TODO AQUELE JAZZ [Raul J.M. Arruda Filho]

TODO AQUELE JAZZ

Alcoolismo, drogas, loucura – há quem diga que esse triunvirato de “virtudes”, acompanhado de inúmeros problemas com a polícia, define o período áureo da história do jazz. A tese provavelmente não está longe da verdade, embora, claro, isso jamais seja toda a “verdade”. De qualquer forma, cabe ter em mente que Se o jazz apresenta um vínculo vital com “a luta universal do homem moderno”, como poderiam os homens que o criam não portar as cicatrizes dessa luta?

Narrativa refinada, Todo Aquele Jazz, do inglês Geoff Dyer, atravessa as áreas nebulosas que separam a historiografia e o ensaio literário, recria histórias de vários protagonistas do mundo jazzístico e, de uma maneira especial, trava de maneira heterodoxa o combate entre acordes e serenidade. Como se não bastasse, o livro rompe com alguns mitos musicais. Talvez o mais importante seja a regra não escrita que separa a obra artística da história pessoal. Navegando em águas perigosas, Geoff Dyer discorda desse dogma e procura – mesmo que seja ficcionalmente – iluminar as áreas escuras da essência jazzística: muito daquilo que constitui a grandeza do jazz se situa além do limite da técnica; sobretudo quando, como todos os músicos concordam, eles têm de pôr todo o seu ser no que estão tocando, quando a música depende da vivência deles, do que eles têm a oferecer como pessoas.

Thelonious Monk

Jazz é o paraíso dos anjos decaídos. Milhares de doidões, incontáveis fãs da esquadrilha da fumaça, escravos da heroína, centenas de picadas entre os dedos do pé – quando as veias do braço não são mais suficientes para acalmar a loucura que vai tomando conta do corpo –, carência que somente pode ser suspensa com o abrir das portas para o Paraíso Artificial, momento de alívio para esse sofrimento sem fim.

Muitas histórias, imagens idiossincráticas, tempestades incontroláveis, paixão inesgotável: Lester Young não conseguia resistir às drogas, a qualquer droga; a generosidade de Thelonious Monk que, para não denunciar Bud Powell, cumpriu um ano de prisão; Ben Webster, uma garrafa após a outra, mergulhava nas profundezas do inferno; Art Pepper ressentido por ser branco; a fúria titânica de Charles Mingus e os estragos absurdos que ele causou; a fragilidade psíquica de Bud Powell, semelhante a um prato prestes a cair da mesa e se fragmentar em mil pedaços; o irresistível charme de Chet Baker com as mulheres.

Chet Baker e Art Pepper
O jazz pode ser ouvido em bar, ambiente esfumaçado, o som das vozes abafando a música que está sendo tocada no palco. Raramente há silêncio. Perto do bar sempre há algum descornado chorando amores perdidos, incompreensões do mundo, sede infinita. O encantamento – encantado momento – está reservado para ocasiões especiais. Ilusões compostas pela força dos metais: clarinete, trompete, trombone, tuba, trompa, saxofone (alto, soprano, tenor). Miragens produzidas pela suavidade das cordas: baixo, contrabaixo, piano. Alegria em ritmo da percussão: bateria, xilofone.

Jazz pode ser apreciado em casa. Experiência egoísta. As janelas fechadas (para que o som não fuja para a rua). O volume na medida, nem muito baixo, nem muito alto – a boa musica não incomoda os vizinhos. Uma taça de vinho ao alcance da mão (ou se for da preferência do ouvinte, uísque). A emoção infiltrando-se na pele, arrepiando, enlevando os sentidos e os sentimentos.
Duke Ellington

Duke Ellington e Harry Carney. De forma carinhosa, Geoff Dyer fragmentou essa história, separando as outras histórias, separando os outros personagens. Os pneus do carro engolindo a estrada. Milhares de quilômetros. Viagem sem conclusão. Cada cidade acrescentando um ponto no mapa que eles constroem diariamente. Procura pelo fim do mundo. Ou o começo de tudo. Contudo, Duke atravessa a imensidão estadunidense anotando as ideias que iam surgindo a todo instante, confiante em que mais tarde haveria de achar uma utilidade musical para aquilo.
Todo Aquele Jazz é um prazeroso passeio musical – mimetizando os sons, estabelecendo harmonias e arranjos inovadores. Sem pretensões historiográficas ou hagiográficas, o livro recupera ficcionalmente a vida de alguns dos anti-heróis que definiram o que, modernamente, é chamado jazz. Comprovação eficiente de que a existência se define na construção de outros acordes.
 
Red Allen, Ben Webster e Pee Wee Russell
No posfácio, Tradição, influencia e inovação, Geoff Dyer abandona a ficção e se concentra na teoria crítica. Contrastando o passado e o presente, traça uma linha de desânimo. Sem muita esperança no futuro do jazz, reverencia os anos 50 e 60: Comparado com as outras formas de música existentes, o jazz é demasiado sofisticado para tornar-se porta-voz da vivencia do gueto. O hip-hop faz isso melhor. Além disso, mordaz, faz um comentário que coloca em xeque os hábitos culturais contemporâneos: [atualmente] os músicos não precisam competir com um excesso de conversa nas mesas para se fazerem ouvir, mas é frequente que boa parte da plateia veja o jazz como fundo envolvente para um jantar de luxo.  


Charlie Mingus e Eric Dolphy


TRECHO ESCOLHIDO


Pouco a pouco ele começou a assumir o peso e as dimensões de seu instrumento. Ficou tão corpulento que o contrabaixo era um objeto que ele simplesmente pendurava no ombro como uma bolsa de material esportivo, quase sem notar o peso. Quanto maior ele ficava, menor se tornava o contrabaixo. Era capaz de obrigá-lo a fazer o que ele queria. Algumas pessoas tocavam contrabaixo como escultores, cinzelando notas num enorme bloco de pedra. Mingus o tocava como se estivesse em luta com ele, prendendo seu braço, agarrando-o pelo pescoço, beliscando as cordas como se estripasse um inimigo. Seus dedos tinham a força de um alicate. Havia quem alegasse tê-lo visto segurar um tijolo entre o polegar e o indicador e deixar duas leves depressões onde havia apertado. Logo em seguida era capaz de pinçar as cordas com a doçura de uma abelha pousando nas pétalas róseas de uma flor africana que medrasse num lugar onde ninguém nunca tivesse pisado. Se usava o arco, o som do contrabaixo lembrava o murmúrio de uma congregação de mil fiéis numa igreja.


Raul J.M. Arruda Filho, Doutor em Teoria da Literatura (UFSC, 2008), publicou três livros de poesia (“Um Abraço pra quem Fica”, “Cigarro Apagado no Fundo da Taça” e “Referências”). Leitor de tempo integral, escritor ocasional, segue a proposta por um dos personagens do John Steinbeck: “Devoro histórias como se fossem uvas”.

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