OSVANDIR E O CELULAR [Manoel Amaral]

OSVANDIR E O CELULAR

Aquela senhora vinha falando ao celular o tempo todo, já tinha quase meia hora que ela estava com o aparelho dependurado no ouvido.  Coisas bobas, de cozinha, cama e quarto conselho que ninguém quer ouvir. 

O outro não largava o telefone, mesmo que tivesse desligado como naquela piada do Didi Mocó, da TV. 

Agora com o advento deste notável equipamento que faz de tudo hoje em dia, um verdadeiro canivete suíço da tecnologia, o homem sente cada vez mais solitário. 

Quando a gente mais necessita dele, não tem crédito, está sem bateria. Já notaram, você acaba de colocar R$30,00 nesta merda e quando pensa que não o dinheiro evaporou-se. Tem algumas empresas sendo processadas por isso: prometem e não cumprem.

Mas estava Osvandir com um novo Galaxy S4, aquele que faz de tudo: é rádio, câmara fotográfica, “pode visualizar a mesma tela e compartilhar as músicas, os arquivos e os jogos favoritos de ambos. Pode criar fotos em movimento com o Modo Ação.” 

“Ligue para um amigo, atenda uma ligação, verifique seus e-mails e controle vídeos sem sequer tocar no aparelho. Acesse seu sistema pessoal HomeSync de todos os dispositivos e compartilhe com a família e os amigos.”

“Ele também cuida da sua saúde com sensores que ajustam automaticamente a configuração da tela e do volume de acordo com o ambiente onde você está, garantindo uma melhor experiência.” 

Não satisfeito com esta parafernália toda, que não faz nada sem bateria ou sem créditos, Osvandir resolveu radicalizar: comprou, da mesma empresa, um relógio que faz tudo que o seu computador fez, mas com alguma deficiência. 

“É o Galaxy Gear, o relógio inteligente, tem tela de Oled, (que ele nem sabe o que é) sensível ao toque, de 1,63 polegadas com resolução de 320 pixels x 320 pixels. O processador é de 800 MHz e a memória, de 512 Mbytes.” 

Na pulseira, o bichinho ainda conta com uma câmera de 4 Mpixels (reparar que na maioria dos celulares a câmara só tem 2 MPixels) e pode gravar vídeos em 720p de até 10 segundos. Para salvar tudo isso, 4 Gbytes de armazenamento. A bateria, terá autonomia de 25 horas.”  

Tem uma mentirinha por aí, nunca duram tanto assim. 

Está tudo lá no manual de várias páginas, podem conferir.

Pois então, Osvandir com este relógio no braço, o celular na mão, porque lugar de celular é na mão. Daqui alguns anos quando os jovens estiverem na meia idade, vão todos apresentar uma quadro clínico de uma nova doença: Celulite, problemas nos dedos da mão de tanto carregar celular. Assim com as mãos encrespadas, parecendo aqueles vampiros da época de filmes em preto e branco. 

Mas já existe Celulite que é “infecção bacteriana do subcutâneo, geralmente por estafilo aureus coagulase positivo, segundo nos informa a Wikipédia.”  Vai ficar muito difícil dos jovens entenderem, deixa prá lá. 

Mas voltando a nossa história, nosso herói assim equipado e ainda uma caneta espiã que grava duas horas, sem contar o seu binóculo, que para os menos avisados trata-se apenas de um simples óculos, mas que na realidade dá para enxergar até as crateras da lua. 

Ia ele todo feliz, com aqueles equipamentos moderníssimos, atravessando uma rua da cidade, quando um carro passou em alta velocidade (devia esta correndo da polícia) e levou-lhe aquele adorável óculos. 

Quando pensa que não um “pivete”, passa num skate e toma-lhe o celular, aquele com as várias funções.

Não tinha nem chegado em casa e um “dimenor”, daqueles grandões, de posse de um caco de vidro, ataca os seus bolsos, levando o dinheiro, o relógio (aquele, tipo computador) e jogando seus óculos no chão e pisando.

O ódio foi chegando rapidamente à cabeça de Osvandir, quando viu-se despojado de todos os seu bens, atacou aquele “dimenor”, mas maior em tamanho, pegou um fita adesiva, (nem sei porque ele andava com isso nos bolsos), daquelas largas,  amarrou o infeliz num poste e largou lá.

Escreveu num cartaz: -- “Este é ladrão!”.


Manoel Amaral- gosto de música, adoro passear pelos campos, namorar, conversar, dançar, beber um bom vinho. Escrever ou ler um bom livro e revistas interessantes. Fazer turismo, visitar praias, museus, cidades históricas. Batalhar dia-a-dia por um mundo melhor.
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