a iniciativa.

Estar por fora é freezer abarrotado de gelo, que nunca derrete. É flor que morre no jardim da sequidão, regado a indiferenças.  

Não fosse Leminski, eu continuaria dormindo fora de mim, encostando a minha cabeça no travesseiro duro da apatia; levando fora até dos braços da minha cama, sem conseguir pregar os olhos.

Estar por fora é salada sem sal ou qualquer tempero; dente mastigando verdes, vermelhos e amarelos sem sentir textura, cor ou sabor. É tomar suco de berinjela (argh!) ou fazer a dieta da lua para emagrecer, sem perder um grama sequer. É trocar a beleza do romantismo à luz de velas ou do luar pela falsa beleza do corpo esculpido pela força da mídia que cria padrões de consumo.

Não fosse Leminski, não daria o fora do meu próprio calabouço, onde – depois de eu mesmo ter me sequestrado, sem direito à negociação de resgate – me confinei sei lá por quanto tempo. Estar por fora é perder a visão no horizonte das paredes calejadas da desesperança; é entrar correndo na rua da angústia sem saída. É desperceber tudo o que existe de mais “sentível”.

Não fosse Leminski, eu jamais conseguiria entender que quando não estou dentro do sentimento, não sai crônica nem poema, não sai lágrima muito menos um sorriso de felicidade. Não sai nada! Quando estou dentro do sentimento, ah, cada coisa que eu faço, cada uma que eu invento! Invento até um encontro, e fico fora de mim de tamanha alegria quando olho nos olhinhos dela e percebo que eles estão exatamente como os meus: completamente por dentro.


 08.09.13 - Jornal O Liberal - Americana - SP

 Geraldo Trombin, publicitário, é colunista do blog ContemporArtes e colaborador do jornal “O Liberal”, de Americana/SP.Lançou em 1981 “Transparecer a Escuridão”, produção independente de poesias e crônicas, e em 2010 “Só Concursados - diVersos poemas, crônicas e contos premiados”.
Tem classificações em inúmeros concursos literários realizados em várias partes do país e também em Portugal, além de trabalhos publicados em jornal e diversas antologias.

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