As Teorias Selvagens de Pola Oloixarac [Wuldson Marcelo]


As Teorias Selvagens de Pola Oloixarac

Às vezes no mundo das artes deparamo-nos com obras que causam um espetacular frisson, e o burburinho em torno de suas supostas ou reconhecíveis qualidades transforma-se em um frenesi que começa a agregar admiradores e detratores em larga escala. Como, por exemplo, são os casos de “A Fonte” (1917), o urinol de porcelana branca, do escultor e pintor francês Marcel Duchamp, do romance “Madame Bovary” (1857), de Gustave Flaubert, e do filme “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick. Logo, a crítica especializada, seja de qual campo artístico for, ou incensa a obra ou a desanca aos seus leitores e seguidores. Mas, a fama de autor/produção genial ou polêmico já está consolidada. O romance “As teorias selvagens” (2008), da escritora argentina Pola Oloixarac, conseguiu conquistar esse status de livro ao qual se ama ou se odeia, principalmente em seu país natal.

“As teorias selvagens” dividiu a crítica e amealhou uma legião de fãs, sendo traduzido para vários idiomas. Oloixarac recebeu o título de musa geek, por seu romance tratar de assuntos como blogs, videogame e universo hacker. Assim como um painel pós-moderno, o livro traz assuntos diversos indo da antropologia à cultura pop, da pornografia (com direito a citação da diva Jenna Jameson) à filosofia, assemelha-se à uma colagem que passeia do erudito ao cotidiano, com rapidez, e nem sempre com a fluidez necessária. Ao tratar de um ambiente intelectualizado, como o curso de Filosofia da Universidade de Buenos Aires, Pola Oloixarac pratica um exercício de sátira e desmitificação da vida acadêmica em tempos de agrupamentos frágeis e identidades cambiantes.

“As teorias selvagens” é uma obra de difícil classificação. A crítica acabou por etiquetá-la de inúmeras formas: romance filosófico, de humor negro, de geração ou de micro etnografia cultural. Conforme for, o livro de estreia de Pola não se prende a gêneros ou a etiquetas pré-fabricadas para tornar brando o trabalho de quem cataloga literatura ou tem a missão de defini-los, para encapsulá-los em confortáveis rótulos. Talvez, “As teorias selvagens” seja apenas uma obra contemporânea. Em certa passagem do livro está escrito que quem apresenta uma teoria quer gritá-la, logo as teorias surgem em profusão, sejam antropológicas ou sexuais. E são por elas que se locomovem físico e intelectualmente as figuras intelectuais descritas por Oloixarac, representadas por jovens herdeiros de militantes contra a sangrenta ditadura militar vivida pelos argentinos nas décadas de 1970 e 1980. Se as grandes narrativas são coisas do passado, teorias distribuídas em fragmentos, conectados ou ilógicos, são características do mundo hodierno. A contemporaneidade é um tempo de escuridão, um estar no presente que está distante da luz que queremos alcançar. Porém, ser contemporâneo é viver nesta condição e ter a percepção dessa fratura. Como elucida Giorgio Agamben, “(...) ser contemporâneo é, antes de tudo, uma questão de coragem: porque significa ser capaz não apenas de manter fixo o olhar no escuro da época, mas também de perceber nesse escuro uma luz que, dirigida para nós, distancia-se infinitamente de nós” (Giorgio Agamben, O que é o contemporâneo? E outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009, p. 69). Desse modo, as peripécias intelectuais das personagens de Oloixarac são uma fuga e um acerto com os anos de chumbo argentino. Ao observar a geração 2.0, para a qual o ciberespaço proporciona vida, identidade e visibilidade em quantidades tão generosas quanto a da realidade (ou a que chamamos com tal), Pola constrói uma crítica à memória impositiva e de identificação forçada ao horror, que, muitas vezes, gerações coagem a sua a sucessora a abraçar. Ou melhor, seleciona o que guardar dos fatos. Através de filhos de militantes de esquerda, que se ergueram contra os ditames de um regime facínora e adepto das “benesses” do capital, a teia de estórias de “As teorias selvagens” vai capturando as contradições, a paralisia e certa intocabilidade a um fantasma que rege os sentimentos que parecem ser obrigatórios a todos sentirem sobre eventos brutais ou catastróficos vividos por um povo. Assim com Roberto Benigne e o seu “A vida é bela”, Pola foi acusada de desrespeitar a história, e taxada de direitista, apesar de sua formação intelectual ser de esquerda. Mas sua crítica a um pedagogia de esquerda, quando esta alcança o poder, mostra-se ácida, pois desvela como uma doutrina de cartilha se cristaliza como método educacional e acaba por se converter nos mesmo espelhos de vaidade de uma pedagogia liberal. Parece que ambos alijam a criatividade e a afirmação pela recusa.

Três personagens centrais transitam entre as páginas de “As teorias selvagens”: Kamtchowsky, ou K., e Pablo, cujo apelido é Pabst, jovens inteligentes, que não possuem beleza física, são entendidos e cuja diversão principal pode ser denominada como a de destilar uma sagacidade mordaz a respeito do comportamento dos que os cercam; e a narradora Rosa Ostreech, uma bela estudante de filosofia, que nutre uma paixão obsessiva pelo professor García Roxler e que tem a pretensão de completar as pesquisa que Roxler desenvolveu sobre a teoria das transmissões egóicas do antropólogo holandês Johan van Vliet, que versa sobre o comportamento humano e como as transformações sociais ocorreram na tensão entre o ser humano e a fera, da passagem da espécie humana de perseguida à predadora (a maldade do homem ou sua aptidão para a violência é explicado pela necessidade de sobrevivência à bestialidade de uma época pré-civilizatória). O refinamento estilístico de Pola Oloixarac, altamente filosófico e referencial ao extremo, traz à baila um olhar sobre os costumes sociais, sexuais e virtuais de uma geração que, por falta de convicções políticas (desnecessárias talvez?), enseja divertimentos e jogos narcisistas e perversos, no qual o Outro é objeto de constantes e perspicazes afrontas intelectuais como desafios que terminam em frustração ou tédio e que não preenchem o vazio existencial (alimentando com boas doses de arrogância) que transforma angústia em indiferença ou vaidade. Para Kamtchowsky e Pabst, a guerra é contra certa assepsia intelectual e o modo como a beleza superficial é erguida como corolário do reconhecimento social (transitar de um lado para outro em busca de satisfação e, consequentemente, descartá-la e rumar para uma nova forma de prazer é um mecanismo da sociedade de consumo, no qual até a desilusão e o desajustamento são cooptados para a vida de “mercadoria”). Ao se unirem a Andy e Mara, dois sedutores jovens, K. e Pabst podem exercer a aproximação insidiosa pautada na desconfiança e liberdade possíveis das relações contemporâneas. Com a desconstrução do amor romântico, como postula Bauman em “Amor líquido: a fragilidade do laços humanos”, o amor perde o sentido e qualquer coisa serve para ser camuflada como se o fosse, mas sem a exigência de sê-lo realmente. Uma vez vivido pode ser descartado, já que nada mais será duradouro em um mundo liquefeito.

E é em um jogo de videogame baseado na ditadura militar argentina, criado pelo casal K. e Pabst, que as sombras dos passados, de extermínios (como vistas no filme “Garagem Olimpo” [1999], de Marco Bechis) ao drama dos desaparecidos políticos (um dos temas da obra-prima “A história oficial” [1985], do cineasta Luiz Puenzo), são exorcizados e contemplados pela memória, pois ao se transformar em jogo perpetua o fato ao mesmo tempo em que o descaracteriza e lhe banaliza. Na desconstrução das figuras imponentes da resistência ao Estado fascista, já que cada jogador representa o estereótipo de um militante e quem joga pode trocar de identidade quando quiser, logo a preferência por um jogador muda conforme o desejo do momento, assim a significação não se sustenta mais pela estrutura psicológica de projeção ou identificação, mas pela estatística (que é capturado pelos jovens, que desenvolvem com o auxílio de hackers um dispositivo para acompanhar a trajetória do jogo). Desse modo, a mudança deliberada de lado no jogo, entre militares e militantes, é algo percebido com naturalidade. Mudar de lado não é traição num mundo de anomia artística e de não vinculação obrigatória a dogmas e convicções (no lado ocidental do planeta) para forjar uma identidade.

Neste aspecto, chama a atenção as dúvidas e os dramas da tia de K., Vivian, que escreve cartas a Mao Tse-Tung, na qual confessa que a ideia de amor livre de revolucionário, para ela, entra em choque com o desejo de um relacionamento baseado na fidelidade com o seu companheiro (o que leva a acusação de rendição a sentimentos burgueses), que tem amantes, enquanto ela não se sente confortável entregando-se a outros corpos. Essa incursão na seara amorosa e nos conflitos em relação aos aspectos de formação de um grupo, apresenta a dificuldade de um engajamento completo as disciplinas (ou falta delas) de uma liberação total, traços de conservadorismo ou amor romântico são cabíveis em um mundo que não resolveu tensões políticas e as fortifica para manter-se vivo. A vida, afinal, é conflito. Se a discussão a respeito da propriedade sobre o corpo do parceiro ou a liberdade de se efetivar os desideratos da atração sexual surge como um problema em meio à revolução (ou tentativa) de costumes e luta por liberdade política, para a geração 2.0 problemas dessa ordem são irrelevantes, já que como argumenta Pabst, “... O sexo é um sistema estável de formas egoístas que giram ao redor do sol da vaidade. O espírito de intercâmbio da promiscuidade propõe uma nova versão do mito fundador da democracia: fazer o exercício de nos supor iguais deve, por definição, transcender as barreiras da atividade privada, as meras contingências íntimas. Só agora, despolitizada de cenouras teológicas, completamente fria e pura, a revolução sexual retoma o sentido verdadeiro das revolutiones de Copérnico – o instinto conservador da vaidade como triunfo estético e moral da democracia” (Pola Oloixarac, As teorias selvagens. São Paulo: Saraiva, 2011, p. 84).

Teorias e jogos. Se não há mais grandes narrativas, teses irrefutáveis, teorias absolutas, o Eldorado (mas parece haver uma indústria acadêmica de conceitos e teses que consolidam o mais do mesmo, o que leva a um vale-tudo teórico e imagético para se construir perspectivas) sobrevive o jogo nas relações cotidianas, no qual a guerra é o modelo e a vitória não está mais depositada somente na força, mas na argúcia argumentativa, no domínio intelectual do Outro. Caso contrário, há as veredas da notoriedade, sejam elas do blog ou da pornografia. A academia com a sua egotrip é um campo de batalha e a fama seu triunfo ordinário. Do lado de fora dos muros universitários, a busca incessante pelos “quinze minutos de fama”.

“As teorias selvagens” não deixa de ser um livro irregular, hermético e às vezes confuso, entretanto tais dificuldades não são obstáculos para a voluptuosidade dos enxertos referenciais de Oloixarac e nem para sua crítica ao passado e presente argentino, e, por extensão ao mundo ocidental.


Wuldson Marcelo é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea e graduado em Filosofia (ambos pela UFMT). É revisor de textos, autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (Editora Multifoco, 2013) e um dos organizadores da coletânea “Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na Cidade Verde” (Editora Multifoco, 2013).

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