O Amor e a Queda: crítica de “o amor e depois” [Rafael Zacca]

O Amor e a Queda: crítica de “o amor e depois”


O livro de Mariana Ianelli nos apresenta a imagem de um amor mítico. Qualquer coisa harmoniosa, ao abrigo da grande crise. Ainda assim, O amor e depois (2012) é um livro cristão, de um cristianismo antigo e enigmático, muito próximo do judaísmo. Mas não se engane: não se trata de salmos ao Senhor, nem de odes ao cristo. É cristão por nos contar a história da queda. Alguém provou da maçã, e então o mundo se tornou sofrimento, e devoração do tempo.

Um dia um fruto caído
O licor ungido na língua
O sangue fabricando amor
A morte é um escarlate súbito.[1]
[“Fruto Caído”, p.75.]

No princípio havia o amor, e isto era bom. “Onde reina o amor primeiro, / Morada de súbita / Ausência do medo.” (“Neste Lugar”, p.13) Só depois é que veio o verbo. Por isso Ianelli precisa das palavras antiquadas: rememorar não significa para ela instaurar no presente imagens congeladas do passado. Ela precisa recorrer a heras, geadas, bosques, e movimenta todo um vocabulário estritamente estrangeiro para apresentar um tempo que houve. Recorrer a esta estranheza se tornou um imperativo em sua poética. Qualquer latino-americano que não estranhe esses poemas já se mudou espiritualmente há algum tempo. A esses, o livro não se mostrará completo em sua força. Ianelli se debate, com palavras, contra as palavras. É um atentado à língua – mas apenas se a entendermos como História[2].

 ninguém se lembra
Que em outros tempos
Coisas minúsculas se agarravam
E cresciam atrás dos reposteiros
[“Legião”, p. 15.]

O poema “Arca da Lembrança” (p. 27) nos apresenta a imagem do rememorar de Ianelli. Não encontraremos aí uma lembrança exata: não é de carinhos e afagos, de lençóis e apartamentos, motéis e fast foods de que trata o poema. A “ocasião do ato secreto” é a de repovoar. Este o sucesso e o fracasso da memória. Ao que remonta a imagem do passado, não pode fazê-lo senão como um “imenso dorso de um barco naufragado”, com a saudade a lhe juncar “de ramos conchas e corais”. Não é tanto recordar o amor, mas a própria saudade, que é o interlúdio lutuoso entre a sala (o presente), o sol de opala (o poema) e o barco (o passado) naufragado (a queda). A imagem velada neste poema é o “e depois” (o futuro); ele se esconde entre as três estrofes. A saudade é ativa: ela vai juncando, no gerúndio.

O tempo está exposto, ainda que hermético e condensado, no livro de Ianelli. Mas deveríamos perguntar: por que nos é apresentado este tempo mítico, este tempo da mesmice, se desde o século XIX ingressamos em uma Era do Progresso que nada mais teria a ver com estes tempos circulares e seus rompimentos? E por que este planejamento de uma Cidade de Deus[3]? Ianelli nos mostra que se nós esquecemos o nosso passado, se o mundo deixou de ouvir a voz dos mortos (a tradição), algo permaneceu de olhos congelados. Há ainda um aedo, velho e antiquado, que repete a mesma ladainha.

A conversa das estátuas
Com seus olhos de pedra
Infinitamente ausentes
De se haverem voltado ao passado.
[“Mirada”, p. 71.]

Certamente, estas estátuas não somos nós. Estas estátuas – talvez os poetas, que reinventam secularmente esta atividade milenar de contar as coisas que precisam ser contadas – testemunham que “Não ficou uma só alma atrás da porta / Nem as portas ficaram. / Os gradis, as lanternas, os pilares, / Foram-se as barricadas. / A vida acontece agora em outra parte”. O amor e depois tenta atingir o cerne da imagem estática do Tempo do século XXI. A nossa época sem história, de tempo circular, quando se tornou mais fácil imaginar a destruição do próprio mundo do que a destruição do capitalismo, ou de nossas formas de produção da vida (Slavoj Žižek, Vivendo no fim dos tempos)[4]. “Já esquecemos o quanto foi destruído”, diz o poema “Panorama” (p. 91). Também isto os poemas de Ianelli parecem querer lembrar. O que é esta catástrofe? Esta que destruiu o tempo mítico e inaugurou uma devoração do tempo, até que, como uma cobra que come a própria cauda, se transformou novamente em circular?

O tempo cristão de Ianelli comporta duas medidas aparentemente contraditórias. Não é a toa que sua poética siga a concepção cristã de história, que vê a vida na Terra como uma linha do tempo que vai de um tempo mítico a outro, comportando duas texturas temporais: entre o estado da perfeição pré-babélico e o juízo final há a história dos homens, ou o tempo do poema. O céu de outrora, do tempo antes da catástrofe, antes da queda, antes dos poemas, se partiu quando um raio – fixado pelo travessão nos fins de estrofe – o despedaçou, e este céu se despedaça novamente a cada poema, uma vez rememorado.

Isto é um livro de poemas de amor, de qualquer forma. A catástrofe é um amor perdido. Duas perguntas irão surgir disso. Por isso muitos poemas de Ianelli possuem duas vozes, ou duas estrofes. Os poemas de duas e três estrofes são os mais representativos de sua poética: remontam a estes dois momentos – entre um céu de opala e um escarlate (e o raio que os parte) – em que alguém se debate. O poema “Composição” (p. 21) dá pistas deste procedimento: 

A lenta e refinada arte
De fazer nascer um adágio –
Extrair o peso a cada pedra
E ver mais alto o edifício
A cada coisa abandonada
A cada rosto de si mesmo perdido –
Esse edifício transparente e musical
Onde se vê um pássaro sobre as ruínas. 

Mas isto é um livro de poemas de amor. O que há de estranho é que o amor só é compreensível no momento de sua queda. Ele mora na consciência de que um dia houve. Talvez porque o amor não se pergunte o que é o amor. Da mesma forma, o tempo não se pergunta o que é o tempo, até que se torne, para nós, uma crise. E o poema não seria um poema se já não fosse uma crise da própria literatura. Esta é a imagem da catástrofe. (Por isso talvez pensemo-nos há tanto como uma Raça sobre o Planeta.) Só há o amor em sua ausência mesma. Por isso o primeiro poema do livro, que apresenta essa harmonia, só pode apresentá-la em sua queda. Ele se chama “Neste Lugar”. É aí que reina o amor primeiro. Porque no tempo do amor primeiro não havia a imagem do Senhor.

As duas perguntas que surgem desta poética são: o que deu errado? (é isto que tentam mirar as estátuas. É por isso que se insiste nesta região do que foi perdido); e algo de novo pode se engendrar nas ruínas? O que é este pássaro que voa? 

…e depois 

O poema “Uma manhã” (p. 67) sustenta um projeto cego da autora. Sete versos (foram sete os dias da criação) na primeira estrofe apresentam alguma voz que ecoa do passado distante. 

Haverá nisso pureza, sob a luz
Que ainda nos chega
De uma estrela há anos extinta:
Duas sombras que se amam
Porque foi em outra vida
A encruzilhada
De irreconciliáveis diferenças. 

Como uma releitura de Hiroshima Mon Amour (filme de Alan Resnais, 1959), que se pergunta como pode o amor (ou a arte) acontecer após a tragédia humana, a autora apresentará a Segunda Criação. A pergunta é antiga: como escrever poemas após Auschwitz? como fazer um filme após Hiroshima e Nagasaki? como amar após O Amor? Ianelli não é, aqui, messiânica – ao menos não no sentido a que estamos habituados. Ela nos apresenta a cama arruinada e amantes que se amam (talvez versos irmãos dos de Drummond: “vejo beijos que se beijam / (…) Vejo muitas outras coisas / que não ouso compreender…”): 

Desabrochada da noite
Como de um combate imenso,
Uma centelha do princípio dos tempos:
Numa cama de escombros
Nosso abraço inevitável,
Nossa nudez sem vexame
No ermo das coisas desfeitas. 

Não se vai longe com isso; não se chega a um programa de futuro. Mas talvez porque não existam os programas. O próprio poema, dividido em duas estrofes, só sabe apresentar o que se dá naturalmente. A imagem do que poderá vir está inscrita no próprio corpo. Surpreendentemente, Ianelli está tentando a imanência. É uma estranha estratégia escrever poemas tão adversos à língua das ruas para se recorrer à imanência. Mas somente através desta linguagem torta a autora consegue perseguir alguns vestígios do que é que perdemos e já nem lembramos mais. A utopia se crê no poder de rememorar. Não é por acaso que o último poema do livro cita o Narrador do filme Asas do desejo (1987), de Wim Wenders (um filme, aliás, que conta a história da queda de um anjo, na busca pela imanência), um velho poeta cansado que enxerga os escombros da história, mas procura uma utopia. Ianelli faz coro ao personagem: “Não descanso enquanto não encontrar a praça Potsdamer”, uma antiga praça destroçada pelo século XX alemão (que viu duas guerras mundiais e a ascensão do nazismo, além de ter sido dividida por um muro durante décadas).

Ainda assim, com sua simbologia cristã, Ianelli consegue conceber duas criações. Por isso seus poemas são ambivalentes. O poema “Uma manhã” não exclui a imagem destas duas manhãs: aquela extinta há muito tempo, e esta que parece se anunciar. O poema “Pedra de Sísifo” transforma o mito em dois: o mito infernal e o redimido. Estes versos remontam aos versos já canônicos de Hölderlin: “Mas onde há perigo / Cresce também o que salva.” Há alguma fé no poder destrutivo. Fazendo tábua rasa de si mesma, aceitando esta destruição, a autora cresce em sua força. O poema “Tigres brancos” (p. 83) condensa, de modo único, toda a poética que propõe Ianelli. Nele tudo está fundido: Tempo, Amor, História, Crise, Salvação… e já nos esquecemos, por um momento, se a autora fala de um novo amor, de um novo eu, ou de um novo tempo. O poema não é mais lírico; tornou-se um épico. Ou talvez fale mesmo dos tigres brancos, estes ao mesmo tempo esquecidos, e tão barateados em lojas que vendem souvenirs para novos amores plásticos. 

Podemos ser pródigos
(Verdadeiramente pródigos)
E não voltar às mesmas velhas histórias,
Não recontá-las tantas vezes
Até que se tornem
As fábulas do medo,
Do desejo e da revolta
Em que se gastam mais uma vez
O nosso tempo e a nossa sorte –

Podemos ser aqueles
Que nunca mais retornam
Os que merecem desta vez
O tempo presente –
A página imaculada –
Esse halo de majestade
Dos tigres à beira da extinção,
Sem rastros de vidas pregressas
E sem um fio de esperança. 

Ianelli não quer o tempo do mito. Apesar de fazê-lo, a poeta anuncia que podemos ainda não voltar às mesmas histórias – apenas quando necessário, antes que nossas repetições sacralizadoras transformem o momento da crise num ciclo mítico do medo. Mas Ianelli não quer o tempo do progresso – que no fundo é o mesmo do mito, e disto nossa época dá provas. O “e depois” do título de seu livro aponta para o presente. Para a página (supostamente) imaculada. Ianelli não quer negar a sua fraqueza. Quer estampar em um estandarte a iminência de sua extinção.

[ N.A. 1] O travessão que finaliza a primeira estrofe do poema transforma as estrofes em dois momentos discerníveis da poética de Ianelli. Todo o poema só é possível por causa da queda, assim como todos os poemas do livro só surgiram em função dela. O que se escreve é o escarlate súbito. Só a partir desta dor a primeira estrofe tem corpo. E o travessão sustenta o peso.

[2] A língua como História: a imagem de um bosque e de uma geada nos são estrangeiros; um sol imperioso, que nos engordura o corpo, não (a História se elabora no tempo e no espaço).

[3] Em outras palavras, por que Ianelli busca ainda este amor possível, como imagem de redenção?

[4] Fredric Jameson (em seu ensaio “As antinomias da Pós-Modernidade”, em A virada cultural) caracterizou este tempo sem história como o tempo da modernização sobre a modernização. O século XX ainda conheceria áreas tradicionais a serem colonizadas pela máquina destradicionalizadora, criando um contraste que permitia a divisão tripartida do tempo entre Passado, Presente e Futuro, o que caracterizaria o Tempo do Progresso. A nossa era, já ultramodernizada por excelência, conheceria uma repetição incessante do ritual de modernização a tal ponto, que ele teria se tornado a tradição. A antinomia aí posta é que, a princípio, a única possibilidade de transformar este Tempo seria interromper, justamente, as transformações. O livro de Ianelli nos dá vistas deste Tempo: por isso seu tempo é circular, pois este é o nosso tempo. Como as vitrines de um shopping center, onde a monotonia dá lugar à manutenção da vitrine, e as marcas mudam de lugar, tal e qual funciona a poética de Ianelli, repetindo monotonamente a atmosfera de seus poemas, alterando aqui e ali alguns símbolos, já esvaziados da força que o símbolo teve um dia. 

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