É com esse que eu vou [Marcelo Vitorino]


É com esse que eu vou 

Mesmo sem uma única palavra, Fernando percebeu que Margo estava tensa. Pudera, em anos nunca havia estado com outro homem que não Renato, seu marido. Antes que pedras sejam atiradas em Margo é preciso que se diga uma coisa: nunca houve uma mulher tão fiel quanto ela!

Mesmo tendo gosto por romances complicados, traição não fazia parte de seu cardápio de atividades. Por sinal, a tensão notada se dava por causa desse ato que a própria considerava um dos piores que já fez.

A miscelânea de sinais que Margo emanava naquele instante dariam conta de encher o consultório de um psicanalista por dias se fossem divididos em várias pessoas.
O silêncio que se impôs mostrava a culpa que só os algozes têm. Não é a culpa pelo crime, mas sim pela satisfação que a prática lhes dá. A maneira com que exibia o intenso sorriso agia como uma confissão, deixava claro que o crime que cometera compensou, muito além até, o fez em sua plenitude. O que lhe deixava ainda mais assustada.

Mas o que mais intrigava Fernando era o que se dizia no olhar. Uma mistura de incredulidade e felicidade, o meio entre o sim e o não, uma tentativa de se mostrar pronta para viver aquela paixão ao mesmo tempo em que estava presa aos seus medos, que por ora contidos, estavam lá, como uma impressão digital.

Diante daquela atmosfera quase que insana, tudo o mais naquele quarto era completamente desnecessário e diminuto. Mesmo que passasse uma manada de elefantes, um circo e uma procissão, o casal não notaria dada a cumplicidade entre suas sensações.

Em dado momento, Fernando não se conteve. No intuito de entender melhor o que estava acontecendo, perguntou:

—   O que foi? Está tudo bem?

—   Eu não sei. É estranho… Eu quero estar aqui, mas não sei se estou tomando a decisão certa.

A resposta não poderia ser mais perturbadora para o amante. Desde o momento que a conheceu, Fernando não fez outra coisa a não ser desejá-la.

Não se engane em achar que diante daquela mulher estava um amador juvenil, essa carapuça não lhe servia. Muito pelo contrário, com o passar dos anos ostentava uma confiança e uma fama de conquistador com orgulho.

Desde novo sua vida não foi outra a não ser rodeado de mulheres. Mesmo com toda diversidade de belezas, praticamente todas teriam qualidades que fariam qualquer homem se submeter aos seus caprichos. Contudo, os esforços das que tentaram foram em vão, Fernando era incorruptível. Ao menos, até aquele momento.

Há quem acredite que existem leis que regem o universo, como por exemplo, ação e reação. Fernando, para seu azar, era um desses. Imediatamente lhe ocorreu o pensamento que depois de fazer tantas mulheres sofrerem por amor, chegara o seu dia. Estaria condenado a provar do dissabor que é não ser correspondido na mesma proporção.

Se assim fosse, poderíamos dizer que o destino tem lá a sua porção sádica e irônica, pois há pouco tempo o conquistador havia decidido que deveria mudar de vida e levar uma rotina mais assentada.

O mesmo destino já havia lhe pregado uma peça em fazê-lo se interessar por uma mulher indisponível. Coisa que nunca tinha lhe ocorrido.

Poucos segundos foram necessários para que pensasse em todas as possibilidades, mas o tempo é muito subjetivo. Lhe pareciam horas e esse martírio só foi interrompido quando Margo novamente resolveu falar.

—   É tudo muito novo… Te peço que entenda. Meu casamento é perfeito, sem tirar nem por. Nunca tive motivos para olhar para o lado. O que é que eu vou fazer agora?

Fernando nem precisou pensar, mesmo tendo a conhecido dias antes, a maneira que aquela paixão lhe arrebatou e deixou atordoado não permitiu que tivesse outra resposta:

—   Foge comigo! Podemos fazer hoje, agora! Você pega as suas coisas e sumimos.

Claro que foi ignorado. Sua proposta não tinha a menor chance de ser aceita. Que mulher largaria um casamento perfeito para trás? Não havia motivo algum para que isso acontecesse. Margo chegou a desejar que houvesse, qualquer coisa serviria, mas não havia.

Era apenas o segundo encontro entre os dois, mas o estrago que aquela proximidade havia causado em seu casamento era muito grande. Acabou a sinergia, o interesse, o desejo. Com a crueldade que só a vida pode ter, sobrou uma coisa, o carinho.

Para os amigos, o carinho é a melhor coisa que se pode dar, mas a mulher que dá ao marido apenas carinho, acaba tornando-o ofensa, um desaforo. A situação é constrangedora para a esposa também, que vê-se presa a uma obrigação com quem já não ama mais.

Margo teria que se decidir. Qualquer atitude, não importando qual fosse, não tornaria pior o momento que vivia. Pensou por alguns minutos, deu um abraço apertado em Fernando e disse-lhe que esperasse até as coisas se resolverem, seria necessário um pouco mais de tempo. Vestiu-se e foi embora.

Como não queria voltar para casa resolveu parar em uma livraria para passar o tempo. Seus olhos foram seduzidos pelos guias de turismo. Roma, Buenos Aires eram destinos fáceis, no momento atual até uma visita ao Irã parecia uma boa ideia. A proposta da fuga lhe tornava-se cada vez mais sedutora, mas ao mesmo tempo seria indigno fugir assim, sem mais nem menos.

Comprou dois cartões postais, passou no correio. Endereçou o primeiro ao marido, onde era possível se ler a mensagem “Renato, sinto muito, mas amo outro homem. Peço-lhe que seja feliz e que entenda que não vou voltar.”. O segundo guardou como recordação da maior loucura que fez em sua vida.

Ao voltar para a casa de Fernando, pegando-o de surpresa, apenas disse:

—   Agora sim, sou tua!

Todos que conheciam o casal ficaram chocados, mas se tem algo tão certo quanto a morte, é que de uma paixão não se pode sair impune.



É com esse que eu vou
Composição de Pedro Caetano, na voz de Elis Regina 

Com esse que eu vou sambar até cair no chão 

Com esse eu vou desabafar na multidão

Se ninguém se animar 

Eu vou quebrar meu tamborim

Mas se a turma gostar vai ser pra mim 

É com esse que eu vou sambar até cair no chão

É com esse que eu vou desabafar na multidão 

Se ninguém se animar

Eu vou quebrar meu tamborim 

Mas se a turma gostar vai ser pra mim

Quero ver o ronca-ronca da cuíca 

Gente pobre, gente rica, deputado, senador

Quebra quebra eu quero ver 

Uma cabrocha boa

No piano da patroa batucando 

É com esse que eu vou

Mas quebra, quebra que eu quero ver 

Muita cabrocha boa, no piano da patroa

Fonte:

Marcelo Vitorino- Trabalho com publicidade desde 1999 e, depois de um tempo, acabei indo naturalmente para o marketing e desde 2007 passei a integrar o pessoal do marketing digital.
Como produtor de conteúdo na internet estreei escrevendo o Pergunte ao Urso, um projeto que visava entender como funcionava o consumo de conteúdo pelo público feminino. A ideia deu certo, o blog virou dois livros, teve presença em rádio, mídia impressa e até na televisão. Chegou a ter um milhão de acessos mensais.

No final de 2012 decidi que era a hora de virar a página e encerrar o projeto. Publiquei todo o meu aprendizado em um documento que está disponível na internet, portanto, se você quer começar um blog, sugiro que leia.
Acabei me viciando em escrever e interagir com o público. Já que não fui forte o bastante para largar o vício, entendi que o melhor caminho era começar outro projeto.

Sou fruto de uma família muito numerosa e como acabei chegando por último tive uma formação muito diferenciada. Aos 14 anos escutava muita Bossa Nova e MPB, depois passei a escutar Samba, Blues, Jazz e Soul. Fui escutar Rock e outros gêneros musicais bem mais velho.
O fato é que sempre gostei de música. Para mim, todo grande momento da vida tem uma trilha sonora.

Como referências literárias tenho dois modelos: Nelson Rodrigues e Luís Fernando Veríssimo. O primeiro pela ambientação perfeita que há nos seus textos, o segundo pelo diálogo e reflexões de seus personagens. 

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